Papa Francisco faz história: tornar Wilton Gregory cardeal foi uma escolha sábia

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17 Novembro 2020

Francisco certamente fez uma escolha sábia ao designar Gregory como cardeal para representar a Igreja em uma capital onde Trump governa, mesmo que apenas por mais alguns meses”, comenta em editorial o National Catholic Reporter, 16-11-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o editorial. 

Esse é um momento raro de se encontrar na vida da Igreja, uma instituição global de mais de 2 mil anos, que verdadeiramente merece o adjetivo de “histórica”. Mas a nomeação do papa Francisco do arcebispo de Washington Wilton Gregory como um dos 13 novos cardeais certamente preenche a conta.

Gregory, que tem liderado a Igreja na capital nacional desde maio de 2019, será o primeiro afro-americano a receber o barrete vermelho, o primeiro a receber a liderança honorária de uma paróquia em Roma, e o primeiro a ser incluído entre o grupo mais seleto e influente de prelados católicos.

O significado desses primeiros é difícil de exagerar. Como disse a professora Anthea Butler da Universidade da Pensilvânia ao NCR em 26 de outubro, os católicos negros “esperaram muito tempo para que isso acontecesse”.

Ou como o padre Bryan Massingale, da Fordham University, afirmou: “Esta é uma maneira de dizer que os católicos negros são vistos; que somos importantes na Igreja”.

Além de sua natureza de fazer história, há muitos outros motivos para elogiar Francisco por escolher Gregory como cardeal. Dois em particular são dignos de nota.

Em primeiro lugar, a escolha reconhece um prelado que esteve na vanguarda muitas vezes solitária dos bispos católicos que tentaram sinceramente enfrentar a crise de abusos do clero. Quando a cobertura dos escândalos de abuso em Boston no início de 2002 levou a uma erupção sem precedentes de protestos públicos, foi Gregory quem estava na posição nada invejável de liderar a Conferência dos Bispos dos EUA.

Dezoito anos depois, é difícil recuperar o sentimento de crise absoluta que envolvia os prelados na época. O então bispo Gregory, chefe da pequena diocese de Belleville, Illinois, de alguma forma manobrou seus cerca de 300 colegas em estado de choque - incluindo arcebispos e cardeais anos mais velho - para criar uma carta para estabelecer procedimentos uniformes para lidar com casos de abuso.

Embora a Carta de Dallas certamente não seja um documento perfeito – a decisão de aplicar seus padrões apenas aos padres e não aos próprios bispos continua sendo uma falha substancial – ela representou um grande passo à frente e continua a servir como um modelo para a igreja global.

Esse último fato é parcialmente devido ao próprio acompanhamento habilidoso de Gregory nas negociações com os intransigentes funcionários do Vaticano do papa João Paulo II para que alguns dos procedimentos da carta vinculassem as normas para a Igreja americana.

Especialmente agora, quando a Arquidiocese de Washington, D.C., está sofrendo com as revelações chocantes contidas no relatório do Vaticano de 10 de novembro sobre o ex-cardeal Theodore McCarrick, honrar o trabalho de Gregory para proteger as crianças e pessoas vulneráveis na Igreja faz muito sentido.

A segunda razão para elogiar a escolha de Francisco tem a ver com a maneira como Gregory habilmente desempenhou seu papel em Washington, pelo menos até agora.

Embora o homem de 72 anos seja conhecido por muito tempo como um líder silencioso, ele falou em alto e bom som quando o Santuário Nacional de São João Paulo II, de propriedade dos Cavaleiros de Colombo, recebeu uma visita do presidente Donald Trump apenas um dia depois de ele ter ordenado a dispersão de manifestantes pacíficos perto da Casa Branca com gás lacrimogêneo.

Em palavras que ainda são impressionantes em sua força, Gregory disse: “Acho desconcertante e repreensível que qualquer instituição católica se permita ser tão maltratada e manipulada de uma forma que viola nossos princípios religiosos”.

Francisco certamente fez uma escolha sábia ao designar Gregory como cardeal para representar a Igreja em uma capital onde Trump governa, mesmo que apenas por mais alguns meses.

 

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