Ateus famintos de espírito: a fé dos millennials. Artigo de Marco Rizzi

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19 Julho 2016

"Ateísmo e fé se revelam como os dois lados de uma mesma moeda, a própria condição em que a pessoa se encontra lançada, jovem ou não, no crepúsculo de uma modernidade em que, para citar Marshall Berman, tudo o que é sólido se desmancha no ar, e cada um permanece sozinho com as suas perguntas."

A opinião é de Marco Rizzi, professor de literatura cristã antiga da Università Cattolica del Sacro Cuore, de Milão, em artigo publicado no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 17-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A condição religiosa da Itália está conhecendo uma profunda e veloz mutação, que subverte as usuais antinomias entre fé e incredulidade, religião e ateísmo, materialismo e espiritualidade, e parece dirigir o nosso país na direção de um alinhamento com o restante das sociedades europeias secularizadas.

Por um lado, assiste-se ao colapso da prática religiosa e à drástica queda de indicadores significativos, como o número de casamentos celebrados na Igreja em comparação com o rito civil. Por outro lado, porém, emergem novas formas de se relacionar com o sagrado e com o religioso, que se complementam ou prescindem do panorama das religiões tradicionais e se traduzem naquela que pesquisa sociológica definiu como "espiritualidade contemporânea", uma "nebulosa cultural" que inclui práticas de meditação de matriz oriental, novos movimentos esotéricos ou New Age, ocultismo e muito mais.

Tudo isso sobre um pano de fundo que continua sendo o de um país de tradição cristã, e católica especialmente, onde a presença da Igreja é percebida e perceptível, mas sujeita a um julgamento ambivalente.

Como é fácil de intuir, a direção e as dimensões dessa mudança são perceptíveis especialmente na geração dos chamados millennials, jovens com idade entre a maioridade e os 30 anos, objeto de uma investigação conduzida por uma equipe dirigida por Franco Garelli e publicada pela editora Il Mulino, com o título Piccoli atei crescono [Pequenos ateus crescem].

As pesquisas anteriores já concordavam em assinalar que os nascidos nos anos 1980 eram os primeiros italianos entre os quais era possível detectar um elevado nível de desinteresse em relação à religião. Mas agora o fenômeno está assumindo dimensões que pareciam impensáveis até há alguns anos.

Aqueles que se declaram explicitamente ateus ou agnósticos e aqueles que, ao contrário, são totalmente indiferentes ao tema da existência de Deus ou de outras formas do divino assumem um pouco menos de um terço do total (28%), enquanto eram pouco mais de um quinto (23%) há apenas uma década.

Para dar uma ideia do crescimento do fenômeno, nas duas últimas décadas do século passado, as pesquisas estimavam o número de "ateus" em não mais do que 10-15% da população jovem. Em todo o caso, o dado ainda é significativamente inferior ao das nações centro e norte-europeias, onde oscila entre 50 e 65%, e da Espanha (37%), enquanto na Europa só os jovens portugueses apresentam um percentual de ateus e agnósticos inferior ao italiano (20%). Os Estados Unidos representam um caso à parte, com um índice em alguns pontos inferior a 20%.

No entanto, esse impetuoso crescimento não parece se colocar dentro de um rígido esquematismo que opõe os crentes aos não crentes, os ateus aos fiéis. Ao contrário, emerge a partir da pesquisa como as opções possíveis são consideradas não só legítimas, mas também sensatas, tanto por aqueles que acreditam, quanto por aqueles que não o fazem, com base, substancialmente, em duas razões.

Acima de tudo, a percepção de que a condição existencial inevitavelmente leva as pessoas a se fazerem interrogações às quais a religião pode fornecer uma resposta, mesmo que não seja a única legitimada a fazer isso.

Em segundo lugar, o reconhecimento de que as escolhas religiosas fazem parte do conjunto de opções que são inquestionáveis, como expressão da liberdade individual. É notável que, da pesquisa, emerge que os jovens não argumentam sobre isso em termos jurídicos, de direitos da pessoa, mas como libertação de qualquer obrigação de conformismo social e, ao mesmo tempo, como possibilidade de dar uma resposta às perguntas que nascem da vivência profunda de cada um e, por isso, não podem ser plenamente percebidas ou compreendidas pelos outros.

Em suma, ao menos para a geração dos millennials, não é mais uma questão de um conflito entre ateísmo e crença, mas, mais simplesmente, da autenticidade de um sentimento religioso – ou não – que responda às exigências íntimas das pessoas e seja fruto da livre expressão.

Além disso, como afirma um jovem "ateu" entrevistado pelos pesquisadores, "desde quando o homem existe, também existe a religião, e eu não acho que esta tenha se tornado obsoleta nos últimos anos. Assim como a ciência e a tecnologia evoluem, eu também acho que evoluem a religião e o modo de interpretá-la".

A partir desse ponto de vista, o sentimento dos jovens italianos parece curiosamente alinhado com os resultados da parábola intelectual do ateísmo moderno, ao menos de acordo com a reconstrução que Ilario Bertoletti oferece no livro Idealtipi dell’ateismo [Tipos ideais do ateísmo] (ETS). Para o ateísmo clássico, Deus não existe, porque está em contradição com as características da realidade que experimentamos de fato. No máximo, ele é o produto de uma alienação ou de uma prospecção antropomórfica, como queriam Marx e Feuerbach, de uma ilusão psíquica para Freud, de uma afirmação sem sentido por não ser verificável empiricamente, de acordo com a visão positivista e científica.

Trata-se de uma posição que tem raízes distantes, que remontam para além do ateísmo dos libertinos dos séculos XVII-XVIII até ao menos Lucrécio, e que tendemos a identificar com a própria ideia de ateísmo. Em certa medida, porém, afirmar que Deus não existe não implica negar que Deus possa existir: essa é a tarefa radical que é assumida, com Nietzsche, pelo ateísmo genealógico.

O louco da Gaia Ciência anuncia a morte de Deus, morto pela humanidade, que toma consciência da impossibilidade histórica de pensá-Lo: se antigamente buscava-se demonstrar que Deus não existe, agora se mostra como foi possível acreditar na Sua existência, e como tudo isso teve uma história, um declínio e um fim.

O que resta é o nada eterno, o niilismo. No entanto, permanece sem resposta a pergunta que Kant, à beira do "abismo da razão humana", colocava nos lábios do Ser eterno: "De onde eu surgi?". A interrogação sobre o fundamento se transforma em pergunta sobre a origem e o início.

Nessa perspectiva, uma terceira forma de ateísmo, o transcendental, indaga as condições de possibilidade de todo ser e, portanto, também do ser por excelência, Deus. Ao contrário do passado, Deus agora é possível, mas não necessário. Assim, o Deus possível pode assumir o rosto do Deus bíblico ou as feições dos deuses pagãos, pode-se dizer que Deus não existe ou que morreu; nenhuma dessas afirmações, porém, tem o caráter da necessidade.

Ateísmo e fé se revelam como os dois lados de uma mesma moeda, a própria condição em que a pessoa se encontra lançada, jovem ou não, no crepúsculo de uma modernidade em que, para citar Marshall Berman, tudo o que é sólido se desmancha no ar, e cada um permanece sozinho com as suas perguntas.

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