Pandemia volta a assombrar mulheres do campo em situação de risco

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07 Janeiro 2021

O fim do auxílio emergencial do governo federal atrelado à volta acelerada de casos do novo coronavírus será uma combinação trágica para as mulheres do campo: trabalhadoras rurais; extrativistas; pescadoras; quebradeiras de coco; entre outras. A previsão é de Maria de Lourdes do Nascimento, vice-coordenadora do Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade (MMCC) do Pará. Além do risco iminente da fome, o temor é o aumento nos casos de violência doméstica e feminicídios.

A entrevista é de Maria Fernanda Ribeiro, publicada por Amazônia Real, 27-12-2020.

Com atuação em 85 municípios, do Marajó ao Tapajós, o MMCC é uma organização criada na época da ditadura militar (1964-1985) com o objetivo de proteger e empoderar as mulheres contra diversos tipos de violência das quais são vítimas. Assuntos que até então pareciam superados desde a década de 1980 voltaram a assombrar os direitos das mulheres do campo com as novas políticas anunciadas pelo atual governo.

Em tempos de Covid-19, o trabalho do MMCC pelos direitos das mulheres continuou, mas foi necessário ampliar o escopo para amenizar os impactos da pandemia, principalmente entre aquelas que são mães e chefes de família. A casa do movimento, que sempre foi um lugar de apoio, agora abriga mulheres em situação de vulnerabilidade. Maria de Lourdes, a Lourdinha, conversou com a Amazônia Real sobre os temores que enfrentam e como as mulheres parecem estar de mãos atadas.

De janeiro a agosto deste ano, 53 mulheres foram vítimas de feminicídios no estado do Pará, mais que o dobro das 25 mortes registradas nos oito primeiros meses de 2019. Os números foram levantados pelo monitoramento da violência contra a mulher da série Um vírus e duas guerras. A ausência de estatísticas com recorte de territorialidade é um problema estrutural dos dados nacionais sobre violência doméstica contra a mulher no Brasil. Não é possível saber quantas mulheres do campo foram assassinadas.

Qual será a capacidade de engajamento social agora diante de novos financiamentos coletivos, mais mortes e alta do desemprego, questiona-se Lourdinha. “Não sabemos como esse povo vai sobreviver e nem se temos capacidade para mobilizar novamente a sociedade”, antecipa. Confira os principais trechos da entrevista da vice-coordenadora do Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade (MMCC).

Maria de Lourdes Nascimento, em 2019 (Foto: Amazônia Real)

Eis a entrevista.

Qual é a maior preocupação do movimento diante do atual cenário da pandemia?

Nosso medo é o aumento nos casos de feminicídio. O Pará tem uma extensão territorial muito grande e uma população bem diversa. Temos uma população muito grande na região ribeirinha, outra no campo e também na cidade. Hoje são 12 delegacias no estado que atendem casos de violência contra a mulher, mas apenas cinco delas são exclusivas. Para você ter uma ideia da dificuldade que algumas mulheres enfrentam, a delegacia de Santarém é responsável também pelo atendimento de outros municípios, mas alguns ficam até 15 horas de barco. Essas dificuldades sempre existiram, mas na pandemia se tornou um dos nossos maiores desafios.

No processo de distanciamento social, do lockdown, essas mulheres não tinham como denunciar ou registrar a ocorrência. Você vai dizer que a Justiça abriu a possibilidade de fazer a denúncia pela internet. Mas me responde: Como é que uma mulher que tá lá no Brasil Novo, que sofre violência, que não consegue participar de uma formação com a gente nem pelo Whatsapp, vai conseguir registrar uma denúncia? Ela não vai conseguir chegar até o sistema de proteção. Pior do que ficarem presas com seus assassinos é saber que o sistema não vai te atender.

E como o fim do auxílio emergencial impactará a vida dessas mulheres?

Mulheres que trabalhavam como autônomas ou em casas de família, mesmo sem carteira assinada, sem uma diária justa, tinham ao menos garantia de que haveria uma renda mínima e que levaria esse dinheiro para casa. Com o distanciamento, acabou isso. Aí veio o auxílio emergencial e ajudou um pouco, mas muitas famílias em condições de extrema vulnerabilidade foram desligadas do programa e agora vão ficar sem nada. E ficar sem nada significa não ter condições para cuidar dos filhos, da família e nem dela mesma. Na primeira onda da pandemia presenciamos várias famílias dividindo o mesmo ambiente e quando a mãe adoecia não tinha como ser isolada. Tivemos que negociar um ambiente externo para deixar essa mulher ficar sozinha. Muitas dessas famílias são chefiadas por mulheres que precisam trabalhar, que acabam se expondo por uma necessidade de sobrevivência e aí, quando volta pra casa, não tem condições de se isolar de outros membros da família.

Foto de arquivo de Maria de Lourdes Nascimento (MMCC) | Amazônia Real

Que diferença enxerga entre o começo e o atual momento da pandemia?

Nesse período da primeira onda recebemos muitos apoios de organizações parceiras com a distribuição de milhares de cestas básicas. Conseguimos também mobilizar dinheiro por meio de um financiamento coletivo online para levar produtos de primeira necessidade às famílias. No momento que temos uma segunda onda, não sabemos como esse povo vai sobreviver e nem se temos capacidade para mobilizar novamente a sociedade.

Há um local específico para abrigar as mulheres?

Nós também temos uma casa que é um local de apoio ao nosso trabalho e hoje ela está sendo usada para acolher mulheres em situação de vulnerabilidade que não têm pra onde ir. Tem duas famílias lá. É uma casa que temos desde 1992 e é a primeira vez que ela está sendo usada com esse objetivo. Há mais mulheres precisando, mas não temos estrutura para esse tipo de acolhimento. Não tem camas, ventiladores, lençóis ou toalhas e a gente sabe que quando as famílias chegam, chegam em situação muito difícil, com dificuldade, e a gente precisaria condições de garantir pelo menos o básico. Estamos com duas mulheres abrigadas lá, mas se a gente fosse fazer um levantamento teria fila de atendimento. Com uma segunda onda e sem auxílio, essas mulheres podem ficar totalmente desamparadas. E me preocupa também o aumento da violência entre os jovens.

Que tipo de violência?

É geral e é muito prático: hoje no Pará como um todo tem muita criança trabalhando pelas ruas. Aquele trabalho que a gente não encontrava mais. Isso é a falta de estrutura dos pais. As crianças não estão conseguindo estudar e se não tem comida em casa se distribuem pelas ruas. Quando apertar a situação e não tiver garantia de alimentos, não tem como assegurar que a juventude não vai pra rua. A situação é de fome e vamos perder nossos jovens para as facções. Nos nossos municípios, mesmo os pequenos, se você andar duas quadras e não encontrar uma escrita no muro com mensagem de alguma facção, você pode dizer que esse lugar é muito feliz. Se a mãe tem um problema de saúde, quem vai pra rua tentar conseguir algum dinheiro é a criança. Isso é no campo e na cidade, é geral. Pensar em quantas mães vão ter que chorar por ter sua juventude exterminada à luz do dia. A combinação de fatores como o fim do auxílio emergencial somado à violência doméstica e às incertezas sobre capacidade de apoio é uma bomba.

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