Direita cristã é o novo ator e líder do neoconservadorismo no País

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22 Julho 2019

Jair Bolsonaro quer indicar alguém “terrivelmente evangélico” para o Supremo Tribunal Federal (STF). O deputado-pastor Marco Feliciano (Pode-SP) diz ser o vice ideal do presidente na eleição de 2022. O governo distribui facilidades fiscais às igrejas, como desobrigar as menores de ter CNPJ e de informar movimentações financeiras diárias. São fatos interligados? Totalmente.

A reportagem é de André Barrocal, publicada por CartaCapital, 22-07-2019.

A direita cristã é a novidade naquilo que se pode chamar de “neoconservadorismo” político no País e o que catapultou Bolsonaro ao poder. É o que diz o recém lançado livro O novo conservadorismo brasileiro, da doutora em ciência política Marina Basso Lacerda, assessora da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Essa direita cristã avançou em reação a tabus levantados na era PT, ainda que timidamente, como aborto, casamento gay e combate à homofobia. Assuntos tidos pelos evangélicos como ameaça à existência da família e que eles resumem como “ideologia de gênero”, uma expressão inventada nos anos 1990 pelo Vaticano.

“O que diferencia o neoconservadorismo de outros movimentos e ideologias conservadoras e de direita”, escreve Marina, “é a centralidade que atribui às questões reprodutivas e sobre a família tradicional”.

O curioso, nota a autora, que elaborou o livro com base na atuação dos deputados da bancada da Bíblia na legislatura de 2015 a 2018, é a ausência de mulheres entre os protagonistas políticos pró-família. Para ela, isso revela “uma tentativa dos homens heterossexuais de restabelecimento de suas posições de poder perdidas no interior da família”.

Avanço dos evangélicos

O aumento do número de evangélicos no País neste século certamente deu força à direita cristã. Eles eram 15% em 2000, conforme o IBGE. Subiram a 22% em 2010, ano do último censo populacional. Somavam 29% em 2016, segundo o Datafolha. No ritmo de expansão de 1991 a 2010, serão 40% em 2036, nos cálculos de um estatístico do IBGE, José Eustaquio Diniz Alves.

O avanço da direita cristã e dos evangélicos é um desafio político enorme para os progressistas, os quais se afastaram fisicamente dos mais pobres nos últimos anos, vácuo ocupado pelas igrejas. “Os protestantes, sobretudo os pentecostais, foram capazes de falar com as necessidades subjetivas da população pobre”, disse o presidente do PSB, Carlos Siqueira, em entrevista recente a CartaCapital.

Bolsonaro tem declarações e ideias afinadas com essas necessidades subjetivas. Sua popularidade entre os evangélicos é maior do que entre os brasileiros em geral, 41% e 33%, respectivamente, de acordo com uma pesquisa Datafolha de julho. Entre os evangélicos, 61% apostam que o governo do ex-capitão ainda será ótimo ou bom, ante uma média geral de 51%.

O presidente, “que ao longo de sua trajetória sempre militou por itens da agenda neoconservadora – militarismo interno, anticomunismo externo e um certo ativismo anti-LGBT – vai crescendo politicamente à medida em que incorpora uma agenda neoconservadora completa”, diz o livro de Marina Bessa. É esse ideário religioso que o ex-capitão abraçou tardiamente que o alçou ao poder.

Para a autora, o avanço da direita cristã no Brasil repete um roteiro visto nos Estados Unidos há 40 anos. A luta em defesa de causas feministas, dos negros e dos gays – dos direitos civis, em suma – na década de 1960 provocou uma reação dos americanos protestantes que desaguou na eleição do presidente ultraconservador Ronald Reagan, em 1980.

Tanto Reagan quanto Bolsonaro triunfaram montados em uma coalizão política que unia não só a direita cristã, diz Marina, mas também neoliberalismo econômico, punitivismo criminal e a defesa de Israel. Este país desperta talvez mais interesse nos evangélicos brasileiros do que o papa, devido à crença de que a unificação de Israel trará o fim do mundo.

Ao elaborar o livro, cujo ponto de partida foi uma tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisadora examinou como a bancada da Bíblia se relacionava com a da bala e com temas econômicos. Constatou que “neoliberalismo, punição e família se entrelaçam”. Um entrelaçamento que tem como cola justamente a ideia de família.

“Para os neoconservadores, o melhor programa contra a pobreza é uma família estável. O modelo de Estado defendido pelos neoconservadores é o corporativo: moldado pela Igreja, comprometido com a família tradicional”, escreve Marina. Se a família e o mercado falham, diz ela, o tratamento pregado pelos neoconservadores não são políticas públicas, mas o direito penal: polícia e cadeia.

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