Centenário de Paulo Freire: atualidade da sua última entrevista como horizonte para tempos extremos e incertos

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14 Setembro 2021

 

"Talvez, ao nos darmos conta dessa potencialidade freiriana, de ser mais, possamos abrir uma fresta de esperança na janela de nossas vidas, no sentido de podermos redefinir, redescrever, ressignificar e reaprender novos modos de compartilharmos a existência no planeta coletivamente", escreve Vilmar Alves Pereira, Filósofo, Educador Ambiental Popular, Doutor em Educação (UFRGS), Bolsista de Produtividade do CNPq, Universidad Internacional Iberoamericana – UNINI.

 

 

Eis o artigo. 

 

A felicidade por estar vivo, o sonho de um Brasil com marchas, a alegria e a satisfação com a marcha dos chamados sem-terra, a condição de morrer feliz, a necessidade da inserção e intervenção crítica no mundo. O ser humano como ser em evolução pelo inacabamento, a fé no cristo, meu camarada e a aproximação com Marx, são algumas das temáticas geradoras abordadas por Paulo Freire em 17 de abril de 1997 na sua última entrevista.

Ao me aproximar da data que celebra o centenário da existência do Patrono e maior educador do Brasil nascido em Recife, Pernambuco, no dia 19 de setembro de 1921, e reconhecendo o alcance de sua obra em muitos projetos de Educação Popular pelo mundo, realizei um movimento existencial ontológico no sentido de revisitar a sua última entrevista. Trata-se de um movimento ontológico por vivenciarmos tempos extremos não apenas pelo triste contexto criado pela Pandemia da Covid-19, mas pelos novos endereçamentos que indicam caminhos na contramão de muitas coisas das quais Freire nos aponta como horizontes. Estou fazendo menção aqui às perspectivas antidemocráticas, de encolhimento de direitos, de negação da vida, de descuido com os povos de florestas e com os animais, as práticas de mineração que perseveram a todo custo, a extrema pobreza virou protagonista das unidades familiares, o aumento significativo dos povos migratórios (por motivos de guerras mundiais, fome, desemprego, etc.), o racismo cada vez mais explícito e brutal para com pessoas negras, o aumento de violência contra mulheres, os ataques constantes à população LGBTTQI+, a poluição das águas, a fragilização da agricultura familiar e demais expressões da questão socioambiental, visto que diante a exposição acima, é percebível que a covid-19 é apenas mais uma das patologias desta crise socioecológica. Em geral como considera Freire esse é o horizonte dos antagônicos que em seu modo de ser opressor orientam-se por perspectivas necrófilas.

A referida entrevista se dá num contexto de grande maturidade e compreensão de Freire em um Brasil de 1997. Freire a abre manifestando a sua alegria por estar vivo, a sua gratidão a Deus pela Marcha dos sem-terra. Ainda faz um apelo: “eu morreria feliz se eu visse o Brasil, cheio em seu tempo histórico de marchas”. Discorrendo sobre as marchas enuncia algumas como “marcha dos sem escola, dos reprovados, dos que querem amar e não podem, dos que se recusam a uma obediência servil, dos que se rebelam, dos que querem ser e estão proibidos de ser.” Há nas suas palavras uma crença e um clamor pela dinâmica e potencialidade das marchas. Volto a 2021 e me questiono: quais são as marchas que temos no Brasil hoje? Ao mesmo tempo percebo o quanto a reivindicação freiriana ainda é atual.

Prossegue a sua entrevista trazendo uma outra temática geradora muito atual. Trata-se da conceituação de adaptação-inserção. Freire reconhece que os seres humanos possuem grande capacidade de adaptar-se. Facilmente se adaptam a condições adversas, clima, relevo, cultura, sistemas dentre tantas coisas. Em sua compreensão, esse momento da adaptação é apenas um primeiro momento da inserção. Em linhas gerais Freire nos adverte que não basta sermos seres de adaptação apenas. É preciso sermos seres de inserção e de intervenção crítica no mundo onde estamos. Desse modo, critica muito nessa parte aqueles que assumem posturas fatalistas, que aceitam a adaptação como condição para justificar a pobreza, a fome, as injustiças e a desigualdade social. E afirmando sua recusa a qualquer posição fatalista nos afirma que: “a razão de minha presença no mundo é de como educador da assunção crítica da possibilidade, para que se vá além da passividade”. E cita nesse momento os movimentos de inserção crítica de luta por justiça social agrária que buscam a superação da posição de adaptação. Apenas para ilustrar o contexto atual, basta lembrarmos do movimento em torno do marco temporal que recentemente reuniu em Brasília mais de 6 mil indígenas e mais de 170 povos na luta pelo direito as suas terras no Brasil. A questão trazida por Freire continua em aberto: somos seres de mera adaptação, ao sistema, às políticas neoliberais, à lógica dos opressores, ou podemos sair da passividade e nos assumirmos como seres de intervenção crítica no mundo?

Nessa perspectiva de abertura e de assunção interventiva no mundo Freire traz um outro ponto em sua última entrevista que pode sim contribuir com nossa situação atual nesse quadro pandêmico. Ele considera o ser humano como um ser em evolução. Na sua compreensão essa evolução está associada à nossa condição de inacabamento. Essa condição ontológica é a que nos move na “busca de ser mais”. Ou seja, à medida que me reconheço como ser inacabado me projeto individualmente e depois coletivamente, na direção de inéditos viáveis, não por que alguém me ordena, mas pelo reconhecimento de que essa dimensão faz parte dos movimentos que realizo e posso realizar no mundo onde estou inserido. Essa evolução é a que me lança para além dos determinismos. Acredito ser o reconhecimento dessa condição ontológica muito necessário em tempos pandêmicos e incertos. Talvez, ao nos darmos conta dessa potencialidade freiriana, de ser mais, possamos abrir uma fresta de esperança na janela de nossas vidas, no sentido de podermos redefinir, redescrever, ressignificar e reaprender novos modos de compartilharmos a existência no planeta coletivamente. Este é aliás um dos convites de Francisco em Fratelli Tutti.

A última temática da entrevista trata-se da fé em Paulo Freire. E ali temos sábias palavras de uma pessoa muito bem resolvida nesse aspecto que não fica nos embates e nas querelas sobre o assunto, mas se assume de forma muito serena. Vejamos em suas palavras: “eu nunca precisei brigar muito comigo mesmo para me compreender na fé” (...) “Eu estou na minha fé”. Para explicar isso nos conta que quando muito jovem foi aos mangues, morros, zonas rurais e periferias de Recife conversar com camponeses e favelados movido por um sentimento e necessidade de lealdade ao cristo a quem ele considerava mais ou menos um camarada. E ali sentindo a dura realidade dessas pessoas em situação de vulnerabilidade social extrema sentiu a necessidade de se remeter a Marx. Freire explica que nunca gostou de uma relação com a fé que dicotomiza a realidade e distancia o imanente do transcendente. E é nesse movimento, cujo ponto de partida é sempre a realidade que ele considera que “quanto mais leio Marx mais encontrei fundamentação objetiva para continuar camarada de Cristo”. E finaliza reforçando que ler Marx não o impediu jamais de encontrar o Cristo nas esquinas das favelas.

Considero que relembrar essa última entrevista de Paulo Freire em seu centenário é um convite a todxs que estamos nessa difícil travessia, a não cairmos na inanição e no pessimismo antropológico. Ao contrário, nos convida a reconhecer que a condição de estar vivo refere-se a uma condição de movimentos e de marchas que devemos realizar na perspectiva da resistência e da esperança. Igualmente relevante, é reconhecer as marchas daqueles que já marcharam e conquistaram muitos direitos em favor de tantos outros, com destaque especial aos movimentos sociais do campo e da cidade. Freire nos convida a não cairmos no fatalismo que nos apassiva. Ao invés do fatalismo nos aponta para o horizonte da inserção e intervenção crítica no nosso mundo superando a mera lógica de adaptação que em muitas vezes nos adapta, porém nos desumaniza. Essa abertura ontológica permite que possamos nos reconhecer com o desejo da busca de ser mais tão necessário para tempos em que cotidianamente as novas ontologias opressoras querem nos apequenar. Superando visões dualistas e dicotômicas o convite de Freire em sua última entrevista é também que possamos nos reconhecer numa dimensão de fé bem resolvida que não distancia a vida da dimensão transcendental. E para além de teorizar sobre a fé, acolhe por exemplo, uma relação com Cristo, a quem chamou “meu camarada” em aproximação com a dura realidade dos excluídos de seu tempo. Essa postura pode ser um indicativo de uma relação muito honesta consigo mesmo e com o transcendente reconhecido no imanente, dos excluídos de seu tempo e do nosso tempo, pois o tempo de Paulo Freire é sempre atual. Enquanto houver opressores e oprimidos sua concepção continua sendo mobilizadora de possibilidades de libertação. É por isso que sua pedagogia transborda os espaços escolares e se constitui numa ontologia educativa para a vida toda.

 

Referências: 


FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

______. Entrevista no youtube. (vídeo). Disponível aqui. Acesso em: 13 de setembro 2021.

PEREIRA, Vilmar Alves, CLARO, L. C MIRANDA, S.A (Org.) Horizontes da Educação Popular na Perspectiva de Paulo Freire. Passo Fundo: Méritos, 2018.

PEREIRA, Vilmar Alves; da ROSA, G.R. A atualidade da categoria Diálogo em Freire em tempos de Escola sem partido. Revista Eletrônica Do Mestrado Em Educação Ambiental, v. Especial, p. 91-111, 2017.

 

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