Em Colniza, Ministro da Justiça e fazendeiros têm planos genocidas para tribo isolada, revela ONG

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28 Abril 2017

Cidade palco de chacina pode ter novas vítimas; reserva conquistada após campanha global está ameaçada por lobby de madeireiros e plantadores de soja.

A reportagem é de Cauê Seignemartin Ameni e publicada por De Olho nos Ruralistas, 27-04-2017.

A cidade de Colniza, no Centro-Oeste do Mato Grosso, virou manchete em todos os jornais do país por causa do assassinato brutal de 9 camponeses na região de Taquaruçu do Norte semana passada (19/04). Com medo de uma nova chacina, encomenda pelos fazendeiros da região, os assentados estão saindo às pressas do local. Mas não são apenas os camponeses que estão em risco. Os últimos membros da tribo isolada Kawahiva, que vivem há anos em fuga para sobreviver, também podem estar com os dias contados.

O prefeito de Colniza, Esvandir Antonio Mendes (PSB-MT), e os vereadores da cidade, se reuniram com o Ministro da Justiça, Osmar Serraglio (PMDB-RS), para planejar a redução do território indígena Rio Pardo. No local pretendem abrir terreno para rodovias, madeireiros e plantadores de soja, revelou reportagem do Survival — ONG internacional dedicada em defender os direitos dos povos indígenas.

Em 2007, a cidade de Colniza ganhou destaque nacional ao ganhar o prêmio de “cidade mais violenta do Brasil” pelo Mapa da Violência 2017. O relatório é elaborado anualmente pela Organização dos Estado Ibero-americanos (OEI). Segundo reportagem de Felipe Milanez, publicado na revista Rolling Stones, dois fatores contribuem para essa dramática situação: 1) abandono e corrupção das autoridades federais; e 2) a voracidade dos madeireiros e sojeiros.

Os indígenas isolados da etnia Kawahiva dependem completamente da floresta para sua sobrevivência. Os Kawahiva são conhecidos como caçadores-coletores, que migram de acampamento a acampamento através da flores para conseguir alimentos.

Apenas em 2016, após uma campanha global do Survival, o território Rio Pardo foi reconhecido. A campanha contou com apoio do ator vencedor do Oscar e embaixador da ONG, Mark Rylance, para liderar a campanha que culminou na portaria para garantir o território aos indígenas.No entanto, a situação agora pode ser revertida. O diretor da Survival, Stephen Corry, declarou:

– O Brasil deve respeitar os direitos de seus povos indígenas. As tribos isoladas, como os Kawahiva, claramente querem ser deixadas sozinhas para viverem como quiserem. Mas os líderes atuais do Brasil estão reunindo-se às escuras com políticos corruptos, e cedendo às pressões da bancada ruralista, claramente a fim de negar os indígenas isolados desse direito. Os riscos não poderiam ser mais altos: povos inteiros estão em risco de genocídio como resultado dessa abordagem cruel.

De acordo com o levantamento feito pela ONG, “estradas, fazendas e exploração de madeira ameaçam expô-los à violência de estranhos que roubam suas terras e recursos, e a doenças como a gripe e o sarampo, às quais não têm resistência”.

A reportagem lembrou da polêmica declaração de Osmar Serraglio que simpatiza com o interesse do prefeito e vereadores de Colniza: “Vamos parar com essa discussão sobre terras [indígenas]. Terra enche a barriga de alguém?

”UM MINISTRO NA PAREDE?

Nas última semanas, Osmar Serraglio evitou aparição em público para não desgastar ainda mais o governo. O ministro foi interceptado pela Polícia Federal (PF) na Operação Carne Fraca. No áudio, Serraglio chamava Daniel Gonçalves Filho, ex-superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná, líder da organização criminosa, na definição da PF, de “grande chefe”.

A situação dele piorou na semana passada quando a Procuradoria Geral da República (PGR) intimou o ministro a dar explicações sobre o envolvimento com Gonçalves Filho. Dependendo da reposta, a PGR pode pedir ao STF a abertura de inquérito contra Serraglio. Na terça-feira, a Justiça acolheu as denuncias da PF e transformou 59 investigados em réus.

Para o Estadão, a Assessoria de Serraglio informou que apresentou sua defesa à PGR na última semana e que o ministro tentou preservar os empregos do frigorífico investigado.

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