Os 90 anos de Ratzinger: “Longe do mundo, mas nunca se arrependeu”. Entrevista com Georg Gänswein

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18 Abril 2017

Noventa anos nesse domingo, dia de Páscoa, Joseph Ratzinger vive “serenamente” e “com lucidez” a última etapa da sua vida. Ele lê “os Padres da Igreja” sobre os quais estudou quando jovem, convencido de “ter feito a coisa certa” naquele 11 de fevereiro de 2013, quando renunciou. Ele não recebeu “nenhuma pressão” na época e hoje vive sereno “sem se deixar provocar” por aqueles que continuamente o contrapõem a Francisco, o sucessor que, para ele, representa uma “lufada de ar fresco” na Igreja.

Bento XVI na comemoração do seu aniversário, nessa segunda-feira, 17 de abril, acompanhado do seu irmão, Georg (de óculos escuros)

Ao La Repubblica, Dom Georg Gänswein conta a vida de Bento XVI, no retiro do mosteiro Mater Ecclesiae.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 12-04-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Como Bento XVI se aproxima do seu aniversário?

Está sereno, tranquilo e de bom humor. Gostaria de fazer apenas uma coisa pequena adaptada às suas forças. O seu irmão Georg também virá por alguns dias. E esse para ele é o maior presente. Na Pasquetta, um dia depois do aniversário, ele vai nos dar uma modesta festa “à bávara”, com uma pequena delegação da Baviera, entre eles também os Schützen.

Fisicamente, como ele está?

É um homem de 90 anos, muito lúcido, mas as forças físicas diminuem. As pernas estão cansadas. Por isso, para se sentir mais seguro, ele se apoia em um andador que lhe garante autonomia e segurança no movimento.

Ele ainda toca o piano?

Menos do que um ano atrás. Ele diz que as mãos não lhe obedecem mais como antigamente, ou pelo menos não como deveriam obedecer para tocar bem.

Ele assiste à TV?

Só o telejornal das 20h ou das 20h30. Ele recebe o L’Osservatore Romano e o Avvenire e dois jornais alemães. Todos os dias, há também o resumo de imprensa que lhe é enviado pela Secretaria de Estado.

A que leituras ele se dedica?

Sobretudo aos seus grandes mestres, os Padres da Igreja que tanto o acompanharam nos anos em que ele lecionava teologia, mas ele também gosta de ficar atualizado sobre as recentes publicações teológicas, as vozes mais importantes, pelo menos.

Ele escreveu um testamento?

O seu testamento espiritual é o livro sobre Jesus de Nazaré. Obviamente, ele também fez um testemunho pessoal.

Ele falar sobre o além?

Na sua última saudação em Castel Gandolfo, na noite de 28 de fevereiro de 2013, ele mencionou o fato de que ali começava para ele a última etapa da sua peregrinação terrena. Todos os dias, isso é verdade para ele. Em relação ao que ele espera no além, ele repetiu várias vezes quando “dialogou” com as crianças sobre a vida eterna.

Nesses anos, ele nunca voltou a falar sobre a renúncia?

Ele nunca se arrependeu. Está convencido de ter feito a coisa certa, por amor do Senhor e pelo bem da Igreja. Na sua alma, há uma paz tocante, que nos faz entender que, na consciência, há a certeza de ter feito bem diante de Deus. A presença da paz dentro dele é um dom muito belo consequente à decisão.

Ele recebeu pressão para renunciar?

Não, absolutamente! Ele mesmo disse isso no livro O Último Testamento (Ed. Planeta), de Peter Seewald. Ele não recebeu pressão de nenhuma parte. Se tivesse havido, ele não teria cedido. Ele tinha tomado consciência de não ter mais as forças necessárias para guiar a barca de Pedro que precisava de um timão forte. Ele entendeu que devia devolver nas mãos do Senhor aquilo que ele havia recebido d’Ele.

Chegou-se ao conclave depois dos meses tempestuosos do Vatileaks. O senhor acha que, sem o Vatileaks, Bergoglio teria sido eleito?

Eu não acredito que o caso Vatileaks teve tamanha influência no conclave. Bento acompanhou o conclave pela televisão. No livro já citado de Seewald, um ano depois da eleição, ele disse que o Papa Francisco era uma bela lufada de ar fresco. Mas não fez outros comentários.

Não faltam aqueles que contrapõem o magistério de Bento ao de Francisco. Ele está ciente dessa operação?

Lendo os jornais e vendo as notícias, não é possível que Bento não perceba que, às vezes, fazem-se essas contraposições. Mas ele não se deixa provocar por artigos ou afirmações desse tipo. Ele decidiu se calar e permanecer fiel a essa decisão. Ele não tem nenhuma intenção de entrar em diatribes, que ele sente distantes dele.

Ele nunca se arrependeu de permanecer vestido de branco?

É uma pergunta que, para ele, não existia e não existe. Foi algo natural. Ele não vê problemas nisso. Ele tirou o manto e também a faixa. Para ele, é simplesmente uma veste como qualquer outra.

A Amoris laetitia provocou grande discussão na Igreja. Em particular, para alguns, o texto teria provocado confusão em nível pastoral. O que Bento XVI acha?

Ele recebeu uma cópia da Amoris laetitia pessoalmente de Francisco, em branco e com autógrafo. Ele a leu acuradamente. Mas ele não comenta o seu conteúdo, de modo algum. Certamente, está reconhecendo a discussão e as diversas formas em que foi recebido.

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