Josué de Castro: o combatente da fome

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14 Julho 2021

 

"Josué de Castro via como inadequado, para o Brasil, o dilema entre ‘o pão e o aço’, pois as políticas de industrialização por substituição de importações, colocadas em primeiro lugar na ditadura de Getúlio Vargas, impunham custos altíssimos às populações mais pobres", escreve Thiago Lima, professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB, em artigo publicado por A Terra é Redonda, 13-07-2021.

 

Eis o artigo.

 

O Brasil vive um momento muito comum em sua história: um período de grave crise de fome nacional. Essa crise não é homogênea e, como sempre, afeta mais as mulheres, as populações negras, da zona rural, com menor escolaridade e com menor renda. As amplas desigualdades sociais nacionais são parte do que, no todo, compõem o problema da Fome no Brasil.

Neste contexto, apenas agravado pela pandemia de Covid-19 e pelas orientações do governo federal, há muito esforço, de várias partes, para se compreender e enfrentar o flagelo da fome. Há, também, a busca por referências. Neste sentido, o livro de Marina Gusmão de Mendonça, professora do curso de Relações Internacionais da Unifesp, se torna oportuno e necessário, em sentido amplo, mas também específico: trata-se de obra que pode abrir, aos estudantes das Relações Internacionais, as conexões necessárias entre o desastre humanitário que assistimos nas praças das pequenas e grandes cidades e a geopolítica global.

Organizado em seis capítulos que avançam em ordem cronológica, o livro é uma biografia intelectual e política de Josué de Castro (1930-1973), um dos principais pensadores-militantes do combate à fome no Brasil. A narrativa parte do início da sua carreira como médico que se ocupa da nutrição, avança para os períodos de redação de suas obras-primas, Geografia da Fome e Geopolítica da Fome, para então discutir mais detidamente sua ação como político profissional.

 

Imagem: Josué de Castro | Foto: Reprodução / YouTube

As pesquisas e a qualidade do texto do médico e geógrafo pernambucano tornaram-no conhecido no Brasil e no mundo. Internacionalmente, recebeu diversos prêmios e foi indicado quatro vezes ao prêmio Nobel da Paz, tendo ocupado o cargo de presidente do Conselho da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO, em inglês) e outros postos diplomáticos. Ele também ajudou a fundar e dirigiu organizações não-governamentais internacionais. Pelas suas ideias e práticas, foi exilado durante a ditadura militar brasileira (1964-1988), tendo falecido na França, em 1973, tema tratado no sexto capítulo. A tristeza, pela distância da pátria, ter-lhe-ia sido fulminante.

O exílio de Castro reflete o caráter contra-hegemônico de suas ideias e práticas. De fato, ele mesmo não era um socialista, marxista ou um revolucionário, no sentido da subversão armada. Mas era, sim, um ferrenho crítico do capitalismo, do colonialismo/imperialismo e do racismo e, nesse espírito, elogiava revoluções e regimes que entendia como nacionalistas e capazes de atacar estruturalmente as mazelas sociais impostas por interesses estrangeiros, como as revoluções cubana e a chinesa.

Castro entendia que as desigualdades impostas pelas estruturas globais de poder, assim como pelas elites governantes, aprisionavam o povo brasileiro numa condição de fome crônica. A deficiência sempre presente de nutrientes mínimos – quando não de algo para comer – era responsável pela baixa produtividade, criatividade e pela ausência de saúde de uma parte enorme da população e, ao mesmo tempo, elemento fundamental para o modelo social dominante no Brasil. Modelo cujo objetivo foi e é – desde a colonização portuguesa – a extração e exportação de commodities para os mercados internacionais às custas da exploração perniciosa dos recursos naturais e do povo. Para Castro, na verdade, essa era uma condição transversal ao mundo periférico.

A superação dos problemas nutricionais mais elementares, no entanto, não encontrava solução numa adesão automática ao projeto de industrialização. Como frisa Mendonça, Castro via como inadequado, para o Brasil, o dilema entre ‘o pão e o aço’, pois as políticas de industrialização por substituição de importações, colocadas em primeiro lugar na ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945), impunham custos altíssimos às populações mais pobres. Tanto o protecionismo aumentava os custos de vida, quanto a concentração de investimento no projeto de industrialização (localizados sobretudo no sudeste do país) relegavam a segundo plano o desenvolvimento da produção agrícola para abastecimento interno.

Castro propunha, assim, uma conciliação entre os dois objetivos, mas com um eixo comum: a reforma agrária com redistribuição de terras e preservação ambiental. Este ponto – a questão da terra, o desafio ao latifúndio predatório – é fundamental para compreender seu exílio e a potência contra hegemônica de suas ideias.

Embora a professora Mendonça argumente que Castro não tenha se dedicado ao desenvolvimento de uma teoria das Relações Internacionais ou da Economia Política da fome, posto que seu objetivo seria, sobretudo, a denúncia das condições que resultavam no quadro global de desnutrição – uma denúncia que seria, inclusive, panfletária, incansável -, a leitura do livro me faz questionar esse ponto. Embora Castro não tenha enunciado uma teoria, o conjunto de sua obra, conforme lemos em sua biografia intelectual, denota um pensamento bem articulado em termos de causas, consequências, condições, pressupostos, dinâmicas e perspectivas de intervenção.

Sua ação prática também revela esse pensamento. Por exemplo, quando deputado federal, Castro proferiu o seguinte discurso: “O caminho real para a construção de uma paz duradoura, e não de uma paz fictícia, hoje sinônimo de guerra fria, é criação de uma Federação Mundial que, limitando a soberania nacional no campo das divergências internacionais, sem atentar os demais direitos e liberdades das nações, evite conflitos armados. O instrumento ou a autoridade capaz de realizar este objetivo vital dos nossos dias é o Governo Mundial, integrado por todas as nações do mundo sob a forma de uma “Federação dos Povos” (Mendonça, 2021: 2013).

Quer dizer, Castro diagnosticava que tanto a dominação Norte-Sul, quanto a rivalidade internacional própria de um sistema anárquico, eram elementos que impediam a verdadeira paz – uma paz onde, entre outras coisas, a fome pudesse ser superada. Uma paz onde o desarmamento pudesse liberar recursos para a alimentação. A desglobalização com cooperação internacional, bem como a soberania alimentar, temas candentes nos estudos críticos sobre as relações agroalimentares internacionais na atualidade, eram propostas de intervenção já levantadas por ele para superar o desastre humano que era a fome – há séculos, mas não por intempéries da natureza, e sim pelas práticas domésticas e internacionais dos Estados. Por ser otimista em relação à ciência, vontade política era o ingrediente faltante para que as soluções técnicas fossem encontradas.

Ora, esta proposta claramente remete a uma perspectiva idealista, apesar de o diagnóstico ser muito bem enraizado nas relações materiais de poder. Isso porque Castro era, sobretudo, um reformista. A violência, como forma de superação de outras violências, não aparece como desejável durante a maior parte de sua obra (algo que seria relativizado ao final de sua vida, já no exílio). A conscientização, por meio da denúncia e do esclarecimento, seriam os caminhos preferíveis para a transformação social.

No entanto, sua experiência prática junto às organizações internacionais foi decepcionante. Ao final de sua carreira, a descrença em relação às organizações internacionais se avolumou e cedeu mais espaço para a difusão de ideias entre povos como vetores mais críveis – ou resignados? – de transformação nacional e internacional. Contudo, uma coisa parece inabalável ao longo da trajetória: a crença na autodeterminação dos povos (ênfase na descolonização) e, por conseguinte, nas políticas públicas do Estado, como princípio e ferramenta indispensáveis para a superação da fome.

De fato, a obra de Josué de Castro é ampla e a leitura e releitura de Geografia da Fome (1946) e de Geopolítica da Fome (1951) – entre outros escritos – são fundamentais para a avaliação crítica de seu pensamento. O livro de Marina Mendonça nos auxilia no enfrentamento desta tarefa, pois ela tem o cuidado de contextualizar a produção e a ação política de Josué, assim como o de expor os autores com quem, e contra quem, Josué dialogava. A leitura de Marina, francamente favorável ao conjunto da obra do biografado, é crítica. Isto é, ela não se furta de expor as vulnerabilidades, equívocos, ambiguidades e, de certo modo, a ingenuidade otimista que Josué de Castro carregou durante a maior parte de sua atuação.

Esta característica de seu livro é da maior relevância, pois, em momentos catastróficos como o que vivemos, a busca por heróis e salvadores pode se tornar perigosa ou enganadora. O próprio Josué de Castro ponderava que a fome, no Brasil, abria as portas para o messianismo. A leitura de O combatente da fome – Josué de Castro: 1930-1973, no entanto, mantém nossos pés no chão e nos faz ter esperança. Não conduz à idolatria, mas sim a uma plataforma crítica e humanizada sobre a qual podemos pensar, teorizar e propor soluções para o problema da fome a partir das Relações Internacionais.

 

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