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28 Agosto 2011

"Confissão. Meu primeiro voto foi para o Jânio Quadros. Não espalhe`, escreve Luís Fernando Verissimo, escritor, em artigo publicado no jornal Zero Hora, 29-08-2011.

Segundo ele, "do governo JK, podia-se dizer que não era corrupto, era despreocupado. Fomos injustos com ele. Pela minha parte, um pouco atrasado, peço desculpas",

Eis o artigo.

Confissão. Meu primeiro voto foi para o Jânio Quadros. Não espalhe. Parafraseando o samba antigo: se eu soubesse, naquele tempo, o que sei agora, eu não seria este ser que tenta se explicar e explicar as anomalias da política brasileira. Que me lembre, estava-se votando contra a corrupção do governo Kubitschek, que Jânio varreria. Mas Jânio não era só o anti-JK. Seu sucesso devia-se, em grande parte, a sua personalidade diferente, justamente ao fato de ser uma anomalia. Como aconteceria anos depois com o Collor, um Jânio Quadros sem a caspa. A suspeita de que fosse meio louco era uma credencial. O Brasil precisava de um presidente não convencional para fazer o que os convencionais não faziam. Mas Jânio foi anômalo demais.

Não sei se votei na figura excêntrica ou na sua promessa de limpar a sujeira de Brasília. A sujeira, vista desta distância no tempo, não parece tanta assim, a ponto de justificar o Jânio. Não demorou para a História – ou a falta de memória – absolver JK, que hoje é homenageado como um presidente exemplar, e foi até citado como tal no discurso de posse do Fernando Henrique. Mas na época foi a corrupção do seu governo que levou muitos eleitores – inclusive estreantes como eu – a votar na vassoura. Mais intrigante do que o breve governo do Jânio e o entusiasmo da maioria do eleitorado de então pelas suas esquisitices, que já prefiguravam o que viria depois, foi essa absolvição do Juscelino pelo tempo, essa sua lenta transformação de corrupto em exemplo. Talvez enaltecer JK seja uma espécie de penitência por termos acreditado no Jânio, sua alternativa maluca. Eu não posso rasurar meu currículo de eleitor, mas a nação pode corrigir suas opções do passado, esquecendo-as. Também não perdoamos o Collor?

Ou talvez se tenha chegado à conclusão que, para Juscelino fazer o que fez, industrializando o país, construindo Brasília etc., a promiscuidade de governo com empreiteiras e empreendedores era quase obrigatória e, em retrospecto, louvável. O governo só precisava se preocupar com eventuais críticas da UDN e de parte da imprensa, a Polícia Federal da época não se metia nessas coisas. Portanto, do governo JK, podia-se dizer que não era corrupto, era despreocupado. Fomos injustos com ele. Pela minha parte, um pouco atrasado, peço desculpas.

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