Assis: a peregrinação segundo Ratzinger

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20 Outubro 2011

Quando João Paulo II convocou, em outubro de 1986, o encontro inter-religioso de Assis, o mundo ainda estava dividido em blocos e corria o perigo real de uma guerra assustadora e total. Houve, naquele primeiro encontro, excessos e levezas, imputáveis à organização imperfeita e certamente não ao pontífice. Porém, Karol Wojtyla foi muito claro: "Repito humildemente aqui a minha convicção: a paz leva o nome de Jesus Cristo".

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 19-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em janeiro de 2002, poucos meses depois dos atentados terroristas do 11 de setembro que trouxeram de modo inesperado e violento à cena mundial o tema da instrumentalização da religião que justifica o ódio, a morte dos inocentes, os massacres, o já idoso e doente João Paulo II quis repetir esse gesto da cidade do "Pobrezinho de Assis".

Nessa segunda edição, foi dada muito mais atenção para não oferecer nenhum pretexto para as críticas dos tradicionalistas sobre o risco do "sincretismo". Wojtyla pediu que se fixasse o olhar "sobre o mistério da cruz", sobre aquele "que se tornou a nossa paz". E reiterou que, dialogando, não é preciso "indultar de algum modo ao relativismo nem ao sincretismo", mas sim tomar "uma consciência mais viva do dever do testemunho e do anúncio".

Para esse segundo encontro de Assis, João Paulo II quis chegar à cidade de São Francisco juntamente com os líderes das outras religiões a bordo de um trem que partiu da Cidade do Vaticano. O papa "globetrotter", que, durante o seu pontificado, circulando de Norte a Sul e de Leste a Oeste pelo mundo, havia percorrido mais de três vezes a distância entre a Terra e a Lua, havia escolhido pela primeira vez o trem como meio de locomoção, como havia feito o seu antecessor João XXIII, quando, no dia 4 de outubro de 1962, às vésperas da abertura do Concílio Vaticano II, foi a Assis e a Loreto.

Em janeiro de 2002, entre os acompanhantes do pontífice polonês, até o fim, não estava previsto o nome de Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Não era segredo que o cardeal, fiel colaborador de Wojtyla, havia expressado reservas sobre a condução de Assis em 1986. Foi o secretário de João Paulo II, Dom Stanislaw Dziwisz, que convidou Ratzinger por vontade do papa, pedindo-lhe que participasse do segundo encontro inter-religioso pela paz. O prefeito obedeceu.

E, de retorno de Assis, impressionado com a experiência positiva, quis confiar à revista 30 Giorni uma espécie de diário dessa viagem, explicando o seu significado. Relendo-o, descobre-se nele a configuração que, hoje, aquele cardeal que se tornou papa quis para celebrar um novo encontro inter-religioso. Um encontro que, vale a pena lembrar, Bento XVI quis convocar por sua própria iniciativa, estando firmemente convencido da sua bondade e utilidade.

"Não se tratou – observou Ratzinger há nove anos, comentando a peregrinação de janeiro de 2002 – de uma autorrepresentação de religiões que seriam intercambiáveis entre si. Não se tratou de afirmar uma igualdade das religiões, que não existe. Assis foi, ao contrário, a expressão de um caminho, de uma busca, da peregrinação pela paz que só é tal se unida à justiça". "Com o seu testemunho pela paz, com o seu compromisso pela paz na justiça – continuava o cardeal –, os representantes das religiões empreenderam, dentro dos limites das suas capacidades, um caminho que deve ser, para todos, um caminho de purificação".

"Peregrinação" e "caminho" que devem ser, para todos, "purificação". São os elementos que se encontram novamente no programa de Assis III, como explicaram Dom Peter Kodwo Appiah Turkson e Dom Mario Toso, respectivamente presidente e secretário do Pontifício Conselho Justiça e Paz: "A ênfase será colocada na peregrinação e não na oração". Buscou-se "colocar o acento sobre as coisas práticas, como caminhar juntos pela justiça e pela paz".

Portanto, não haverá momentos de oração públicos, embora separadamente, como ocorreu em 1986. Haverá apenas o espaço para a oração pessoal de cada um. Em todo o caso, vale a pena lembrar que o cardeal Ratzinger, em seu livro Fede, Verità e Tolleranza, havia afirmado que, embora existindo "perigos inegáveis" de mal-entendidos, "também seria, porém, igualmente equivocado rejeitar em bloco e incondicionalmente a oração multirreligiosa", que deve estar ligada a determinadas condições e deve continuar sendo um "sinal em situações extraordinárias, em que, por assim dizer, se eleva um grito comum de angústia que sacudiria os corações dos homens e, ao mesmo tempo, sacudiria o coração de Deus".