Discurso do Papa Francisco no 3º EMMP. A relação entre povo e democracia

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10 Fevereiro 2017

"Na relação entre os Movimentos Populares e a política Francisco alerta para dois riscos: “o de ser absorvido pelo sistema e o de se deixar corromper”. Primeiro, “não ser absorvido, porque alguns dizem: a cooperativa, o refeitório, a horta agroecológica, as microempresas, o projeto dos planos assistenciais… até aqui tudo bem. Enquanto vocês se mantem no âmbito das ‘políticas sociais’, enquanto não põem em questão a política econômica ou a Política com ‘p’ maiúsculo, são tolerados. Aquela ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos, às vezes se parece com uma espécie de carro mascarado para conter os descartes do sistema",  escreve Frei Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) e professor aposentado de Filosofia (UFG), 08-02-2017.

Eis o artigo.

5. A relação entre povo e democracia (1ª parte)

Neste artigo - sempre sobre o tema “A falência e o resgate” - destaco (em duas partes) o quinto e último ponto marcante do Discurso do Papa Francisco aos participantes do 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares (3º EMMP): A relação entre povo e democracia.

Referindo-se à solidariedade dos Movimentos Populares para com os migrantes e refugiados, Francisco continua a compartilhar suas reflexões dizendo: “Dar o exemplo e reclamar é um modo de fazer política, e isto leva-me ao segundo tema que vocês debateram no seu Encontro: a relação entre povo e democracia. Uma relação que deveria ser natural e fluida, mas que corre o perigo de se ofuscar, até se tornar irreconhecível”.

Diz ainda: “O fosso entre os povos e as nossas atuais formas de democracia alarga-se cada vez mais, como consequência do enorme poder dos grupos econômicos e mediáticos, que parecem dominá-las”.

Aos participantes do 3º EMMP, o Papa declara: “Sei que os Movimentos Populares não são partidos políticos, e permitam-me dizer a vocês que, em grande parte, é nisto que se encontra a sua riqueza, porque expressam uma forma diferente, dinâmica e vital de participação social na vida pública. Mas não tenham medo de entrar nos grandes debates, na Política com letra maiúscula, e volto a citar Paulo VI: ‘A política é uma maneira exigente - mas não é a única - de viver o compromisso cristão a serviço do próximo’ (Carta Apostólica Octogesima Adveniens, 14 de maio de 1971, n. 46). Ou então esta frase, que repito muitas vezes e sempre me confundo, não sei se é de Paulo VI ou de Pio XII: ‘A política é uma das formas mais altas da caridade, do amor’”.

Na relação entre os Movimentos Populares e a política Francisco alerta para dois riscos: “o de ser absorvido pelo sistema e o de se deixar corromper”. Primeiro, “não ser absorvido, porque alguns dizem: a cooperativa, o refeitório, a horta agroecológica, as microempresas, o projeto dos planos assistenciais… até aqui tudo bem. Enquanto vocês se mantem no âmbito das ‘políticas sociais’, enquanto não põem em questão a política econômica ou a Política com ‘p’ maiúsculo, são tolerados. Aquela ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos, às vezes se parece com uma espécie de carro mascarado para conter os descartes do sistema. Quando vocês, da sua afeição ao território, da sua realidade diária, do bairro, do local, da organização do trabalho comunitário, das relações de pessoa a pessoa, ousam pôr em questão as ‘macrorrelações’, quando levantam a voz, quando gritam, quando pretendem indicar ao poder uma organização mais integral, então deixam de ser tolerados, porque colocam em risco o sistema, se metendo no terreno das grandes decisões, que alguns pretendem monopolizar mantendo-as nas mãos de pequenas castas”.

Assim - diz o Papa - “a democracia atrofia-se, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai-se desencarnando porque deixa fora o povo (reparem: deixa fora o povo!) na sua luta diária pela dignidade, na construção do seu destino”.

Francisco lembra aos participantes do 3º EMMP: “Vocês, organizações dos excluídos e tantas organizações de outros setores da sociedade, são chamados a revitalizar e a refundar as democracias (reparem mais uma vez: revitalizar e refundar as democracias!), que atravessam uma verdadeira crise. Não caiam na tentação do sistema que os reduz a agentes secundários ou, pior, a meros administradores da miséria existente. Nestes tempos de paralisia, desorientação e propostas destruidoras, a participação como protagonistas dos povos que procuram o bem comum pode vencer, com a ajuda de Deus, os falsos profetas que exploram o medo e o desespero, que vendem fórmulas mágicas de ódio e crueldade, ou de um bem-estar egoísta e uma segurança ilusória”.

Continua o Papa: “Sabemos que ‘enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais’ (Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho, 202). Por isso, disse e repito-o, ‘o futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas mãos de vocês que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança’ (Discurso no 2º EMMP, Santa Cruz de la Sierra, 9 de julho de 2015). Também a Igreja pode e deve, sem pretender ter o monopólio da verdade, pronunciar-se e agir, especialmente face a ‘situações nas quais se tocam as chagas e os sofrimentos dramáticos e nas quais estão envolvidos os valores, a ética, as ciências sociais e a fé’ (Intervenção no Encontro de juízes e magistrados contra o tráfico de pessoas e o crime organizado, Vaticano, 3 de junho de 2016)”.

Vejam novamente a confiança que o Papa deposita nos Movimentos Populares e a maneira humilde e fraterna - sem a arrogância e o dogmatismo de quem se considera dono absoluto da verdade - com que ele fala da missão da Igreja hoje! Meditemos!

Confira os demais artigos da série:

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