A esquerda ferida

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • O que muda (para pior) no financiamento do SUS

    LER MAIS
  • Ou isto, ou aquilo

    LER MAIS
  • Desmatamento na Amazônia aumenta 212% em outubro deste ano, aponta Imazon

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

Por: Jose Arthur Giannotti | 03 Agosto 2018

“A exploração do trabalho pelo capital é brutal, mas não é homogênea. Todas as revoluções de esquerda, desde a russa, que tentaram produzir sem passar pelas misérias do mercado, foram obrigadas a recuar. Toda política distributiva tem que saber como se produz a riqueza a ser distribuída. Hoje ser de esquerda é pensar nesse dilema. A mera acusação contra o capitalismo sem levar em conta esse desafio é enganação religiosa. Daí a importância da democracia como o terreno onde essas discussões possam ser feitas. Esconder o problema, só pensar na distribuição, é enganar o público e fomentar o populismo”, escreve Jose Arthur Giannotti, em artigo publicado na última edição da revista IHU On-Line

Segundo ele, “nada mais prejudicial à modernização da esquerda do que a repetição das críticas a um capital que deixou de existir”.

Jose Arthur Giannotti é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo - FFCL/USP. É membro fundador e Pesquisador Senior no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento - CEBRAP, São Paulo, professor contratado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo -PUC/SP e, ainda, professor titular na área de Filosofia política do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas - IFCH/UNICAMP. Entre seus livros publicados, destaque para Apresentação do mundo. Considerações sobre o pensamento de Ludwig Wittgenstein (São Paulo: Cia. das Letras, 1995), Universidade em ritmo de barbárie (São Paulo: Brasiliense, 1986), Trabalho e reflexão (São Paulo: Brasiliense, 1983) e O capital: crítica da economia política (São Paulo: Boitempo Editorial, 2013).

Eis o artigo.

Por mais que o sistema capitalista tenha mudado, o conceito marxista de capital ainda nos obriga a pensar e a levar em conta que nosso sistema econômico cria riqueza e muita desigualdade ao mesmo tempo. Devemos, porém, levar em consideração que houve uma enorme transformação em nosso sistema de produção: para crescer ele depende cada vez mais de invenções de novos produtos, por conseguinte de novas tecnologias. Essa dependência de novos conhecimentos trava a formação da mercadoria tal como Marx a pensou. Para que ela seja parcela do trabalho social total, como ensinara Ricardo [1], é necessário que todos os produtores de um mesmo ramo de produção tenham acesso à mesma tecnologia. Não me parece que isso seja o caso atualmente; mais ainda, as grandes fortunas nascem de descobertas tecnológicas que se tornam monopólio e são derrubadas com o nascimento de outros monopólios. A informática é o caso típico. Nessas condições haveria múltiplos valores médios circulando num mercado mundializado. Seria necessário repensar as novas formas de fetiche da mercadoria.

No entanto, o capital não se define apenas como produtor de mercadoria, mas de mercadorias-investimentos que só são mobilizadas quando geram lucro. Sem uma taxa média de produtividade do capital, não há condições de formar a contradição tipo hegeliana entre o capital total e o proletário total. Aliás, em vez de se unificar o proletariado se espatifou em várias categorias de trabalhador e o próprio emprego se torna cada vez mais variável.

O jovem Marx, enquanto hegeliano, apostava numa revolução que opusesse capital e trabalho, mas o velho Marx não consegue fechar o terceiro volume de seu maior livro, porque os dados não levam nessa direção. Depois da publicação dos textos escritos no período, depois dos vários estudos sobre esse problema, em particular aqueles de Michael Heinrich [2], fica evidente que Engels [3], depois da morte de Marx, costurou esses textos o melhor possível para que ainda dessem a impressão de que a revolução proletária terminaria regenerando o gênero humano.

Daí a questão: a exploração do trabalho pelo capital é brutal, mas não é homogênea. Todas as revoluções de esquerda, desde a russa, que tentaram produzir sem passar pelas misérias do mercado, foram obrigadas a recuar. Toda política distributiva tem que saber como se produz a riqueza a ser distribuída. Hoje ser de esquerda é pensar nesse dilema. A mera acusação contra o capitalismo sem levar em conta esse desafio é enganação religiosa. Daí a importância da democracia como o terreno onde essas discussões possam ser feitas. Esconder o problema, só pensar na distribuição, é enganar o público e fomentar o populismo. Nada mais prejudicial à modernização da esquerda do que a repetição das críticas a um capital que deixou de existir.

Notas:

[1] David Ricardo (1772 - 1823): economista inglês, considerado um dos principais representantes da economia política clássica. Exerceu uma grande influência tanto sobre os economistas neoclássicos, como sobre os economistas marxistas, o que revela sua importância para o desenvolvimento da ciência econômica. Os temas presentes em suas obras incluem a teoria do valor-trabalho, a teoria da distribuição (as relações entre o lucro e os salários), o comércio internacional, temas monetários. A sua teoria das vantagens comparativas constitui a base essencial da teoria do comércio internacional. Demonstrou que duas nações podem beneficiar-se do comércio livre, mesmo que uma nação seja menos eficiente na produção de todos os tipos de bens do que o seu parceiro comercial. Ao apresentar esta teoria, usou o comércio entre Portugal e Inglaterra como exemplo demonstrativo. O Ciclo de Estudos em EAD – Repensando os Clássicos da Economia - Edição 2010, em seu segundo módulo, fala sobre Malthus e Ricardo: duas visões de economia política e de capitalismo. Para conferir a programação do evento, visite aqui. (Nota da IHU On-Line)

[2] Cientista político alemão, professor da Universidade de Berlim; concedeu a entrevista O pensamento de Marx não se limita a uma visão de mundo à edição 525 da IHU On-Line. (Nota da IHU On-Line)

[3] Friedrich Engels (1820-1895): filósofo alemão que, junto com Karl Marx, fundou o chamado socialismo científico ou comunismo. Ele foi coautor de diversas obras com Marx, entre elas Manifesto Comunista. Grande companheiro intelectual de Karl Marx, escreveu livros de profunda análise social. (Nota da IHU On-Line)

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

A esquerda ferida - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV