Crise, risco e aceleração social na era da Finança Digitalizada

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30 Novembro 2016

"A Finança Digitalizada mapeia, monitora, toma decisões e negocia ativos, compra e vende papéis, em altíssima velocidade, sem intervenção humana, na escala dos milissegundos (em alguns casos, aproximadamente 30 ou 40 vezes mais rápido do que uma piscada de olho humano)", escreve Edemilson Paraná, doutorando em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), autor de A Finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016) em artigo publicado por Brasil Debate, 29-11-2016.

Eis o artigo.

Dentre as inúmeras e já amplamente conhecidas consequências da mundialização financeira, ativada pelo processo de liberalização, desregulamentação e integração dos mercados de capitais em todo o mundo, a acelerada financeirização das economias nas últimas décadas figura certamente como um de seus mais importantes e preocupantes desdobramentos.

Diretamente vinculada à ampliação sem precedentes dos espaços da vida social e política concedidos aos desígnios do mercado sob o neoliberalismo, a chamada financeirização pode ser entendida como um processo de reordenação da lógica geral da acumulação em prol da valorização financeira, que, dessa forma, passa a submeter o processo produtivo como um todo aos seus objetivos, temporalidades e modos de funcionamento.

Entre outros efeitos, este processo tem levado ao aumento das desigualdades sociais, a erosão da ação social do Estado, ao surgimento e aprofundamento de recessões, e ao crescente poder de grandes operadores financeiros em definir os rumos políticos em nossas sociedades – algo de amplo conhecimento.Uma decorrência menos conhecida e debatida, no entanto, começa, aos poucos, a emergir. No bojo da reestruturação produtiva, aberta pela revolução técnico-informacional, das inovações técnicas e regimes de gestão flexível da produção e da administração disciplinar do trabalho, apoiadas no substrato material das hodiernas tecnologias da informação e comunicação (TICs), uma nova forma de gerir os circuitos globais de capital vem se materializando nas últimas quatro décadas; aquilo que passamos a chamar de Finança Digitalizada.

Produto, entre outros processos, da penetração das TICs nos mercados financeiros em todo mundo (tecnologias cognitivas, que aceleram a compressão dos fluxos espaço-tempo), a Finança Digitalizada pode ser definida como o complexo técnico-operacional e institucional de gestão global da circulação, acumulação e valorização do capital financeiro por meio de recursos tecnológicos automatizados de ponta, que aceleram movimentos em todos os níveis, de modo a ampliar as margens existentes para a exploração de ganhos financeiros com a especulação e arbitragem de papéis, moedas e outros ativos.

Sob este novo “complexo”, computação de alta performance, infraestrutura de baixa latência, hardwares e softwares de alta precisão programados pelos melhores cérebros da informática avançada combinam-se para realizar o impensável: mapear, monitorar, tomar decisões e negociar ativos, comprar e vender papéis, em altíssima velocidade, sem intervenção humana, na escala dos milissegundos (em alguns casos, aproximadamente 30 ou 40 vezes mais rápido do que uma piscada de olho humano).

Esses algoritmos e mecanismos de negociação automatizada, também conhecidos como “robôs investidores”, já são responsáveis por mais de 40% de tudo que é comprado e vendido diariamente na bolsa de valores brasileira. Nos mercados estadunidenses, onde investimentos bilionários em redes de fibra ótica e transmissão via micro-ondas de rádio são realizados para economizar de 2 a 3 milissegundos, esse percentual já bate a marca dos 70%.

Uma investigação detida a respeito dos ditames da nova Finança Digitalizada nos mostrou que o acelerado desenvolvimento tecnológico dos últimos anos tem feito aprofundar e fortalecer a mencionada financeirização da economia mundial.

Ao ativar a aceleração típica dos processos de expansão do capital, bem como, em um quadro de ampla desregulamentação dos mercados, a ampliação do desconto do futuro no presente sem a garantia de que este seja realizado como tal, o desenvolvimento dessas tecnologias tem contribuído para ampliar a autonomização relativa das finanças em relação à produção, e dos circuitos de expansão do capital fictício, concorrendo para subordinar ainda mais a acumulação produtiva à acumulação financeira.

É certo que tal dinâmica não passa a existir apenas por conta do desenvolvimento das TICs, mas, ao mesmo tempo, não poderia, nesse quadro, ser administrado como tal sem o apoio destas. Sem o auxílio de tais mecanismos, inúmeros ativos e instrumentos financeiros simplesmente não existiriam ou não poderiam ser negociados como tais nos mercados contemporâneos.

Desse modo, a função usualmente conferida aos mercados financeiros como alocadores de necessidades econômicas, tomadores e emprestadores de recursos para viabilizar negócios e a produção econômica real­ (aquela que gera consumo, renda e emprego), perde cada vez mais relevância em detrimento de uma dinâmica crescentemente especulativa, que drena e concentra os excedentes da produção social na esfera financeira. Excedentes estes que passam a ser novamente explorados por meio de arbitragem na escala de milissegundos, viabilizada por avanços tecnológicos de ponta.

A Finança Digitalizada inaugura, ademais, todo um conjunto de novos acontecimentos, riscos e problemas vinculados a esta nova lógica de funcionamento. A partir dos dados levantados em pesquisa que serviu de base a este trabalho, podemos observar que a “eletronificação” e automatização crescente do mercado de capitais brasileiro nos últimos anos, por exemplo, é nitidamente acompanhada por aceleração de processos, aumento substancial no número e velocidade de negócios realizados, concentração em diferentes níveis (investidores, empresas listadas em bolsa, corretores), aumento da proeminência de investidores e corretores estrangeiros, e diminuição da participação de pequenos investidores no mercado.

Em nível internacional, nas praças financeiras centrais, observa-se de modo igualmente claro a ampliação das dificuldades para a regulação e regulamentação dos mercados, acompanhada da ocorrência de fraudes, desequilíbrios, eventos disruptivos (como os chamados “flash crashes”), e, assim, a elevação do risco sistêmico nos mercados. Junto disso, a intensificação da concentração de capitais e do poder social retido nas mãos dos senhores das finanças – o que termina por redundar em mais desigualdades econômicas, políticas e sociais.

Tudo somado, e a despeito dos distintos discursos celebratórios, de parte a parte, em torno dos aspectos luminosos da nova sociedade em rede, da informação e do conhecimento, bem como do potencial emancipatório e libertador das novas ferramentas de comunicação, as evidências recentes a respeito da Finança Digitalizada nos revelam uma faceta menos discutida, e certamente menos aprazível, desta realidade: a de que a aplicação das modernas tecnologias da informação e comunicação tem apoiado o surgimento de novas formas de espoliação econômica.

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