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13 Maio 2016

Os movimentos sociais ativados pela batalha em torno do impeachment da presidente Dilma Rousseff alimentam as esperanças da reconstituição do sistema político do Brasil, convertido em terra arrasada pelos escândalos de corrupção.

A reportagem é de Mario Osava, publicada por Envolverde/IPS, 11-05-2016.

“O momento é da sociedade civil”, resumiu à IPS o cientista político Breno Bringel, que pesquisa o tema como professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e confia na juventude das periferias como força renovadora.

Dilma Rousseff, acusada de fraudes fiscais em um processo parlamentar no qual 71,5% dos deputados federais já votaram contra ela, dificilmente escapará do julgamento político e da destituição. Também os principais líderes e partidos são acusados pela Procuradoria de terem recebido fundos da Petrobras e de outras grandes companhias. As maciças manifestações de rua, que se sucedem no Brasil desde 2013, deixaram clara uma forte rejeição aos políticos.

Os ativistas a favor da destituição da presidente vaiaram e expulsaram líderes opositores que tentavam se incorporar aos protestos. Os atos em defesa de Dilma não adotaram a atitude antipolítica, mas boa parte dos presentes destacaram, com seus cartazes onde se lia “pela democracia”, que não estavam ali em apoio ao governo, mas para rejeitar o processo de impeachment por considerá-lo antidemocrático e produto de uma ofensiva da direita.

“É o fim de um ciclo”, outro tipo de mobilização de rua deverá predominar depois que a presidente for afastada do carco, provavelmente hoje, e assuma um governo encabeçado pelo vice-presidente, Michel Temer, previu Bringel. A presidente será afastada do poder para responder a um julgamento perante o Senado, em um processo que pode se prolongar por até 180 dias, com investigações, testemunhos e debates que culminarão em uma sentença final sobre sua destituição definitiva ou absolvição.

“Serão manifestações mais críticas, com participação mais diversificada, com mais pobres das periferias urbanas e trabalhadores que não estiveram representados na polarização (contra e a favor do impeachment), que não é falsa, mas simplificadora da realidade política”, indicou Bringel, acrescentando que o centro do novo ciclo serão as questões urbanas, como direito à cidade e melhores condições de saúde, educação e moradia, embora não se possa prever quais demandas mobilizarão mais os ativistas.

Suas referências dessa nova tendência são os protestos desatados em junho de 2013 por um grupo de jovens que tumultuaram as ruas de São Paulo e outras cidades para combater a alta no preço dos transportes coletivos locais. A agitação, que questionou a representatividade dos poderes constituídos, se espalhou pelo país, incorporou numerosos participantes e inúmeras demandas, incluído o boicote contra a Copa do Mundo de 2014, degenerou em confrontos com a polícia e se extinguiu naturalmente.

A onda atual de manifestações, iniciada em março de 2014, voltou ao formato tradicional de luta pelo poder, entre os que promovem a destituição de Dilma, boa parte sem querer sem confundida com os partidos de oposição, e aqueles que a defendem.“Agora a luta de classes se intensificou novamente e teremos desenlaces incontroláveis, com mais consciência social e energias positivas na sociedade”, afirmou João Pedro Stédile, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mobilizado para defender Dilma e combater o provável governo de Temer.

Os “golpistas”, como Stédile qualifica o vice-presidente e os opositores, “terão vida curta por não terem um programa para solucionar as crises econômica, política, social e ambiental, nem representam a maioria da sociedade brasileira”, opinou. O ativista acredita que o Brasil vive um momento de “ascensão do movimento social”, com centenas de atos políticos e manifestações com milhões de assinaturas este ano. Antes de 2013, viveu-se uma longa “baixa”, devido ao avanço do neoliberalismo, “a derrota ideológica do socialismo em nível internacional, o envelhecimento das organizações históricas de classe, como os movimentos sindicais e estudantis”, acrescentou.

A chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 2003, paradoxalmente, não aumentou a mobilização popular, que esteve na origem de seu Partido dos Trabalhadores (PT) e contribuiu para sua vitória eleitoral. “Foi a experiência de um governo de conciliação de classes, sem formação política dos movimentos e com os meios de comunicação sob hegemonia burguesa, tudo esfriando a luta”, pontuou Stédile à IPS.

Um foco de movimentos variados e o fortalecimento sindical foi registrado no processo de redemocratização brasileira, desde finais dos anos 1970, quando ainda se vivia a fase final da ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1985.O MST e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), principal organização sindical do país, nasceram na década de 1980, por exemplo. Mulheres, indígenas, ambientalistas e defensores de direitos humanos conseguiram incluir disposições progressistas na Constituição de 1988.

Lula conquistou o poder graças a uma aliança de sindicatos e o empresariado industrial, os grandes agricultores e parte intelectualizada da classe média, “em um claro compromisso de conciliação de interesses para gerar mais empregos e ampliar o mercado interno”, recordou à IPS Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Sua reeleição em 2006 se apoiou em bases distintas, “sua hegemonia eleitoral se deveu ao apoio dos pobres, graças aos programas sociais”, compensando com juros a perda das camadas médias, acrescentou Grzybowski. O mais amplo e estelar desses programas, o Bolsa Família, chegou a beneficiar 14 milhões de famílias em 2015, cerca de um quarto dos 204 milhões de habitantes do país.

Nessas condições, os governos do PT conduzidos por Lula e Dilma desde 2011 “desmobilizaram os movimentos sociais, em parte pela cooptação de seus dirigentes”, como aconteceu com o sindicalismo, segundo o diretor do Ibase, militante do PT na década de 1980. Mas agora, com a crise e o desemprego, o PT perdeu quase todo apoio na região Nordeste, a mais beneficiada pelo Bolsa Família, e entre os trabalhadores.

Grupos de jovens e novos movimentos estão surgindo “com muita imaginação, mas falta uma agenda unificadora, lemas de poucas palavras que todos entendam”, para mobilizá-los, ressaltou Grzybowski. Com os partidos nacionais, inclusive o PT, ameaçados de “implosão”, as iniciativas da sociedade civil “podem inspirar novas forças políticas, mas a tendência é que não floresçam, por falta de líderes”, lamentou.

Sua esperança é que “surja um fruto interessante do grande aumento da população universitária do país nas últimas décadas”, como resultado das cotas para pobres e negros, isto é, “com mais gente do povo”, que no longo prazo deverá resultar em criatividade social e política. “A história é uma surpresa permanente”, concluiu Grzybowski

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