Desmatamento no Cerrado emite mais carbono que indústria

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24 Maio 2018

Destruição da savana respondeu por 11% das emissões brasileiras em 2016, mostra relatório do SEEG.

A reportagem é de Cláudio Angelo, publicada por Observatório do Clima, 23-05-2018.

O desmatamento no Cerrado emitiu 248 milhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa em 2016. É mais do que o dobro do que o país emite por processos industriais e equivale a 11% de todo o carbono que o Brasil lançou no ar no mesmo ano. A constatação é de nova análise das emissões do setor de mudança do uso da terra, publicada nesta quarta-feira (23) pelo SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), do Observatório do ClimaAcesse aqui o relatório.

Em 2016, ano mais recente para o qual há estimativas disponíveis, as emissões por desmatamento no segundo maior bioma do país corresponderam a 21% do 1,17 bilhão de toneladas brutas de CO2e (gás carbônico equivalente, a soma de todos os gases-estufa “traduzida” em toneladas de CO2) emitidas pela destruição de florestas. No total, as emissões de uso da terra (que englobam desmate, calagem de solos e queima de resíduos florestais) cresceram 23% em relação ao ano anterior, quando 949 milhões de toneladas de CO2e foram para a atmosfera.

O relatório incorpora dados desmatamento no Cerrado divulgados em 2017 pelo Ministério do Meio Ambiente e que englobam os anos de 2014 e 2015. Até o ano passado, só havia dados disponíveis até 2013. A atualização mostra que a savana do Brasil central, principal palco da expansão da fronteira agrícola, perde vegetação nativa cinco vezes mais rápido que a Amazônia.

Também nesta quarta-feira (23), o Ibama anunciou o resultado da nova fase da Operação Shoyo, que aplicou R$ 105,7 milhões em multas por plantio de grãos em áreas embargadas por desmate ilegal do Cerrado nos Estados do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

As mudanças de uso da terra responderam, em 2016, por 51% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil, que totalizaram 2,2 bilhões de toneladas. Em números absolutos, a grande fonte de preocupação continua sendo a Amazônia, que contribuiu com 52% (602 milhões de tCO2e) das emissões do setor em 2016 – 27% mais do que em 2015.

Fogo e clima

Outro problema, que só agora começa a ser mensurado, é que grandes volumes de vegetação nativa do Cerrado estão queimando com mais facilidade mesmo sem ser alvo de desmatamento. Nos últimos quatro anos, os incêndios passaram a acontecer em uma frequência 87% maior do que em anos anteriores desde século. Áreas protegidas concentraram 38% das queimadas registradas entre 2000 e 2016.

Até agora, os dados sobre emissões de queimadas são coletados em caráter exploratório e não constam no Inventário Nacional de emissões, publicado pelo MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações) e usado como referência para os cálculos do SEEG.

“O aumento da incidência indica não só uma mudança no regime natural de fogo da região mas também a necessidade de incluir esses incêndios na conta das emissões brasileiras dos gases que causam o aquecimento global”, disse Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam, coautora do relatório, juntamente com Amintas Brandão e Paulo Barreto, do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), e Júlia Shimbo e Felipe Lenti, também do Ipam.

O relatório do setor de Mudança de Uso da Terra integra a série de cinco documentos de análise que todo ano são publicados alguns meses após o lançamento dos dados do SEEG. Nas próximas semanas serão lançadas as análises dos setores de Resíduos, Energia e Processos Industriais e Agropecuária, além de um documento-síntese com recomendações para a governança climática do Brasil.

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