Biógrafo britânico diz que Lula foi conivente com 'sistema corrupto', mas vê investigação politizada

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16 Setembro 2016

Autor de Lula of Brazil, biografia de Luiz Inácio Lula da Silva lançada em 2008 e que critica o legado de seu governo - pedindo em especial uma postura mais forte contra a corrupção na política brasileira -, o acadêmico britânico Richard Bourne saiu em defesa do ex-presidente ao comentar a denúncia oferecida na quarta-feira pelo Ministério Público Federal do Paraná.

Para Bourne, a maneira como as acusações foram apresentadas endossa a percepção que um processo politizado, apesar de seus elogios à operação Lava Jato. "As investigações devem ser elogiadas por revelar práticas corruptas de empresas, intermediários e políticos de vários partidos, e uma das críticas que tenho a Lula é que ele nunca se posicionou em algum tipo de cruzada contra a corrupção", diz o britânico em entrevista à BBC Brasil, 15-09-2016..

"Mas quando o MP faz acusações graves contra Lula sem apresentar provas contundentes, ele endossa o argumento dos defensores de Lula de que há aspectos políticos na investigação ou mesmo uma campanha para desacreditá-lo."

Na quarta-feira, Lula foi denunciado pelo MPF por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em relação ao caso do tríplex no Guarujá, acusado de ser o "comandante máximo" de uma "propinocracia". Em pronunciamento nesta quinta, Lula disse que o MPF construiu "uma mentira, um enredo de novela". "Provem uma corrupção minha que irei a pé até Curitiba. (...) "Não compreendi como você convoca uma coletiva, gastando dinheiro público, para dizer 'não tenho prova, tenho convicção'."

O acadêmico diz que a atuação do Judiciário reforça sua percepção de que as forças mais à direita da política brasileira estão "com muito medo" da possibilidade de Lula ser uma presença forte nas eleições presidenciais de 2018. "Mesmo que não se candidate, Lula pode exercer forte influência, e o risco de acusações sem muitas provas é de que o ex-presidente e o Partido dos Trabalhadores possam tirar vantagem para se dizerem vítimas de perseguição política. E, pelo menos no momento, eles têm razão para reclamar. Não foram políticos do PT, por exemplo, que manifestaram desejo de encerrar os trabalhos da Lava Jato", explicou Bourne, referindo-se às gravações divulgadas em maio que mostravam políticos do PMDB, incluindo o ex-ministro do governo Temer Romero Jucá, reclamando das investigações sobre corrupção na Petrobras.

Porém, Bourne também vê responsabilidade de Lula na situação por causa da falta de um posicionamento mais incisivo contra o que chama de "sistema político corrupto" e pelas alianças políticas feitas para alavancar o projeto de poder do PT.

"Ele não hesitou em se comprometer com o sistema para se manter no governo. Devemos lembrar que sua administração ficou marcada pelo escândalo do mensalão. Se há suspeitas, elas devem ser investigadas, mas você precisa de provas para sustentar essas acusações e não afetar a credibilidade da operação".

O britânico se disse surpreso com o momento vivido pelo homem sobre o qual escreveu. "Jamais esperei que um dia fosse ver a possibilidade de Lula ser preso. Escrevi meu livro na época de sua reeleição (2006), em uma época que a imagem pública de Lula era certamente bem diferente de hoje", conta.

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