Terremoto na Itália desperta onda de solidariedade; refugiados doam vales

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26 Agosto 2016

Um dia depois de um forte terremoto devastar a região central da Itália, centenas de doações e voluntários estão chegando às cidades afetadas.
As manifestações de solidariedade partem dos quatro cantos do país, incluindo de um grupo de refugiados que resolveu doar seu próprio vale-diário ou voucher para as vítimas da tragédia.

A reportagem é de Carolina Montenegro, publicada por BBC Brasil, 25-08-2016.

"A soma não será alta. É um ato simbólico, mas muito importante porque são justamente os refugiados que com isso mostram que somos todos iguais, independente da cor ou da nacionalidade", disse à BBC Brasil por telefone Giovanni Maiolo, coordenador do centro de acolhida SPRAR de Gioiosa Ionica, no sul da Itália.

O estabelecimento abriga 75 refugiados e solicitantes de refúgio no momento. Por dia, eles recebem uma espécie de "ticket" (no valor de 2 euros) para compras pequenas, como alimentos, roupas ou itens de higiene.

Cada cidade acolhendo refugiados na Itália recebe, do governo em Roma, 35 euros por dia para cada requerente de asilo. A quantia serve para cobrir as despesas desde alojamento e alimentação até tratamento médico e aulas de italiano. Mas também é previsto algum trocado por dia como dinheiro de bolso para promover autonomia.

Alguns dos refugiados chegaram ao centro há poucos dias, outros estão no local há quase um ano enquanto esperam resposta da Justiça sobre seu pedido de refúgio.

"Um grupo estava assistindo as notícias do terremoto na TV e eles começaram a se perguntar o que podiam fazer para ajudar. As imagens trouxeram para alguns lembranças de seus próprios países, da guerra, dos desastres", contou Maioli.

Segundo ele, entre esses refugiados estão pessoas vindas do Afeganistão, Mali, Nigéria, Somália e Gana, entre outros países atingidos por conflitos armados e extrema pobreza.

Porta de entrada da Europa, a Itália tem recebido milhares de refugiados nos últimos anos, que arriscam suas vidas e cruzam o mar Mediterrâneo em barcos lotados a partir da Líbia. Apenas de janeiro a junho deste ano, cerca de 28 mil migrantes desembarcaram no país, segundo a Organização Internacional para a Migração (OIM). Mais de 3 mil teriam morrido no mesmo período tentando a travessia.

"Agora estamos recolhendo o dinheiro e vamos decidir como enviá-lo, se por meio da Cruz Vermelha ou de outra associação ajudando na região", afirmou Maioli.
Moradores de Amatrice, uma das cidades mais afetadas pelo tremor de quarta-feira, também relataram em redes sociais que refugiados abrigados na região estariam ajudando desde a noite nos resgates. Outros 20 solicitantes de refúgio de um centro em Monteprandone partiram para trabalhar como voluntários em Amandola, uma cidade a 55 km, atingida também pelo terremoto.

Telefonemas e doações

Mais de 420 voluntários e funcionários da Cruz Vermelha já foram deslocados para as operações de resgate na região, que são coordenadas pela Proteção Civil italiana.

Cerca de 100 veículos, entre ambulâncias e tratores, foram mobilizados e tendas estão sendo erguidas para abrigar centenas de sobriventes, que ficaram sem teto depois que cidades inteiras foram destruídas.

Segundo o comitê regional de Abruzzo da Cruz Vermelha, localizado em Aquila, próximo a região atingida pelo terremoto, aumentam a cada hora os telefonemas de pessoas perguntando como fazer doações ou ajudar as vítimas.

Em seu site, a Cruz Vermelha Italiana já disponibilizou um número de conta bancária e orientações para doações de alimentos e roupas (http://www.cri.it/terremoto-centro-italia).

Na imprensa local, a onda de solidariedade após o terremoto está sendo considerada "a maior riqueza" da Itália -- país que enfrenta grandes desafios políticos e econômicos, além da crise dos refugiados.

"Na cena agonizante de escombros e medo, voluntários, policiais, bombeiros, jovens da proteção civil, cidadãos comuns que com pás ou com as mãos nuas, sem pausa, com os olhos e a boca cobertos de pó, escavam e lutam pela vida são a encarnação da melhor parte da Itália", afirmou o escritor Roberto Saviano em coluna publicada hoje pelo jornal "Repubblica".

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