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02 Março 2018

Para impedir a derrota na batalha cultural, a esquerda nacional pode acabar entregando uma vitória política nas mãos do seu maior inimigo declarado.

A reportagem é de Rodolfo Borges, publicada por El País, 01-03-2018.

Eu ainda não acho que o deputado Jair Bolsonaro será eleito presidente da República neste ano. Mas, se ele tem alguma chance, ela depende de você, que tem medo do capitão. Você, que se autocongratula diariamente diante do espelho por se preocupar com os pobres e que enxerga ódio para todo o lado, menos em você mesmo. Bolsonaro fala grosso, grita, esbraveja, assusta, mas o que de fato poderia fazer se eleito presidente? Legalizar a tortura no Brasil? Criminalizar a homossexualidade? O debate acerca da possibilidade de ele assumir o Palácio do Planalto está tão fora da realidade que corre o risco de elegê-lo.

A eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, expôs de forma clara os parâmetros sob os quais o confronto político é travado há décadas. O establishment (partidos, empresariado, mídia) sempre vai optar pelo candidato menos disruptivo, mais previsível. Trump rasgou o roteiro, porque disputou a batalha cultural, que é a que importa há algumas décadas. O presidente dos EUA não se submete ao script padrão, não se constrange quando é chamado de racista ou machista, palavras que viraram cavalos de batalha, e retruca insultos com desqualificações e deboches.

Bolsonaro é completamente diferente de Trump, mas segue regras parecidas. Fala o que pensa — ou, melhor ainda, o que não pensa. Isso cativa a porção do Brasil que não aderiu à política identitária, essa que privilegia o debate sobre minorias. Quanto mais a imprensa e os adversários políticos baterem nessa tecla, mais prestígio Bolsonaro ganhará entre os grupos que não se veem representados em discursos sobre transexuais e negros — que não raro interditam todo o debate franco em relação a qualquer que seja o assunto em discussão.

O pré-candidato do PSC é acusado de incitar o estupro ao mesmo tempo em que defende a castração química de estupradores. Faz sentido? Bolsonaro é destemperado — o que não é exatamente uma qualidade para um presidente da República — e ainda paga por ter respondido de forma ofensiva à ofensa de uma adversária política anos atrás. Teria revelado seu machismo espontaneamente? Nem todo mundo vê assim. A esquerda brasileira pretende fazer de Bolsonaro um símbolo do mal por conta de posicionamentos rotulados como “polêmicos”. E o deputado acabou se transformando em um símbolo do bem para quem não gosta da esquerda brasileira.

Talvez por isso o fato de a família Bolsonaro ter uma dezena de imóveis e, ainda assim, seu patriarca gozar de auxílio-moradia, não interfira em sua popularidade. Não é exatamente a um sistema político que Bolsonaro se opõe. É a um sistema cultural. E, ao fazê-lo, ele recebe carta branca da parcela do país que joga esse mesmo jogo. A vulgaridade da frase “uso para comer gente” é percebida por todos, mas relevada por quem está interessado em avançar alguns passos no campo de batalha cultural que se trava no Brasil desde a ditadura militar — mais em A corrupção da inteligência (Record, 2017), de Flávio Gordon.

Um ano depois da chegada de Trump à Casa Branca, os Estados Unidos não acabaram, apesar de a imprensa norte-americana anunciar a derrocada inevitável do império diariamente. Pode ser que a potência só sinta os alegados efeitos maléficos da gestão Trump daqui a anos, mas, nesse caso, os jornais locais, reverberados mundialmente, deveriam estar dizendo isso. Quanto mais histérica e longe da realidade soa a mídia norte-americana, menos os leitores acreditarão nela. O mesmo se aplica a Bolsonaro.

Quanto mais o deputado do PSC for tratado como pária, homofóbico, xenófobo, fascista, machista e misógino, mais prestígio ele ganhará entre aqueles que não enxergam nessas desqualificações mais do que armas da batalha político-cultural. Por enquanto, esses estigmas continuam funcionando para a parte mais proeminente da população, os intelectuais que definem agendas políticas e fazem a cabeça da elite universitária, mas esses termos vão se desgastando pelo uso. Não serviram para impedir a ascensão de Trump ou a saída do Reino Unido da União Europeia.

O que fazer, então, para impedir a eleição de Bolsonaro? Seguindo o raciocínio, a melhor alternativa seria tratá-lo como mais um — ou simplesmente ignorá-lo. Mas isso parece ter se tornado impossível. A armadilha está montada. A política identitária precisa ser alimentada periodicamente, e Bolsonaro é um dos melhores espantalhos de tudo aquilo que os adeptos dessa perspectiva de mundo dizem combater. Para impedir a derrota na batalha cultural, a esquerda nacional pode acabar entregando uma vitória política nas mãos do seu maior inimigo declarado.

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