As relações obscuras entre o Polo petroquímico gaúcho, a Braskem e o governo federal. Entrevista especial com Carlos Eitor Rodrigues Machado

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10 Maio 2009

Novos cenários se apresentam para o setor petroquímico gaúcho. Embora a crise tenha gerado alguns ajustes nessa área, ela já não mais traz preocupações. O que está chamando a atenção do setor é a venda da Ipiranga e da Copesul para a Braskem, fazendo com que a empresa controle 80% do setor petroquímico brasileiro. Quem nos informa sobre essa problemática é o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Petroquímicas de Triunfo (Sindipolo), Carlos Eitor Rodrigues Machado, que nos concedeu por telefone esta entrevista.  Para ele, essa negociação é obscura. “A posição oficial do governo é que estão reestruturando o setor para garantir maior competitividade. Para nós não é isso, mas sim algum tipo de relação obscura do grupo Odebrecht com o governo”, afirmou. Ele concedeu esta entrevista à IHU On-Line por telefone.

Carlos Eitor fala ainda sobre os impactos que essa negociação está trazendo para os trabalhadores e como as “novidades” que a Braskem apresenta, como o plástico verde, mudam a nossa lógica de produção e precisam ser discutidas. “A principal preocupação ambiental aí é em relação ao que será feito com todo esse plástico que vai para o mercado consumidor. Não há campanha de conscientização e nem um destino de reciclagem com apoio do governo”, contou.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como foram conduzidas as negociações com as empresas do polo que foram afetadas pela crise?

Carlos Eitor – A nossa negociação salarial foi em outubro, quando a crise estava no pico. As empresas até tentaram trazer para a mesa a questão da crise e propuseram reduzir os ganhos e os salários, mas não conseguiram. Naquela negociação, nós conseguimos o mesmo padrão de reajuste salarial histórico. Isso com relação à negociação propriamente dita. Na verdade, os impactos da crise no polo petroquímico aconteceram, havendo redução de produção, pois algumas pessoas pararam por alguns dias.

Essas empresas têm uma reserva econômica e financeira significativa e a mão-de-obra desse setor é muito especializada, em sua grande maioria. Economicamente, as empresas não chegaram a sentir muito a crise. Claro que houve impacto na redução de exportação. Por exemplo, os Estados Unidos deixaram de comprar, e a indústria automobilística reduziu suas compras, mas não chegou a ter muita influência. Aconteceram algumas demissões e as empresas argumentaram que foi em função da crise. No entanto, a partir do que conhecemos dos ganhos do setor, percebemos que usaram a crise como argumento para reduzir. Têm acontecido muitas demissões no polo, mas relacionadas à crise foram poucas.

IHU On-Line – E quais são os argumentos?

Carlos Eitor – Ocorreram quase 400 demissões desde 2007, desde que foi anunciada a troca do controle do polo petroquímico, quando saiu a Ipiranga e a Petrobras e o controle passou a ser quase só com a Braskem. A Braskem é uma empresa oriunda da construção civil e até 20 anos atrás ela não atuava no setor petroquímico, embora o conheça. No entanto, ela não tem muito o domínio técnico, se prendendo muito à gestão de pessoas. Há muita gente especializada nisso: ao invés de aumentar a capacidade de produção e procurar melhorias via operacional, para aumentar seus ganhos, atua na redução dos direitos dos trabalhadores, do plano de previdência complementar, diminuindo o padrão de assistência médica, além de se negar ao pagamento de horas extras e realizar demissões.

Numa empresa de primeira geração, como a Copesul, a folha de pagamento, com encargos, deve dar em torno de 3% do faturamento, ou seja, é muito pouco significativo para atuar como redução de custo. Na verdade, esse é o tipo de iniciativa que resulta num impacto para os trabalhadores, mas, do ponto de vista do resultado para a empresa, influencia muito pouco.

IHU On-Line – Como está a crise nesse momento? Quais as perspectivas de produção a partir de agora?

Carlos Eitor – A produção, já a partir de março, voltou à normalidade. Houve momentos de redução, também de salto muito grande na produção, mas nesse momento está normal.

IHU On-Line – Qual a situação do trabalho, pensando o pólo petroquímico diante das medidas tomadas pelos governos estadual e federal?

Carlos Eitor – Tanto o governo federal quanto o estadual tem socorrido empresas privadas nesse momento de crise sem a garantia de contrapartida. Esse é o grande problema. O governo do estado tem feito o desmonte do serviço público, com a precarização do trabalho em geral.

IHU On-Line – E como o senhor vê o apoio que o BNDES para as empresas que afirmaram ter problemas oriundos da crise?

Carlos Eitor – Na verdade, o BNDES deveria tirar o S de social da sua sigla. O que percebemos nas
conversas com eles é que o social tem valido muito pouco. A Braskem está montando no polo petroquímico uma fábrica do etanol verde e o BNDES está financiando 70% dessa unidade lá sem garantia de que haverá geração do emprego, o que não irá acontecer mesmo. Claro,  terá geração de emprego durante a obra, mas novos postos de trabalho para essa planta não têm indicativo; pelo contrário, tem havido demissões sistemáticas. Esse exemplo serve para analisarmos a atuação do BNDES no geral. O BNDES precisa colocar nos contratos cláusulas de multa, caso as empresas não gerem empregos em processos que tiveram financiamento público. Não há controle por parte do banco. Depois que o dinheiro foi, se o contrato não tem essas cláusulas, irão fazer o que bem entendem.

IHU On-Line – O que significa a venda da Ipiranga para a Braskem, Petrobrás e Grupo Ultra neste momento?

Carlos Eitor – Isso significou que o governo federal assegurou que a Braskem ficasse com 75% do setor petroquímico nacional. Ela já tem o maior polo petroquímico do país na Bahia e com essa compra da Ipiranga, na qual a petroquímica e a Copesul ficaram com a Braskem, foi assegurado que 75% do setor está nas mãos dessa empresa. Tudo resulta de um ramo de atividade monopolizado. Quem vende para ela o gás e a nafta precisa se submeter a sua condição de preço – não é o vendedor, mas sim o cliente que impõe o preço – e, quando produz, o comprador é obrigado a pagar o que o monopolista cobra. Esse custo sempre recai sobre o comprador final, ou seja, a sociedade. Do ponto de vista do trabalho, isso também é dramático. Se a Braskem incorporar a petroquímica Triunfo, o que dificilmente será revertido, 80% dos trabalhadores do polo petroquímico, entre diretos e indiretos, estarão diretamente nas mãos da Braskem e então ela fará com o emprego o que bem entender, infleunciando no mercado de trabalho.

IHU On-Line – O que está em jogo com essa venda?

Carlos Eitor – A posição oficial do governo é que estão reestruturando o setor para garantir maior competitividade. Para nós não é isso, mas sim algum tipo de relação obscura do grupo Odebrecht com o governo, que fez com que ele fizesse o que está fazendo. O governo comprou a Ipiranga junto com a Braskem, comprou o grupo Suzano petroquímica, além de ter dado uma ajeitada no grupo Unipar no Sudeste. O
governo limpou o terreno para deixar tudo com a Braskem. Alguma coisa mal explicada tem aí. Temos contatos informais, por meio dos quais fica bem claro que a Petrobras está fazendo o serviço petroquímico junto com a Braskem e que as decisões não saem de dentro da Petrobras, mas sim a partir do governo federal, em Brasília. Isso nos chama muito atenção. Alguma coisa precisa ser explicada até pela história que conhecemos da Odebrecht, que é a controladora da Braskem.

IHU On-Line – Qual é a ideia que precisamos ter quando se fala em plástico verde?

Carlos Eitor – Quem não conhece o plástico, imagina que ele não polui. Na verdade, o plástico é o mesmo. A principal preocupação ambiental aí é em relação ao que será feito com todo esse plástico que vai para o mercado consumidor. Não há campanha de conscientização e nem um destino de reciclagem com apoio do governo. Com relação a se fazer o plástico a partir de uma fonte renovável como a cana-de-açúcar ou qualquer outro vegetal que permita fazer o etanol, sem dúvida é positivo e é um avanço. O que resta saber é o seguinte: o país tem uma demanda muito grande por alimento. O que será feito com as terras onde deveriam ser produzir alimento, mas estão servindo para produção de álcool e biodiesel? Acho que do ponto de vista da agricultura se entra na mesma lógica da soja: os problemas que existem hoje vão continuar.


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