O orgulho de ser da ‘República de Curitiba’, a fortaleza de Sérgio Moro

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Por: Cesar Sanson | 11 Abril 2016

Uma pesquisa divulgada neste final de semana revelou que o juiz Sérgio Moro perdeu um pouco da sua popularidade junto à opinião pública. Até pouco tempo atrás, Moro tinha 90% de apoio pela sua investigação sobre a corrupção na Petrobras. Depois de ações polêmicas, que atingiram o ex-presidente Lula, o juiz conta com 60% de aprovação. Essa queda, porém, certamente não é percebida em Curitiba, capital do Paraná, onde se encontra a força tarefa comandada pelo juiz e que vem desnudando um esquema de corrupção que tinha a Petrobras como eixo principal. É possível que nenhuma outra cidade do Brasil esteja vivendo e apoiando tão intensamente a operação Lava Jato quanto Curitiba, onde vivem 1,8 milhão de brasileiros.

A reportagem é de Felipe Betim e publicada por El País, 10-04-2016.

Ao menos é assim nos principais bairros de classe média da cidade. Prédios enfeitados com bandeiras do Brasil, carros com adesivos de apoio à investigação e ao juiz Sérgio Moro, manifestações e carreatas em verde e amarelo a cada dois dias, e panelaços durante o Jornal Nacional. Mas não só por isso. Nas últimas semanas, uma expressão invadiu o cotidiano dos curitibanos: “República de Curitiba”.

O termo aparece constantemente em conversas, é entoado em protestos, está escrito em cartazes e até em roupas. Tornou-se motivo de orgulho na capital paranaense desde que foi divulgada, no último dia 17, uma conversa telefônica do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nela, ele se referiu aos procuradores e juízes da Justiça Federal do Paraná, responsável pelas investigações da Operação Lava Jato, como “República de Curitiba”. “Foi um tiro na culatra. Ele queria humilhar os curitibanos, mas acabou unindo a gente”, opina a dona de casa Paula, de 50 anos, que desde o dia 18 de março está acampada diante do tribunal de onde o juiz Sérgio Moro despacha, na avenida Anita Garibaldi.

Já a educadora infantil Elizethe Sgramce Sousa, de 48 anos, explica que o curitibano sempre se julgou “diferenciado” do resto do país “por ter sido colonizado por alemães, italianos e poloneses”. “Então o curitibano ficou ainda mais orgulhoso”, conclui. A estampa da camiseta preta que Elizethe veste, e que se tornou a última moda na capital, resume o sentimento do curitibano: “República de Curitiba – Aqui se cumpre a lei”.

O ex-presidente Lula usou essa expressão não por acaso. Remete à “República do Galeão”, termo bastante utilizado no final do Governo de Getúlio Vargas, em agosto de 1954. Em meados daquele mês, após o chefe da guarda pessoal do presidente atirar e matar o major-aviador Rubens Vaz, foi aberto um inquérito sob responsabilidade da Aeronáutica, cuja investigação foi comandada da base aérea do aeroporto do Galeão (Rio de Janeiro). O caso, que ficou conhecido como Atentado da Rua Tonelero, e que na verdade visava ao líder opositor Carlos Lacerda, aumentou a pressão sobre o Governo Vargas, que acabou se suicidando no final de agosto.

Depois da quebra de sigilo dos grampos de Lula, milhares de curitibanos se reuniram no dia 18 em um ato diante da Justiça Federal do Paraná para expressar apoio a Moro, novo padroeiro da cidade, e à Lava Jato. Após a manifestação, algumas dezenas de pessoas montaram acampamento no gramado da praça que está em frente ao tribunal. Viraram uma espécie de guardiões da República de Curitiba e de Moro. “O Brasil acordou e queremos dar um basta na corrupção. Só queremos um país limpo. Como pode um juiz de primeira instância chamar assim a atenção do Brasil? Estamos aqui para mostrar que ele não está sozinho”, conta Marcus Silva, de 53 anos.

Este consultor comercial passa o dia no acampamento com outros companheiros. São trabalhadores, microempresários, donas de casa e aposentados que antes não se conheciam, mas que decidiram se juntar para, segundo eles, exercer sua cidadania e seus direitos. Apesar de se dividirem em “impeachmistas” e “intervencionistas”, eles têm em comum a defesa da saída da presidenta Dilma Rousseff e o apoio a Sérgio Moro. Além disso, se dizem “patriotas”, pessoas “do bem”, “anti-comunistas”, “apartidários” e defendem uma saída para a crise que esteja dentro da Constituição.

Também garantem que o movimento é contra todos os partidos. “Queremos tirar esse Congresso que está aí e eleger tudo de novo. Queremos novas eleições, para colocar gente nova, gente boa”, explica a dona de casa Rosa.

Após uma vaquinha, montaram uma grande tenda fechada, onde mantêm mantimentos, comida e água, e barracas abertas onde passam a maior parte do dia, em pequenos bancos e cadeiras de praia. Da beira da calçada, levantam faixas e bandeiras e chamam outras pessoas para protestar. “Estamos fazendo política como antigamente, quando se colocava o caixote na praça e se discursava”, opina Elizethe. Já o aposentado Sandro, de 55 anos, usa um ditado popular em Curitiba para explicar a importância da mobilização: “Nós curitibanos sempre fomos muito exigentes. Então, quando algo dá certo aqui, é exportado para todo o Brasil. Lançamos tendências”.

É um vaivém constante no acampamento, já que muitos dos que lá estão trabalham, têm de cuidar dos afazeres domésticos ou querem descansar em casa. Mas também há muitos curiosos que se aproximam seja para comprar uma camiseta com a foto de Moro ou da República de Curitiba — vendida a 30 reais para bancar os custos coletivos —, para pegar um adesivo e colar no carro, ou ainda para tirar uma foto com os manifestantes ou diante do Tribunal. “A Justiça Federal virou ponto turístico, todos querem saber onde ele trabalha”, explica Marcus Silva, que assopra sua corneta verde e amarela toda vez — e são muitas — que um carro passa buzinando para demonstrar apoio.

Mas quando perguntados o que esperam e desejam do Brasil, cada um confessa o que mais lhe aflige — mostrando a complexidade da polarização política nesses tempos de crise. “As pessoas estão preocupadas, perdendo emprego, as lojas estão fechando, empresas estão quebrando. Acho que elas veem na Lava Jato uma solução a médio prazo”, diz Marcus. Já Paula afirma querer “segurança, educação e saúde” para seus filhos. “Mas está tudo errado, a polícia não ganha o suficiente, o professor não ganha o suficiente... Não tenho partido. Só quero que as coisas mudem”.

Elizethe, apesar de tudo, está otimista: seu enteado passou para medicina em uma universidade privada e conseguiu a bolsa do ProUni, do Governo Federal, enquanto que sua filha passou para veterinária na Universidade Federal do Paraná. Agora que estão encaminhados para a vida adulta, ela e seu marido querem pensar mais neles mesmos: ele, que trabalha como garçom e já fez de tudo nessa vida — “somos da geração que ajudou a construir o Brasil” —, estuda engenharia civil; já ela compatibiliza o trabalho como educadora infantil com o cursinho, para tentar uma vaga na faculdade de direito. Sua preocupação, explica, é com os outros: “As pessoas estão morrendo no hospital por falta de cateter. Ainda vivemos no Brasil colonial. Por que temos um ministério do planejamento se não se planeja nada? Nos inspiramos no Moro porque ele está executando bem sua profissão. Só isso. Se esses meninos trabalham para isso, então o meu trabalho é apoiá-los”.

No final da tarde da última segunda-feira, muitos dos que estavam no acampamento se dirigiram para mais um ato a favor de Sérgio Moro e da Lava Jato. Dessa vez, diante da Federal do Paraná, onde o juiz dá aula e alunos e professores da universidade se reuniram para apoiá-lo. Marcus Silva mais uma vez resume o espírito da mobilização: “Todos os curitibanos estão orgulhosos de estar na República de Curitiba. O povo brasileiro não vai deixar ninguém mexer com o Moro. E a República de Curitiba muito menos”.

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