"A nossa habilitação é apenas de um operador de máquina". Entrevista especial com Ailton Brasiliense

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10 Novembro 2008

"Uma parte da nossa sociedade acha que temos de conviver com esse tipo de noção de cidadania, ou seja, cada um por si, que o mais forte possa usufruir de tudo o que aparece e que os mais fracos fiquem com o que sobrar, caso queiram. Não é assim que se constrói um país ou uma sociedade.” É o que conclui o engenheiro Ailton Brasiliense, ao falar sobre a forma como concebemos o transporte e, principalmente, a direção no Brasil. Para ele, o país precisa rever o processo de habilitação que, atualmente, forma não condutores de veículos cujos atos consistem em conseqüências para terceiros, mas sim forma operadores de máquina. “Nós temos de trabalhar, portanto, a concepção que as pessoas têm sobre a vida, sobre a convivência. Isso não é uma questão apenas mecânica”, afirmou Ailton na entrevista que concedeu à IHU On-Line por telefone.

Ailton Brasiliense é engenheiro. Atualmente, é diretor do Denatran – Departamento Nacional de Trânsito e presidente do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Foi diretor-presidente do Metrô de São Paulo e diretor-executivo da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos.

Confira a entrevista.

IHU On- Line – O senhor afirma, na carta aberta que escreve à sociedade, que apenas uma em cada dez mil infrações recebe uma multa/punição. Está na hora de repensarmos nosso conceito acerca da forma como nos transportamos pelas estradas? De que forma essa situação precisa mudar?

Ailton Brasiliense – São duas coisas: nós temos de rever nosso processo de habilitação e também a forma de relacionamento, de valorização das pessoas que convivem conosco. Todo cidadão tem um comportamento e um conjunto de valores. A partir do momento em que passa a ser um condutor, ele muda seu comportamento e muda os seus valores. Passa a exigir que a via esteja liberada para ele e a entender que qualquer pessoa que, de alguma forma, possa restringir a sua viagem seja inimiga. Assim, passa a ser, no mínimo, um adversário que precisa ser suplantado, por isso muita gente aposta corrida nas áreas urbanas e nas rodovias. Ele sumariamente ignora a presença do pedestre, se irrita quando aparece um semáforo de pedestre, assim como também detesta o transporte coletivo. Ou seja, nós precisamos trabalhar a formação das pessoas, que devem entender que vivem num país com quase 800 milhões de habitantes e que, portanto, têm direitos e deveres. Um dos deveres mais elementares é respeitar os seus limites e os limites dos terceiros.

É preciso que mudemos nosso conceito de valores individuais com relação à sociedade. Isso não se reflete apenas na condução de veículos, mas também quando as pessoas sacrificam posições morais para conseguirem vantagens. Há uma parte da população que entende que o fundamental da vida é levar vantagem, mesmo que se tenha passando as pessoas para trás de qualquer forma (legais ou ilegais; morais ou imorais). Nós precisamos revisar essa posição. Nossa habilitação, por exemplo, se restringe apenas a um conjunto de formações técnicas, ou seja, o que fazer com o braço esquerdo, o que fazer com o pé direito, como eu junto tudo isso. A nossa habilitação é apenas de um operador de máquina, e o condutor de veículos, assim como o pedestre, não são operadores de máquinas, mas pessoas que sofrem conseqüências dos atos uma das outras. A questão da cidadania se expressa de maneira forte quando, por exemplo, o poder público não constrói calçadas, não ilumina as ruas adequadamente, quando não define o espaço exato para que as pessoas possam cruzar as ruas etc. Nós devemos trabalhar, portanto, a concepção que as pessoas têm sobre a vida, sobre a convivência. Isso não é uma questão apenas mecânica.

IHU On- Line – Como o senhor avalia uma primeira mudança que é a execução da lei seca?

Ailton Brasiliense – A Lei Seca tem, pelo menos, três dois aspectos a serem considerados: primeiro, o do Poder Público que reconheceu uma coisa que todo mundo sabia há muito tempo, ou seja, não existe a dose alcoólica segura. Segundo, a Lei Seca existe há mais de 50 anos e as autoridades públicas não deram a menor bola para a necessária fiscalização. E, terceiro, nunca houve por parte do Poder Público, aí exprimindo um desejo da maioria das pessoas, de discutir quais são as conseqüências do álcool na direção. Isso tudo tem a ver com essa falta de noção de cidadania. Quando alguém diz frases imbecis do tipo “quando eu bebo, eu dirijo melhor”, fica evidente que o cidadão só quer satisfazer seu paladar através do álcool e as conseqüências disso ele joga para terceiros. Tanto que nossa sociedade civil atribui a essa irresponsabilidade uma palavra chamada “acidente”.

Acidente é uma tromba d’água, um terremoto, um furacão. Acidente é tudo aquilo que acontece quando não temos condições de nos preparar ou, se temos, são muito pequenas. Os demais são incidentes que são provocados conscientemente pelas pessoas. Não é só o álcool, é quando o cidadão dirige de forma descuida, ou trata o veículo como uma coisa qualquer, ou não respeita uma faixa de pedestre e assim por diante. Então, o álcool está envolvido em todas as questões anteriores. Uma parte da nossa sociedade acha que precisamos conviver com esse tipo de noção de cidadania, ou seja, cada um por si, que o mais forte possa usufruir de tudo o que aparece e que os mais fracos fiquem com o que sobrar, caso queiram. Não é assim que se constrói um país ou uma sociedade.

IHU On- Line – Por onde essa mudança deve começar?

Ailton Brasiliense – Exatamente pela tentativa de reformar a questão da cidadania. Antes de falar em álcool, excesso de velocidade ou alguma coisa que o valha, você tem de repor os valores que constroem uma sociedade, que deixe claro o que é direito e o que é dever. Isso não é uma aulinha. É um processo que deve ser feito pelos pais para orientar o comportamento dos filhos. Isso também precisa estar nas escolas, nas ruas, nas nossas relações comerciais, ou seja, é uma questão de respeito, de aceitar que tudo tem um limite.

IHU On- Line – Em apenas cinco anos, 122 mil pessoas deixaram de utilizar ônibus nos seus deslocamentos diários só no Rio Grande do Sul. No entanto, com a crise financeira a venda de automóveis tem diminuído significativamente. Podemos repensar a direção a partir dessa nova realidade?

Ailton Brasiliense – As pessoas têm o direito de buscar se locomover da forma que achar mais apropriado, seja a pé, de automóvel, de bicicleta... As instituições públicas precisam propor para os cidadãos a forma mais econômica para todos, que é o transporte público. Se você tentar o espaço viário – túneis, pontes, avenidas etc. – para a enorme massa de pessoas que queriam se dirigir através do automóvel, nenhum município ou estado terá capacidade para isso. Nós vamos poluir mais, gerar mais incidentes e gastar dinheiro numa coisa que não é prioritária. Uma das cidades mais ricas do mundo, Los Angeles, nos Estados Unidos, tem praticamente 40% de toda a sua área ocupada por vias urbanas, justamente para tentar permitir maior facilidade dos automóveis. Essa cidade riquíssima está abandonando essa lógica maluca e voltando a investir pesadamente em transporte público. Então, qualquer cidade por aí que acha que irá resolver o problema da locomoção das pessoas através do transporte individual é, no mínimo, uma cidade mal formada.

IHU On- Line – A forma como o transporte público trabalha hoje também tem que se repensada?

Ailton Brasiliense – Sim, lógico. Mas precisa ser um projeto social. Cidade e municípios devem dialogar com a sociedade e mostrar quais são as vantagens do uso do transporte público. Não que todas as viagens precisem ser feitas via transporte público, mas é evidente que a maioria delas precisa ser feita. O que não podemos é deixar que aconteça o que aconteceu em São Paulo, onde quase metade das viagens era feita via transporte individual, onde a necessidade de aumento de espaço vira lei infinita. Espalhar a cidade infinitamente aumenta também custos com água, luz, esgoto, telefone, pavimentação etc. Não é uma solução racional imaginar que você deve ter um espaço viário construído na medida em que há um aumento da frota.

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