Chineses são favoritos a levar linhão de Belo Monte

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23 Janeiro 2014

O consórcio formado pela chinesa State Grid e Eletrobras desponta como favorito na licitação da linha de transmissão de Belo Monte, que será leiloada no dia 7 de fevereiro na sede da BM&FBovespa, em São Paulo, pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Fontes consultadas pelo Valor avaliam que, dificilmente, os concorrentes conseguirão chegar a um lance inferior ao que será oferecido pela empresa de propósito específico que será constituída pelas duas gigantes estatais do setor elétrico - a chinesa e a brasileira.

A reportagem é de Rodrigo Polito e Claudia Facchini e publicada pelo jornal Valor, 23-01-2014.

A State Grid é maior empresa de transmissão de energia do mundo e a Eletrobras detém a maior malha do país, com cerca de 58 mil quilômetros, ou 52% das linhas transmissão que cortam o território brasileiro.

A Eletrobras e a State Grid assinaram no fim de 2013 um protocolo de intenções para formarem o consórcio que vai disputar o leilão da linha de transmissão da hidrelétrica de Belo Monte, em construção. A estatal brasileira informou que ainda estuda os detalhes finais da parceria e não decidiu quantas e quais empresas do grupo serão sócias dos chineses. Segundo a companhia, ainda não está decidido também qual será a participação de cada sócia no consórcio. Mas tudo indica que a Eletrobras deverá ter 49% e a chinesa, 51%.

A companhia chinesa está desde 2010 no Brasil, onde já investiu mais de R$ 7 bilhões. O grupo possui hoje um portfólio de mais de 6 mil quilômetros de linhas de transmissão em operação e mais de 1,6 mil quilômetros de linhas em construção no país, o que já a coloca entre as cinco maiores transmissoras no Brasil. Procurada, a State Grid informou que tem um acordo que a impede de se pronunciar sobre o leilão, mas confirmou seu interesse.

Na China, a State Grid opera uma rede de alta tensão de mais de 600 mil quilômetros - quase seis vezes o tamanho do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Além do consórcio State Grid- Eletrobras, apenas outro grupo confirmou até agora a participação no leilão do linhão de Belo Monte. O consórcio é formado pela Taesa, braço de transmissão da Cemig, e a Alupar. Há expectativas que a Copel também não fique de fora do leilão, já que a estatal paranaense participou de outras licitações de linhas de transmissão em 2013. Procurada, a Copel não quis se pronunciar, mas há rumores de que a empresa esteja negociando com possíveis parceiros.

Para consultores, não será uma surpresa se o consórcio State Grid- Eletrobras oferecer um deságio de até 50% sobre o teto estabelecido para a receita anual permitida (RAP), ou o valor fixo que a concessionária vai receber todos os anos durante os 30 anos de vigência do contrato de concessão, a partir do momento que o linhão entrar em operação. A RAP máxima foi fixada em R$ 701 milhões: R$ 370,6 milhões para o lote A e R$ 327,4 milhões para o lote B. O leilão só será válido se houver vencedores para os dois lotes.

O lote A é formado por duas estações conversoras e duas subestações, uma em Xingu, próxima à hidrelétrica, e outra no fim da linha de transmissão, em Estreito, em Minas Gerais. O lote B é formado pela própria linha de transmissão, que vai se estender por 2.092 quilômetros. Essa passará a ser a segunda maior linha do país, atrás apenas do "linhão do Madeira", que liga Porto Velho (RO) a Araraquara (SP), de 2,4 mil quilômetros.

O linhão de Belo Monte será ainda uma das primeiras linhas do mundo a transmitir a energia em ultra-alta tensão, de 800 quilovolts (Kv), em corrente contínua (cc). Só existem três linhas com essa tecnologia - duas na China e uma na Índia. A obra deve custar ao todo cerca de R$ 5,2 bilhões.

Para um analista do setor, os chineses poderão oferecer até R$ 500 milhões para as duas RAP. O fato de a Eletrobras fazer parte do consórcio só reforça o favoritismo da State Grid, indicando que eles têm o apoio do governo brasileiro. "Ter o governo brasileiro como sócio é fundamental em um projeto desse tamanho" diz uma fonte, para quem Furnas e Eletronorte serão provavelmente as subsidiárias que vão entrar do consórcio.

Analistas consideram que, no páreo pelo linhão, o consórcio Taesa-Alupar seria o "cavalo" com as menores chances de vencer, já que as duas empresas devem exigir taxas de retorno mais altas. Provavelmente, esse consórcio não poderá oferecer um lance tão agressivo como o da State Grid- Eletrobras.

Se confirmada, a vitória da State Grid vai marcar um novo ciclo no setor elétrico nesta década, de avanço dos grupos chineses. Na primeira fase de estabilização econômica, após a adoção do Plano Real, na década de 90, foram os grupos espanhóis que invadiram o mercado brasileiro, como a Abengoa, Elecnor, Isolux e Cobra. Ainda não está claro como as companhias europeias pretendem disputar o leilão, se como sócias nos consórcios ou como construtoras contratadas.

O principal interesse dessas empresas é construir as linhas de transmissão, que, depois de prontas, são vendidas para grupos estratégicos. Em 2010, o consórcio Plena, da qual faziam parte os quatro grupo espanhóis, venderam para a State Grid cerca de 3 mil quilômetros de linhas de transmissão no Brasil. A Taesa também já adquiriu linhas que foram feitas pelas empresas europeias.

Segundo o diretor-superintendente geral da Taesa, José Ragone Filho, a elevação da taxa de rentabilidade para o leilão da linha de Belo Monte de 4,6% para 6,63% é positiva. "Já era esperada uma melhoria nos termos e condições para os leilões de transmissão. Esse é um dos pontos que evoluíram", afirmou. Segundo ele, a Taesa está pronta para disputar o leilão em parceria com a Alupar. Cada uma das empresas terá 50% de participação no consórcio, que contratou a italiana Cesi para auxiliá-lo nos estudos técnicos.

Um dos trunfos da empresa italiana, que abriu um escritório no Brasil no ano passado, é ter na equipe o engenheiro Paulo Cesar Vaz Esmeraldo, experiente técnico do setor elétrico e que conduzia os estudos do sistema de transmissão de Belo Monte na Empresa de Pesquisa Energética (EPE), antes de se transferir para a empresa.

"Temos total domínio para apresentar uma proposta competitiva e que venha a trazer retorno para nossas empresas", disse Ragone Filho. O executivo, porém, avalia que ainda é necessário um aprimoramento das regras com relação à habilitação de concorrentes para o leilão. O objetivo, segundo ele, é limitar a competição a apenas empresas e consórcios que de fato tenham condições técnicas e financeiras para gerir a implantação e a exploração da concessão, considerando a relevância do projeto para o país.

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