12 Junho 2011
Por trás dos paredões de concreto que crescem vertiginosamente a cada dia em Curitiba – originando condomínios verticais – existe uma nova população quase invisível aos olhos dos curitibanos. Paulistas, mineiros, baianos, paraibanos, piauienses e maranhenses figuram entre os principais candidatos a se tornar curitibanos por opção. Eles chegaram à cidade por causa da oportunidade de emprego na construção civil: alguns dizem que é apenas para fazer um pé de meia, mas há quem goste do frio sulista e queira ficar.
A reportagem é de Pollianna Milan e publicada pela Gazeta do Povo, 13-06-2011.
Como ainda não existe uma estatística atual que mostre quem e quantos são esses migrantes, basta percorrer alguns canteiros de obras para ver que eles existem e representam um acréscimo na população local. Em alguns casos, a construção é levantada graças a 80% da força de trabalho “estrangeira”. No coração do Centro Cívico, por exemplo, há um complexo construtivo que abriga, em grande parte, paulistas.
Eles próprios se intitulam paulistas, mas no meio há mineiros e nordestinos que foram parar em São Paulo e agora vieram para Curitiba. Entre eles está Josiane Pimenta, de Minas Gerais. “Fomos escolhidos para vir para cá [Curitiba], mas não fui bem acolhida pela cidade. O pessoal daqui tem restrição com quem é de fora”, diz. Washington Rodrigues da Silva é de João Pessoa (PB), mas também se considera paulista, assim como Adriano Pimenta da Silva, que é do Piauí. Os dois últimos estão em um alojamento em Curitiba até finalizar as obras. Washington gostou de Curitiba e diz que ficaria por aqui se pudesse.
Em outro ponto da cidade, nas proximidades do Jardim Botânico, dois nordestinos de mesmo nome, João, estão contentes com Curitiba e já decidiram: é aqui que vão morar. João Batista Serra da Silva é de Cajari (MA) e se mudou há um ano e dois meses com a esposa e o filho de 5 anos. Ele é carpinteiro, uma profissão bastante requisitada atualmente. “Já tive proposta de emprego para ir ao Japão, mas minha esposa não quis. Gosto daqui, mas sinto falta de comer lagosta. Na minha cidade o quilo custa R$ 5, aqui o preço é um absurdo.” João Maria da Silva Oliveira, de Natal (RN), também fixou residência, mas ainda não trouxe a família. “Eles chegam em agosto. Ela [a esposa] está se formando em Pedagogia e vai trabalhar nas escolas daqui. Pedi para trazer umas rapaduras das boas, porque aqui não tem”, diz.
Quem são eles
O que todos os novos moradores (provisórios ou não) têm em comum é estar na construção civil e em busca de uma situação financeira melhor. “Se formos analisar, esses trabalhadores tiveram um ganho salarial considerável por causa do boom imobiliário”, explica o geógrafo da Universidade Federal do Paraná Francisco Mendonça. Na falta de mão de obra, corre pelo Brasil a informação de que sobra emprego em Curitiba e até os mais desinformados acabam vindo.
No bairro Campo Comprido, um grupo de 40 mineiros vive de maneira bastante improvisada em um sobrado. Eles não querem ser identificados porque temem ser mandados embora (até porque estão em condições precárias, quase configurando trabalho escravo). “Nos prometeram que havia um alojamento organizado, mas chegamos aqui e não era bem assim. Também nos falaram que o salário era um, mas ao chegar, o valor é outro.” O grupo é de Minas Novas, grande parte trabalha na lavoura e decidiu vir a Curitiba para juntar um dinheirinho.
Eles contam que cada um pagou R$ 200 a um intermediador para vir de ônibus para Curitiba. Entre os mineiros, está um paraibano de 47 anos. “Estão anunciando na rádio que tem emprego aqui. Paguei R$ 700 [para um aliciador] e vim [em quatro dias de viagem]”, comenta.
Destino
Para saber se essa população migrante vai se estabelecer em Curitiba é preciso esperar pelo menos cinco anos, segundo o professor de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Odair da Cruz Paiva. Esse costuma ser o tempo mínimo para que essa população comece a fixar residência e traga a família. Como a onda de migração em decorrência da construção civil começou em 2009 em Curitiba, falta tempo para pesquisadores conseguirem mapeá-la.
“Por enquanto, eles acabam sendo invisíveis”, explica Paiva. “Eles aparecem quando começam a usar efetivamente os serviços de saúde e educação, quando alugam casas e quando uma comunidade passa a ficar com as características desses migrantes, com restaurantes típicos e igrejas voltadas a essa população.”
Mudança pode causar problemas de saúde
Após receber o convite para acompanhar, por um período em 2009, os trabalhadores da construção civil do Rio de Janeiro – a maioria migrantes – a psicanalista e doutora em saúde pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Hélia Borges dá o diagnóstico: há uma grande incidência, entre eles, de alcoólatras e hipertensos.
“O problema é como funciona essa migração. A pessoa tem de se submeter às referências do novo lugar e acaba perdendo sua própria referência. Isso pode fazer com que as pessoas desenvolvam uma série de patologias [inclusive síndromes], pelo fato de terem de se organizar a partir do outro”, afirma.
Para sobreviver a tanta hostilidade, segundo Hélia, a saída que muitos migrantes encontram é usar álcool ou drogas. “Falta tudo, desde comida, até carinho e o próprio referencial de cultura. O migrante pede espaço em um lugar que não é o dele. Faltam trabalhos mais sérios para que esta adaptação ocorra de maneira mais tranquila.”
O professor da Ufscar Oswaldo Mário Serra Truzzi, estudioso de migrações, lembra ainda que o migrante é como um forasteiro, que não faz parte de lugar algum. “É um ser que, inicialmente, não pertence a nenhuma localidade. Na cidade dele, é visto como alguém que partiu, que desistiu da vida de lá e, ao mesmo tempo, no novo destino também não é aceito facilmente.”
Conheça os principais fluxos migratórios para Curitiba:
De 2009 até hoje
Da construção civil, que ainda não é tida como uma rede de migração permanente porque é algo muito recente.
Dos anos 90 até hoje
A população das grandes cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte tem migrado para cidades como Curitiba e Florianópolis para fugir dos grandes centros de violência.
Anos 90
Migração de mão de obra altamente qualificada para trabalhar nas indústrias automotivas (principalmente da região metropolitana de Curitiba). Vieram muitos franceses, alemães, suecos.
Décadas de 1980 e 1990
Ocorre a migração chamada intraurbana. A população sai de uma cidade e vai para a outra por causa do emprego, mas permanece na mesma região e dentro do mesmo estado.
Final dos anos 80
Curitiba é vendida até internacionalmente como a cidade ideal para se viver. Quem buscava qualidade de vida, acabou migrando para a capital paranaense.
Desde a década de 1960 até hoje
A Universidade Federal do Paraná se torna referência no Brasil e atrai estudantes de diversas localidades, principalmente do interior de Santa Catarina e de São Paulo. Ainda hoje esse movimento de estudantes é contínuo.
Décadas de 1960 e 1970
Êxodo rural que marcou o Paraná em consequência da geada negra de 1975, que atingiu as fazendas de café (também de São Paulo). Muita gente deixou o campo e veio para a cidade.
Fonte: geógrafo Francisco Mendonça.