Cardeais: quem pode atirar a primeira pedra?

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17 Janeiro 2017

Francisco perguntou, então, aos cardeais: ‘A quem de vocês nunca foi usada misericórdia?’. Os quatro não responderam e foram embora.”

O relato fictício é de Marco Rondoni, publicado na revista Jesus, de janeiro de 2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Um dia, o Papa Francisco se dirigiu à Basílica de Santa Maria Maior. Ao longo do caminho, ele se encontrou com um grupo paroquial que ia para o refeitório da Cáritas para prestar serviço e começou a ensinar. 

Chegaram, então, quatro cardeais e colocaram no meio deles um catálogo de retratos fotográficos. Um dos cardeais disse: “Estes homens e estas mulheres vivem em situação de pecado grave manifesto. Violam a cada dia o sagrado vínculo do matrimônio, convivendo com outros homens e outras mulheres more uxorio, muitas vezes depois de terem gerado filhos e filhas a partir dessas uniões ilegítimas.”

“O que significa more uxorio?”, perguntou em voz baixa um dos mais jovens do grupo paroquial. “Como se fossem marido e mulher”, respondeu o padre que os acompanhava.

O cardeal continuou: “De acordo com a nossa lei, estes homens e estas mulheres não podem ser readmitidos à comunhão eucarística, a menos que abandonem a sua nova união ou que a vivam sem os atos próprios dos cônjuges. Tu, Santo Padre, o que dizes a respeito?”.

“Quais são esses atos próprios?”, perguntou o menino, ainda em voz baixa, ao padre. “Boa pergunta”, sorriu este amargamente, “temo que ele se refira às relações sexuais”. Ele queria acrescentar que reduzir o próprio do matrimônio à atividade sexual gritava por vingança, mas outro cardeal tinha tomado a palavra.

“Tu não respondes, Santo Padre? Então, esclarece esta dúvida: grandes mestres ensinam que, na nossa lei fundada sobre a Escritura e sobre a tradição, está escrito que os atos intrinsecamente maus devem ser proibidos sempre, sem exceção. Ao contrário, parece que alguns defendem que, diante desses violadores do sacramento, não é preciso confiar apenas nas normas gerais, porque elas não abrangem todas as situações particulares. Isso não significaria entrar em contradição e negar a verdade que regula a tua e a nossa vida?”

Diziam isso para pô-lo à prova e para ter um motivo para acusá-lo.

Francisco se calava. No entanto, como insistiam em interrogá-lo, o papa extraiu um leitor de áudio da maleta de couro preto e deu “play”. Ressoaram juntas as vozes dos 335 participantes da XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos: “Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas” (Amoris laetitia, n. 305). “É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir de uma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isso não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta de um ser humano” (AL 304). “A compreensão pelas situações excepcionais não implica jamais esconder a luz do ideal mais pleno, nem propor menos do que Jesus oferece ao ser humano” (AL 307). “Da nossa consciência do peso das circunstâncias atenuantes – psicológicas, históricas e mesmo biológicas – conclui-se que, ‘sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia’, dando lugar à ‘misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível’” (AL 308).

O Papa Francisco apertou o “stop”. Perguntou, então, aos cardeais: “A quem de vocês nunca foi usada misericórdia?”. Os quatro não responderam e foram embora. O grupo paroquial também foi embora.

O menino perguntou ao padre: “Esses cardeais não estavam presentes no Sínodo?”. “Certamente”, respondeu o padre. “Por que então...?”. “Porque, primeiro, deveriam responder à pergunta: a quem de vocês nunca foi usada misericórdia?”.

O menino queria perguntar ainda, mas tinham chegado ao refeitório da Cáritas, e havia algo mais importante a fazer.

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