29 Abril 2011
Por ocasião da Jornada Teológica da América Central e Caribe, realizada nesta semana na Guatemala, a teóloga María Concepción Vallecillo (Conchita), Missionária do Sagrado Coração de Jesus das Mães Cabrini, membro do Núcleo de Mulheres e Teologia e facilitadora de cursos da Escola de Teologia Pastoral Juan Gerardi, na Cidade de Guatemala, falou sobre
A entrevista foi feita pela Federação Guatemalteca de Escolas Radiofônicas -FGER, e publicada por Adital, 29-04-2011.
Eis a entrevista.
A que se referem quando se fala da Teologia dos Novos Tempos?
Acreditamos que estamos passando para uma nova época. Os mayas falam de um novo B´aktun - mas também, ontem, Pablo Richard nos falava de uma mudança de Kairós - de um novo tempo -. Acreditamos que há a necessidade de iluminar uma nova reflexão teológica e essa reflexão iluminamos desde as bases, ali se gesta e Deus fala nesses espaços.
A senhora falava de "Kairós" (um tempo de graça). Como podemos chegar a este Kairós aplicando o Concílio Vaticano II, Medellín e Puebla?
Recordemos que o Vaticano II nos ilumina, dizia ontem Pablo Richard, o kairós - um tempo de graça -. O tempo de graça é o tempo da salvação, diz o texto bíblico.
Medellín é o melhor reflexo que conseguimos desses novos tempos; creio que Medellín nos abre na América Latina a esses novos tempos kairóticos que tínhamos proposto no Concílio Vaticano II. Que significou percorrer Medellín, Puebla e toda a América Latina?
Creio que o grande acerto é que a teologia na América Latina volta sua cara ao empobrecido e à realidade. É uma teologia situada desde os pobres e com os pobres, e desde aí começa a fazer uma reflexão para Deus.
Que papel tem a mulher dentro da Igreja para uma nova agenda teológica?
A mulher está dentro dos novos sujeitos emergentes, esteve sempre; a mulher acompanha a reflexão desde tempos imemoriais, mas foi invisibilizada. Emerge hoje da invisibilidade, recordo a metáfora do desenho da Vênus saindo da concha, é a mulher saindo da invisibilidade na qual o patriarcado a reduziu. Daí as mulheres começam a tomar consciência de seu papel de protagonistas para fazer uma onda de mudança, o que estamos comprovando nestes dias com a participação das irmãs que, desde distintos âmbitos, estão construindo comunidades habitáveis.
Durante a realização das Jornadas Teológicas aqui na Guatemala, pôde-se apreciar a diversidade de participantes: povos indígenas, mulheres, homens e também um pouco da juventude. Que papel tem a juventude para a construção da agenda que está sendo construída?
A juventude tem um papel de protagonista, está presente, mas é uma minoria. Não estamos sabendo passar a chama às novas gerações, elas seguem inquietas e em busca, mas não estamos caminhando com elas. Sim, é certo que existe presença jovem, mas não é tudo, a juventude é maior. Recordemos que nosso continente é um continente jovem.
Cinquenta por cento da população está pelos quinze anos, então essa geração, talvez, um dos desafios é como estamos passando à nova geração a chama da reflexão teológica que havíamos trazido neste tempo de Kairós.
Que falta fazer para que a juventude se aproxime para participar deste novo Kairós?
Provavelmente teríamos que conhecer os parâmetros nos quais eles se movem, a juventude se encontra em um espaço cibernético, um espaço virtual; ali os encontramos, e nós não estamos acessando esses espaços. Estão nas festas, estão em outros espaços lúdicos e, no entanto, temos uma juventude propositiva.
Prova disso, há pouco olhávamos na Guatemala esse movimento que vem do sul para construir casas. Os garotos simplesmente se organizaram para construir casas e conseguiram. Quer dizer que não é certo que seja uma "juventude perdida" ou uma "juventude que não participa, que não tem sonhos ou não pensa". Tem sonhos e os realiza. Nós ainda não estamos canalizando porque não estamos acompanhando esses espaços.
Esses espaços virtuais não tendem a desumanizar a juventude?
O grande desafio da nova tecnologia da comunicação é a maneira em que não podemos ser impessoais. O grande desafio é como construir a nova relação com o outro e com a outra, ainda que em espaços virtuais.
A grande pergunta que nos apresentamos neste dia é: como vamos redefinir o conceito de pessoa? Quem é a pessoa que está por trás do chat, do avatar? Há alguém por trás?
Hoje se finalizam as Jornadas Teológicas na Guatemala. Para onde se orientam as conclusões e o rumo para chegar com algo construído ao Congresso Continental de São Leopoldo, Brasil, a se realizar no mês de outubro de 2012?
Quando inauguramos esta semana, dizíamos que eram as primeiras jornadas, haverá outras jornadas regionais (1) que nos ajudarão a levar ao Brasil todo o consenso da América Latina.
Creio que estas jornadas estão tendo muitíssima participação, muitíssimo consenso e o bom é que há muita diversidade e estamos conseguindo entrar em consenso. Com isso vamos ao Brasil, escutar outros consensos, como serão nas outras regiões.
Nota:
1.- Realizar-se-ão Jornadas Regionais em Santiago do Chile, Cidade do México e Bogotá. Para mais informações consulte o sítio do IHU. (Nota da IHU On-Line).