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Por: André | 27 Janeiro 2015

O Exército Eletrônico sírio, isto é, o braço armado digital do regime do presidente sírio Bashar al-Assad, atacou o Twitter do Le Monde. Os piratas já haviam penetrado no coração do jornal alguns dias antes.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicada no jornal argentino Página/12, 25-01-2015. A tradução é de André Langer.

O conflito entre o Ocidente e os grupos radicais islâmicos não se trava apenas no Iraque, na Síria, na Líbia ou nas capitais europeias alvos de atentados terríveis como aquele que sacudiu a França na primeira quinzena de janeiro com a operação contra o jornal satírico Charlie Hebdo. Os hackers do Ocidente e seus pares islâmicos também travam lutas no mundo virtual em uma batalha cuja última vítima foi o vespertino francês Le Monde. As Forças Armadas digitais há muito deixaram de ser uma invenção da ficção-científica, uma especulação dos estrategistas ou dos especialistas. A famosa guerra virtual mostrou, de um lado e de outro, a potência de seu alcance com a batalha que o atentado contra o Charlie Hebdo desencadeou num e noutro lado.

Em 21 de janeiro passado, o Exército Eletrônico sírio, ou seja, o braço armado digital do regime do presidente sírio Bashar al-Assad, atacou o Twitter do Le Monde. Os piratas já haviam penetrado no coração do jornal alguns dias antes, mas desta vez conseguiram alterar o conteúdo do Twitter do Le Monde, que tem mais de três milhões de seguidores. O Exército Eletrônico sírio postou na conta a foto de um rebanho de ovelhas com os dizeres “Eu sou Charlie” e um texto que diz: “A liberdade de expressão não é melhor que a liberdade religiosa”.

Este episódio é o último ato da ciberguerra sem tréguas que travam há quase três semanas os islamohackers e seus adversários do Ocidente. Desde o atentado contra o Charlie Hebdo, cerca de 20.000 sítios de internet franceses foram atacados: escolas, prefeituras, jornais, revistas, televisões, igrejas, catedrais, conselhos regionais ou empresas francesas como Carrefour, BNP Paribas ou Terraillon viram seus portais da internet retirados da rede pelos ciberpiratas islamistas, assaltados para mudar seu conteúdo ou alterar a direção da internet para que se abra, por exemplo, na página de um portal islamista. Centenas e centenas de páginas da internet apareceram com frases como “Só Alá é Deus”, “Death to France”, “Death to Charlie”.

O portal Zataz, especializado em informações sobre a rede, indica que as ciberofensivas são inéditas até hoje. O termo que melhor convém não é propriamente ataque, mas contra-ataque. Os hackers islamistas ou os muçulmanos ofuscados com o Charlie Hebdo respondem com as mesmas armas utilizadas pelo grupo de hackers Anonymous. Depois do atentado contra o jornal satírico francês e o sequestro de dezenas de pessoas em um supermercado judeu de Paris por um de seus cúmplices, o Anonymous ativou uma campanha de resposta aos atos terroristas na capital francesa. A campanha, chamada de Operação Charlie, atacou os Twitter dos islamistas, assim como determinados portais que difundem propaganda radical. O Anonymous emitiu uma mensagem de vídeo onde dizia: “A liberdade de expressão foi ferida. Charlie Hebdo, uma figura histórica do jornalismo satírico, foi o alvo de covardes. Atacar a liberdade de expressão é atacar o Anonymous. Não vamos permitir que isso aconteça. Todas as empresas e organizações ligadas aos ataques terroristas verão uma reação em massa. Vamos persegui-los”.

A promessa não demorou para se cumprir. Este grupo de hackers informais publicou uma lista de 120 contas de Twitter qualificadas como “islamistas”, depois outra segunda lista de 89 contas julgadas “terroristas”. A isso foram acrescentadas outras ações, como a elaboração de um documento colaborativo destinado a fazer o censo de todas as contas extremistas (mais de 1.200 até agora). O Anonymous também se dedicou a montar ciberataques contra portais de internet identificados como islamistas. Cerca de 60 já foram bloqueados ou simplesmente retirados da rede. O Anonymous bloqueou, por exemplo, o portal da Ansar-Alhaqq (sítio de propaganda jihadista em francês), o portal do Kavkaz Center, um sítio de informação sobre a Chechênia que se assume como islamista, ou o sítio do Shahamat, a voz da jihad.

A Operação Charlie, organizada pelo Anonymous, atraiu de imediato uma resposta massiva batizada de Operação França. Cerca de 30 grupos de hackers situados na Síria, Tunísia, Marrocos, Argélia, Mauritânia, Indonésia, Malásia, Paquistão ou México concentraram suas armas contra a França. Grupos como Fallaga Team, Middle East Cyber Army (MECA), o Ciber Califado, a ciberforça islâmica unida, os AnonGhos, ou Apoca-Dz entraram em muitos sítios sensíveis da França.

Géróme Billois, especialista do Centro Europeu de Segurança Informática, comenta que “estamos diante de grupos de ativistas que se fazem e desfazem rapidamente. Nunca vi uma quantidade semelhante de ataques”. Para o especialista, a enorme quantidade de sítios afetados explica-se porque “muitos dos que foram perturbados são estruturas que não contam realmente com equipes técnicas adequadas para manter um alto nível de segurança para reagir rapidamente aos ataques”.

Por exemplo, um portal de internet consagrado a uma chacina que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial na localidade de Oradour-sur-Glane viu sua página na internet alterada com mensagens que acusavam a França de “racismo” ou de ser um país “terrorista do mundo”. Um porta-voz do grupo Middle East Cyber Army entrevistado pelo sítio Zataz explicou que as ofensivas contra os sítios franceses tentavam “demonstrar ao mundo que o Islã não é sinônimo de terrorismo”.

De fato, nem todos esses hackers são islamistas radicais. Alguns confessam abertamente sua filiação ao Estado Islâmico, como no caso do Apoca-Dz; outros, ao contrário, mostram-se hostis às ações deste grupo extremista sunita, por exemplo, o AnonGhost. Este movimento de hackativistas muçulmanos não compartilha em nada a filosofia do Estado Islâmico; antes se pronuncia por um “Islã defensivo” e a favor da “convivência entre as religiões”. As ciber-reações do mundo muçulmano são uma combinação de movimentos islamistas radicais e outros afastados dessa tendência, mas ofendidos pelas caricaturas do Charlie Hebdo e a sua defesa na imprensa francesa.

A ciberguerra atingiu inclusive os Estados Unidos. Um grupo de hackers filiado ao Estado Islâmico (Iraque e Síria) conseguiu piratear as contas do Twitter e do YouTube do comando militar no Oriente Médio. “Estamos em seus PCs, em cada base norte-americana. Em nome de Deus, o mais misericordioso, o Ciber Califado prossegue sua ciberjihad”, escreveu o grupo no Twitter do comando norte-americano. O Ciber Califado se deu também ao luxo de tornar pública a lista dos generais do Exército norte-americano com seus nomes e endereços, assim como informações precisas sobre os planos norte-americanos na China ou na Coreia do Norte.

François Paget, especialista que trabalha para a empresa de programas antivírus McAfee, garante que “por enquanto trata-se mais de uma espécie de cibervandalismo do que de ataques sofisticados de alto nível. Ainda não estamos diante de grupos muito estruturados”. Embora seja considerado inofensivo, o caráter massivo da ofensiva surpreendeu os especialistas e esboçou, a partir da realidade, uma espécie de esquema inquietante para o futuro. O tenente Eric Freyssinet, membro da divisão de luta contra o cibercrime, admite que “é preciso preparar-se para todas as evoluções possíveis. Estas vão desde os ciberataques, como os que observamos contra os portais franceses, até ataques massivos financiados por grupos terroristas”.

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