Espiritualidade » Comentário do Evangelho
Os apóstolos se reuniram com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado. Havia aí tanta gente que chegava e saía, a tal ponto que Jesus e os discípulos não tinham tempo nem para comer. Então Jesus disse para eles: «Vamos sozinhos para algum lugar deserto, para que vocês descansem um pouco.» Então foram sozinhos, de barca, para um lugar deserto e afastado. Muitas pessoas, porém, os viram partir. Sabendo que eram eles, saíram de todas as cidades, correram na frente, a pé, e chegaram lá antes deles.
Quando saiu da barca, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão, porque eles estavam como ovelhas sem pastor. Então começou a ensinar muitas coisas para eles.
(Correspondente ao XVI Domingo Comum, do ciclo C do Ano Litúrgico).
Locução: Prof. MS. Gilberto Faggion
O texto de hoje, continuação do Evangelho do domingo anterior, nos relata a volta dos discípulos e discípulas de sua primeira missão, que poderíamos chamar de estágio pastoral.
Reúnem-se com seu Mestre para partilhar tudo o que haviam feito e ensinado.
Busquemos imaginar esta cena da primeira comunidade, a alegria do reencontro, a fé vibrante de ter visto Deus agir por meio deles/as, o cansaço dos caminhos e talvez das incompreensões, mas a vontade de continuar trabalhando pelo reino.
Como olha Jesus seus amigos e amigas missionários? Que sentiria por eles/as?
A primeira coisa que podemos dizer é que se preocupou por eles já que lhes disse: "Vamos sozinhos para algum lugar deserto, para que vocês descansem um pouco".
O mesmo que Ele fez tantas vezes, de retirar-se para um lugar sozinho, para orar, descansar nos braços do Pai seu coração e seu corpo também, isso propõe para seus amigos/as.
Ele sabe que é necessária essa intimidade com o Pai, origem, fonte e meta de toda a vida missionária.
E nós? Não precisaríamos ir ao encontro de Jesus e junto com ele nos retirar ao silêncio de nosso coração para ali falar com o Pai e contar para ele o que temos feito, nossos êxitos e também fracassos missionários, pessoais e comunitários?
Mas acontece o inesperado. Muitas pessoas de diferentes lugares foram ao seu encontro e até chegaram antes que eles ao lugar.
A primeira comunidade dirigia-se ao encontro de Deus, e Deus os surpreende saindo ao seu encontro na multidão que os está aguardando!
E Jesus, movido pela compaixão, sabe reconhecer esse apelo de Deus na grande massa de pessoas que estava como ovelha sem pastor. Isso o faz mudar de planos, compreende que é mais urgente atender ao grupo que os estava esperando.
Uma vez mais Jesus ensina com sua vida, que a causa do Reino, a vida das pessoas, o consome, para isso veio ao mundo.
O Evangelho nos revela um Deus compassivo, que sente a dor de seu povo, e essa sua compaixão uma vez mais o leva a agir em nosso favor.
Já no Antigo Testamento, Deus se apresenta como conhecedor e sensível à realidade do povo de Israel: "Eu vi muito bem a miséria do meu povo, que está no Egito. Ouvi seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-los" (Ex 3,7-8).
O Deus de Jesus Cristo, que Ele faz presente no meio de nós, é um Deus compassivo com entranhas de misericórdia (Os 11,8b) e que tem preferência pelos mais pequenos e sofredores, colocando-os no centro de sua vida e de sua missão.
Tanto no Novo como no Antigo Testamento, é evidente que a boa nova é "parcial", que tem os pobres como destinatários privilegiados. Isso não quer dizer que é exclusiva!
Deus ama todos os homens e mulheres sem distinção, mas a encarnação de Jesus nos revela o fato fundamental de que Deus ama os seres humanos nos mais profundos abismos de sua pobreza e miséria, aproximando-se deles e tornando assim seu amor crível.
Diante deste movimento salvífico de Deus, que parte da realidade e responde a ela, como a Igreja, nós, cristãos e cristãs do século XXI, nos posicionamos?
Escolhi algumas notícias de nosso mundo, das notícias diárias deste site, para fazermos juntos o pequeno exercício de ler e deixar-nos comover pela situação de diferentes multidões que estão como ovelhas sem pastor:
"A família da menina passara três horas caminhando ao sol para levá-la à clínica do MSF em Bakoro, ao sul do Saara, onde chegou em estado grave: sofria de desnutrição e pneumonia, agravados por uma doença cardíaca congênita.
A menina é uma entre as cerca de 300 mil crianças do Níger que sofrem, anualmente, de desnutrição grave, situação colocada em evidência por um alerta da ONU a respeito do perigo de uma crise da fome na região africana do Sahel. "(Noticia do dia 11/04/2012)
Os cristãos na Síria estão em uma situação difícil porque, se apoiarem os manifestantes, eles poderiam ser alvo das forças governamentais de Assad e, se apoiarem Assad e o seu regime cair, eles poderiam sofrer a retaliação de um novo regime islâmico. Então, o que os cristãos estão fazendo atualmente durante esee conflito? [...] Mas o sentimento geral entre as comunidades cristãs é uma profunda preocupação baseada na realidade de que, quando a Primavera Árabe floresceu, a vida política se tornou mais fanática e menos tolerante com relação ao reconhecimento da igualdade de direitos para os cristãos. (Notícia do dia 31/03/2012)
Só se somos capazes de nos aproximar misericordiosamente da multidão sofrida, que toma diversos rostos no mundo de hoje, até o ponto de fazer nossa a causa de seu direito de liberdade e de vida digna como filhos e filhas de Deus, poderemos gerar neles a convicção de que "Deus está conosco".
Façamos deste poema uma oração ao Espírito Santo para que forme em nós um coração compassivo com entranhas de misericórdia, para viver e levar adiante a missão de Jesus.

Referências
ADITAL. Notícias da América Latina e o Caribe. Disponível em : www.adital.org.br/
CASALDÁLIGA, Pedro. Orações da caminhada. Campinas: Verus, 2005.
KONINGS, Johan. Espírito e mensagem da liturgia dominical. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia, 1981.
SOBRINO, Jon. Espiritualidade da libertação. São Paulo: Loyola, 1992.
______. O Princípio Misericórdia. Petrópolis, Vozes, 1994.
VENTO DE DEUS
Tu que sopras onde queres,
Vento de Deus dando vida,
sopra-me, sopro fecundo!
Sopra-me vida em teu sopro!
Faze-me todo janelas,
olhos abertos e abraço.
Leva-me em boa Notícia
sobre os telhados do medo.
Passa-me em torno das flores,
beijo de graça e ternura.
Joga-me contra a injustiça
em furação de verdade.
Deita-me em cima dos mortos,
boca-profeta a chamá-los.
Dom Pedro Casaldáliga.

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