Crise financeira.Por que não defender o uso multitudinário do default? Entrevista especial com Gigi Roggero

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04 Setembro 2011

"Para que se pudesse falar de agentes de desestabilização, seria preciso demonstrar a estabilidade do sistema sem esses agentes, que, ao contrário, são o produto natural do sistema. Como se o problema fosse a multiplicação dos corruptos, e não o sistema que produz, ele mesmo, corrupção. E a interdependência global atingiu um nível tão profundo e irreversível que ninguém pode se considerar protegido. Os comentaristas, às vezes até os aterrorizados formadores de opinião neoliberais, se escandalizam com a completa perda de soberania do Estado-nação, mostrando uma realidade que é evidente para nós há algum tempo. O espetáculo, é preciso dizer, é divertido". A reflexão é do economista Gigi Roggero, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Para ele, "uma nova fase do capitalismo só pode se assemelhar ao aprofundamento da crise permanente, ao aumento da violência em medida inversamente proporcional à possibilidade de organização e de estabilidade".

Gigi Roggero é formado em História Contemporânea pela Università degli Studi di Torino. É coautor de Futuro Anteriore. Dai "Quaderni Rossi" ai movimenti globali: ricchezze e limiti dell’operaismo italiano (Roma: DeriveApprodi, 2002). Trabalha no campo da pesquisa social. É doutor pelo Departamento de Sociologia e Ciência Política da Università della Calabria. Atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado no Departmento de Política, Instituições e História da Universidade de Bologna, Itália.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De uma forma geral, como o senhor descreve a atual crise financeira mundial que ameaça os Estados Unidos e a zona do euro? Quem são os principais agentes e quais são as causas dessa crise?

Gigi Roggero – Para uma análise mais detalhada e aprofundada da fase atual refiro, em particular, os artigos de Christian Marazzi e Andrea Fumagalli, que, no sítio Uninomade (uninomade.org), estão acompanhando o desenvolvimento da crise com diários e textos de extraordinária clarividência. Limito-me aqui a algumas considerações taquigráficas.

Primeiro, mostra-se com toda a evidência a miserável mentira de quem, em particular na Europa, anunciou mais de uma vez o fim da crise, buscando dar vida a uma espécie de profecia que se autorrealiza. Se ainda fosse necessário, a fase atual mostra o caráter permanente dessa crise. O andamento em L temido por alguns economistas inicialmente marcados como "catastróficos", isto é, a queda seguida de estagnação ou recessão sem recuperação, é agora não mais uma previsão, mas sim um fato dado.

Em segundo lugar, o exercício de encontrar os agentes de desestabilização (os especuladores ávidos, os Estados-nação que desperdiçam, as más agências de classificação, etc.) pode ser reconfortante, mas certamente não pode durar muito. A Alemanha, por exemplo, tentou isso. Recentemente, ela atribuiu a crise à tradicional e alucinada tendência ao desperdício dos países do sul da Europa, agora rebatizados de PIIGS (o segundo I é da Itália, que assim chega à companhia de Portugal, Grécia e Espanha, além da Irlanda, que pertence ao Sul não geograficamente, mas por dado histórico). Como se o desenvolvimento alemão tivesse sido possível também pela aquisição de títulos de estado "suínos", o que torna os bancos alemães prontos para fazer de tudo para evitar a falência da Grécia.

Ao mesmo tempo, a China tem sonos muito agitados diante do possível default do seu principal credor, ou seja, aquela ex-potência que, não mais do que 20 anos atrás, foi incautamente declarada única e invencível dominadora de uma história que chegou ao seu fim. E, assim, o pobre vice de Obama, Biden, deve correr para Pequim para dar confusas justificativas sobre o downgrade norte-americano aos ex-canalhas da República Popular.

Em suma, para que se pudesse falar de agentes de desestabilização, seria preciso demonstrar a estabilidade do sistema sem esses agentes, que, ao contrário, são o produto natural do sistema. Como se o problema fosse a multiplicação dos corruptos, e não o sistema que produz, ele mesmo, corrupção. E a interdependência global atingiu um nível tão profundo e irreversível que ninguém pode se considerar protegido. Os comentaristas, às vezes até os aterrorizados formadores de opinião neoliberais, se escandalizam com a completa perda de soberania do Estado-nação, mostrando uma realidade que é evidente para nós há algum tempo. O espetáculo, é preciso dizer, é divertido.

A exaustão das opções neoliberal e neokeynesiana

Finalmente, parece-me que as opções predominantes no debate público – a neoliberal e a neokeynesiana, cada uma das quais, obviamente, tem em seu próprio interior diferenças e facetas diversas – mostram a sua exaustão.

Sobre a primeira, há pouco a acrescentar: é uma tentativa de repropor com violência uma ortodoxia vazia e irreversivelmente derrotada.

A segunda opção começa agora a ver o risco do "double dip", ou seja, do duplo mergulho na recessão no modelo da de 1937.

Portanto, seria preciso seguir o primeiro Roosevelt, o pragmático "atuador" das receitas do Lord Keynes. Mas, evidentemente, não entendem que esse tipo de política estava ligado a um contexto específico, o do Estado-nação, e a uma relação historicamente determinada entre público e privado, agora definitivamente decaídos.

Sobre a dívida soberana, depois, a receita das duas opções, de direita e de esquerda, se unifica: sacrifícios e austeridade se tornam palavras de ordem dramaticamente esculpidas na necessidade da história. E então por que não começar a dizer, como já estamos fazendo há algum tempo: direito à falência? Direito à falência, sobretudo, para os trabalhadores precários, os pobres que recorreram ao perverso sistema da dívida para garantirem necessidades sociais conquistadas e agora financeirizadas. E contra a objetividade da austeridade e o uso capitalista do medo do default, por que não defender o default e o uso multitudinário do default? O caso da Argentina e da insurreição de 2001 não nos indicam, talvez, esse caminho?

IHU On-Line – Como o conceito de capitalismo cognitivo se aplica a esse cenário de crise financeira e de uma possível crise do capitalismo como nós a conhecemos?

Gigi Roggero – A crise é a crise do capitalismo cognitivo. Ou melhor, o capitalismo cognitivo significa crise. E significa crise permanente, porque ele é obrigado a capturar continuamente, no início, uma cooperação social que não consegue mais organizar no fim. A acumulação está fundamentada na necessidade desesperada de valorizar saberes e redes que estruturalmente a excedem e, ao mesmo tempo, deve bloquear essa extraordinária mobilização de forças produtivas para manter o comando.

Pense-se nas redes sociais: foram criados por uma cooperação social não organizada pelo capital; depois, se tornaram lugares centrais da valorização e dos mercados financeiros. Porém, as redes sociais, os saberes e as relações que neles vivem e que os fazem viver foram determinantes nas revoltas na Europa e nos movimentos insurrecionais na Tunísia e no Norte da África. Esse é o trabalho cognitivo: não um setor específico da força de trabalho, mas sim um sujeito que produz saberes, que, ao mesmo tempo, são explorados pelo capital e podem ser usados para a sua própria autonomia.

No movimento italiano, por exemplo, alguns ativistas parecem sentir uma certa desilusão com relação ao capitalismo cognitivo. Diante dos cortes nas universidades, na formação e na pesquisa, buscam explicar aos capitalistas italianos – juntamente com os formadores de opinião neoliberais – quais são os seus verdadeiros interesses, esperançosos em uma evolução linear e progressiva do próprio capitalismo cognitivo. São estupidezes perigosas.

De um lado, os capitalistas italianos – assim como muitos outros capitalistas em giro pelo mundo – não investem na chamada "economia do conhecimento", justamente porque estão perfeitamente conscientes dos seus interesses e dos seus respectivos papéis nas hierarquias do mercado global do capitalismo cognitivo.

De outro lado, porque dizer capitalismo cognitivo não quer dizer evolução linear e progressiva, mas justamente – como dizia antes – crise permanente. Sejamos claros: o capitalismo contemporâneo é captura sem organização, bloqueio sem desenvolvimento, acumulação sem promessa de progresso.

De um lado, os saberes são centrais nos processos de valorização capitalista; de outro, escolas e universidades cessam definitivamente de ser um elevador para a mobilidade social, e a precariedade se torna condição permanente. Isso não contradiz o capitalismo cognitivo, porque o capitalismo cognitivo só pode ser essa contradição.

IHU On-Line – Considerando a perspectiva de uma crise do capitalismo, o que poderia substituí-lo? Como seria essa nova etapa do capitalismo?

Gigi Roggero – Vejamos primeiro quem pensou e continua pensando que pode salvar o capitalismo. Eu falava da opção keynesiana: muitos, agora, começam a se convencer de que, mais do que ser forçado a um compromisso com os republicanos, Obama está usando a oportunidade para fazer aquilo que politicamente é válido. Há bons e abundantes argumentos para demonstrar essa tese. No entanto, me parece ainda mais interessante, forçando obviamente a realidade, considerar Obama como uma espécie de significante vazio, de vez em quando preenchido e utilizado por diferentes sujeitos. A "esperança" da sua campanha eleitoral, além disso, não tinha um sujeito determinado e, portanto, se abria potencialmente ao uso de todos.

O Obama do "Yes, we can" podia, assim, ser utilizado pelos latinos, cujos movimentos haviam afirmado o "sim, é possível", ou pelos afro-americanos em busca de justiça social e de vingança contra o racismo, assim como pelos patriotas norte-americanos sacudidos pelo mau serviço prestado ao prestígio da nação pela era Bush.

Agora, levemos em consideração o significante ocupado pelos liberais e pela esquerda democrática, inclinado pelas políticas keynesianas. Parece-me ser, sobretudo, este o Obama que fracassa. E fracassa de modo estrutural, sem que isso, obviamente, retire um pingo de responsabilidade das suas embaraçosas incertezas e sempre mais claras escolhas de campo.

Uma nova fase do capitalismo, então, só pode se assemelhar a essa, ao aprofundamento da crise permanente, ao aumento da violência em medida inversamente proporcional à possibilidade de organização e de estabilidade. Michael Hardt e Toni Negri realmente acertam no alvo quando dizem que o uno se dividiu em dois. As possibilidades de uma mediação reformista, em sentido clássico, realmente desapareceram.

IHU On-Line – Qual sua opinião sobre transformar a economia em um negócio basicamente financeiro como um passo para resolver a crise atual?

Gigi Roggero – A passagem já ocorreu. A financeirização é a forma, adequada e perversa, da economia real de hoje. Ou seja, a forma da captura do comum, daquilo que é produzido pela cooperação social e explorado pelo capital. Pensemos nos últimos dez anos: foi uma sucessão, a uma rapidez enlouquecedora, de bolhas globais de efeitos enormes – da net economy aos subprimes da explosão da dívida soberana, e já se fala da bolha ecológica e da bolha das redes sociais.

Do ponto de vista econômico, a forma-bolha substituiu a forma-ciclo. Mas o que existe dentro dessas bolhas? Existe a rede, isto é, a cooperação; existe a dívida, ou seja, o welfare e as necessidades sociais; existe a vida, existe a produção do ser humano através do ser humano. O comum é a carne da bolha. A financeirização, com as suas bolhas fora de medidas, são a forma de um processo de acumulação que não pode mais medir a atividade do trabalho vivo.

IHU On-Line – Quais são os principais riscos da ligação íntima entre as esferas pública e privada no desenvolvimento capitalista? Como isso aparece na crise atual?

Gigi Roggero – Não sei se é um risco; certamente é um fato. Já falei, em várias ocasiões, do processo de empresarialização da universidade, que não se refere ao seu estatuto jurídico e ao fato de ser financiada pelo Estado ou pelas empresas, mas sim ao seu devir empresa, isto é, ter que funcionar segundo parâmetros da renda/lucro, da acumulação e da exploração, da competição em um mercado da formação global. Universidade-empresa, portanto, significa uma universidade além da relação entre público e privado.

Dou outro exemplo. Recentemente, na Itália, uma grande mobilização permitiu a vitória do referendo contra a privatização da água. O lema "Água bem comum" é, ao mesmo tempo, extraordinariamente importante e problemático.

Extraordinariamente importante porque indica como o comum se tornou um tema majoritário. Problemático por dois motivos.

De um lado, por causa de uma ideia naturalista do próprio comum, algo que vive dentro de um espaço a ser defendido enquanto não contaminado pela subsunção do capital. Ao contrário, o que torna comum o comum não é uma suposta natureza, mas sim o trabalho vivo e as lutas. Não há comum fora de uma relação de produção e de uma relação de forças. A água, assim como o saber, se torna comum no momento em que a cooperação social se apropria dela coletivamente. O comum não existe in natura, mas se institui.

De outro lado, esse declínio do bem comum coincide com a gestão pública, isto é, da administração estatal: é o que é produzido por todos e não pertence a ninguém, ou seja, pertence ao Estado. Desse ponto de vista, justamente o caso da água nos mostra como a sua republicização muda muito pouco do ponto de vista substancial, porque as empresas públicas estão plenamente integradas aos parâmetros empresariais, a esse mercado privado e a esses processos de financeirização que se gostaria de combater.

Com isso, eu não quero absolutamente insinuar que as lutas contra as privatizações perdem sentido: realmente não! Ao contrário, essas lutas não devem ficar no meio do caminho, porque combater o privado defendendo o público é como confiar o cordeiro ao lobo. O nó político na crise, então, é a transformação das mobilizações contra a privatização e a financeirização em organizações das instituições do comum.

IHU On-Line – Quais são as oportunidades e os riscos oferecidos pela atual crise financeira? Que lutas sociais poderiam aparecer de dentro desse cenário de crise nos Estados Unidos e na Europa? Como você percebe a reação da sociedade civil diante das medidas do governo que visam enfrentar a crise?

Gigi Roggero – Entre 2007 e 2008, quando começamos, no Uninomade, a desenvolver a nossa análise sobre a crise econômica global, não podíamos registrar a deflagração de novos ciclos de luta, ou melhor, estes assumiam um caráter fragmentário e não generalizado.

Hoje, podemos constatar como, também a partir desse ponto de vista, o conceito de ciclo que deve ser completamente repensado: no momento em que a crise se torna não mais fase específica, mas elemento permanente e horizonte insuperável do capitalismo cognitivo, as lutas assumem uma temporalidade diferente. Elas esperam e atacam o inimigo onde ele é mais fraco, agem por contágio e explodem como bolhas – bolhas que, como dizíamos, não são eventos metafísicos, mas estão cheias de carne e sangue do trabalho vivo, cheias de conflitos e processos de organização; estão cheias do comum.

Assim, o último ano foi verdadeiramente extraordinário do ponto de vista das lutas, e não só na Europa e nos Estados Unidos, onde houve grandes movimentos de estudantes e de trabalhadores precários da Inglaterra à Itália, greves sociais e metropolitanas na França, revoltas contínuas na Grécia, as importantíssimas ocupações das praças na Espanha (as "acampadas"), a enorme mobilização social no Wisconsin. Mas houve também, de certa forma, as extraordinárias sublevações na Tunísia e no Norte da África, que trouxeram novamente para a ordem do dia as palavras de ordem da insurreição e da revolução, em uma nova forma, ou seja, em um cenário completamente pós-estatal. Ou pense-se nas lutas dos estudantes no Chile, as "acampadas" em Israel.

O trabalhador cognitivo

Todos esses movimentos, e outros que poderiam ser citados, têm uma composição comum, ou seja, são dirigidos por jovens, ricamente produtivos de saber, muitas vezes altamente escolarizados e desempregados ou precários. Essa é a figura hegemônica desses movimentos: esse é o trabalhador cognitivo, extremamente produtivo e empobrecido. Essa figura, constitutivamente heterogênea, se forma pela convergência e pela diferenciação de uma classe média desprestigiada e um proletariado cuja pobreza é, justamente, diretamente proporcional à produtividade, unidos pelo fim – irreversível – das promessas progressistas do capitalismo, do esgotamento definitivo da percepção da escola e da universidade como ascensores da mobilidade social. A bolha assume a forma da revolta, como aconteceu no verão [europeu] nas metrópoles e nas cidades inglesas, como havia acontecido nas banlieue francesas e mais de uma vez se repetiu nos últimos anos.

Mas, atenção, não é a revolta dos excluídos, mas de quem não aceita mais um presente de inclusão subordinada e um futuro de produtor pobre. São as revoltas para se reapropriar, aqui e agora, daquilo que o capital expropria com a violência.

Como se constrói continuidade nas bolhas? Como se constroem as instituições do comum que se revolta contra a exploração capitalista? Esse é o ponto central hoje. Em suma, parece-me claro que vivemos hoje em uma situação revolucionária, reformulando nestes termos a sua definição clássica: os governantes e os parasitas do capitalismo global não podem mais viver como no passado; os trabalhadores precários, os trabalhadores cognitivos, as multidões produtivas empobrecidas não querem mais viver como no passado.

Mas também sabemos que a situação revolucionária não leva mecanicamente à revolução, e os governantes não cairão se não os fizermos cair. A esquerda busca continuamente o equivalente funcional do keynesianismo, mas nunca devemos nos esquecer de que essa havia sido a grande resposta capitalista para as lutas. Então, seria melhor, na aceleração da crise global, nos colocarmos no caminho da busca correta e encontrar coletivamente o equivalente funcional daquilo ao que o keynesianismo respondeu, isto é, a insurgência de classe do início do século XX e a ruptura revolucionária de 1917. Isto é, a procurar juntos o caminho para construir um futuro de felicidade em comum.