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02 Novembro 2017

Em 1922, Adolf Hitler escreveu que Jesus “é o nosso maior Führer ariano”. Talvez seja a mais gigantesca “fake news” da história. Mas já trai uma ambição que os nazistas transformariam, uma década depois, em religião de Estado. Apagar todos os vestígios do judaísmo da Bíblia, declarar “prejudicial” o Antigo Testamento, negar até que Jesus fosse judeu. Uma mistificação monstruosa que levou os nazistas a fundarem, em 1939, em Eisenach, um instituto para “desjudeizar” a tradição cristã. E que eles motivaram também através do violento antissemitismo da fase tardia de Martinho Lutero.

A reportagem é de Tania Mastrobuoni, publicada no jornal La Repubblica, 31-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É o que conta a bela mostra sobre “Lutero e o nazismo”, montada no Museu da Topographie des Terrors, no antigo quartel-general da Gestapo, em Berlim.

O pai da Reforma protestante tornou-se, desde o início, uma figura fundamental da propaganda nazista. E não só pelo seu antissemitismo. Desde a unidade alemã e da fundação do Reich em 1871, o homem que havia se rebelado contra o papa e que, de acordo com Thomas Mann, havia libertado o espírito dos alemães traduzindo a Bíblia para a língua deles era considerado um pai da pátria.

Na perene tendência à perversão de tudo, os nazistas o transformaram em um segundo Führer. O teólogo Hans Preuss, em seu livro “Luther, Hitler”, escreve que “ambos são chamados a salvar o seu povo. De ambos eleva-se o grito pelo Homem Novo da salvação”.

E o historiador Heinrich Bornkamm distorce o pensamento do reformador até retraçar nos seus escritos um antissemitismo não dirigido “contra o judeu em si”, mas motivado pelo conceito de raça.

Hans Delbrück morreu em 1929 e não assistiu à deriva da sua “História universal”, cuja última parte é confiada a um fervoroso nazista como Konrad Molinski. Na capa, duas figuras-símbolo da época moderna e da contemporânea, de acordo com a Alemanha da época: Lutero e Hitler.

Naqueles anos, consuma-se um divórcio dramático entre os teólogos e os historiadores protestantes alemães e os do resto do mundo, e, já em 1933, por ocasião dos festejos pelo 450º aniversário do nascimento do pai da Reforma, o governador da Turíngia pôde dizer, eufórico, que “Lutero é nosso”.

Certamente, na loucura coletiva, nascem também bolsões de resistência, como a Bekennende Kirche, a de Karl Barth ou de Dietrich Bonhoeffer. Este comentará, amargamente: “Vejo a palavra de Lutero por toda a parte, transformada de verdade em engano”.

Em 1939, um relatório da Gestapo detecta uma diferença substancial entre protestantes e católicos. Entre os primeiros, ela registra “orações sinceras pelo Führer e pelo povo alemão, que surgem de uma profunda compreensão dos acontecimentos de hoje”, ou seja, aqueles que estão empurrando a Alemanha e o mundo inteiro para o abismo da guerra.

Entre os católicos, no entanto, a Gestapo observa com desconforto que se fala de “tempos difíceis” com os quais Deus está pondo os alemães à prova, para que encontrem a “reta via à verdadeira Igreja e ao verdadeiro Deus”. Que não é o Führer nazista, evidentemente.

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