A descoberta da escola. Artigo de Massimo Recalcati

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20 Janeiro 2021

"E se tentássemos considerar o trauma de Covid não tanto como aquilo que impôs objetivamente o fechamento da escola, mas como aquilo que tornou possível sua abertura permanente? Não seria, efetivamente, aquele do Covid um tremendo magistério para os nossos filhos, muito superior ao que pode ser ministrado a eles nas salas de aula da escola? Não deveríamos tentar pensar que este tempo não é absolutamente um tempo perdido, um tempo de paralisação da atividade didática, mas um tempo em que a escola continua a operar, embora sob uma nova forma. Nossos filhos não estariam realmente aprendendo nada com essa lição?", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Repubblica, 19-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A reabertura da escola não poderia ter acontecido de forma mais contraditória e caótica. O cansaço e o desânimo de muitos professores, alunos e famílias levaram o governo a esta decisão que, no entanto, continua a não só ser desconsiderada em algumas regiões, como não deixa de provocar reações divergentes.

Resta o fato é que no momento da segunda onda da pandemia, o ensino a distância mostrou irremediavelmente seus limites e os alunos protestam invocando seu direito ao estudo violado pela emergência sanitária. De forma mais geral, a retomada da comunidade viva da escola é vista por todos como uma prioridade.

Nem é preciso reiterar que o atual fechamento de escolas afeta especialmente famílias com menos recursos econômicos e socialmente mais desfavorecidas. Tudo isso é verdadeiro, legítimo, indiscutível. Mas qual é a tarefa de quem quer levar a sério a responsabilidade que o discurso educativo acarreta? Não existe talvez outra evidência tão inevitável quanto aquela que exige a reabertura da escola?

A circulação do vírus ainda faz muitas vítimas, as medidas sanitárias adotadas até agora não se mostraram capazes de abrandar significativamente a disseminação. É provável para muitos cientistas que, se não ativarmos outro lockdown, logo nos encontraremos na dramática situação em que a Inglaterra se encontra hoje. Entende-se então que, em tal situação, as legítimas reivindicações de reabertura da escola não podem deixar de suscitar fortes preocupações.

A tarefa do discurso educativo nunca é de perseguir ilusões, mas levar em conta o real, especialmente quando ele aparece em sua face mais hostil. O caminho de todo processo formativo nunca está desobstruído, mas é feito de imprevistos, quedas, acidentes. O Covid enfatiza excepcionalmente uma regra: a formação só pode acontecer quando se conhece a experiência do obstáculo, da desorientação, da angústia. Não há efeito de formação que não tenha como pressuposto o encontro com o caráter inesquecível da realidade.

Ora, a nossa realidade, a deste ano terrível, está marcada por uma emergência sanitária. Não há como negar - como alguns teimosamente fazem - esse terrível fato. Pelo contrário, trata-se de tentar mudar o nosso ponto de vista: a presença do Covid é realmente apenas algo que impede a transmissão didática do saber e os processos de aprendizagem?

Todos nós somos prisioneiros dessa evidência.

E se tentássemos considerar o trauma de Covid não tanto como aquilo que impôs objetivamente o fechamento da escola, mas como aquilo que tornou possível sua abertura permanente? Não seria, efetivamente, aquele do Covid um tremendo magistério para os nossos filhos, muito superior ao que pode ser ministrado a eles nas salas de aula da escola?

Não deveríamos tentar pensar que este tempo não é absolutamente um tempo perdido, um tempo de paralisação da atividade didática, mas um tempo em que a escola continua a operar, embora sob uma nova forma. Nossos filhos não estariam realmente aprendendo nada com essa lição?

Muitos professores já estão fazendo este difícil trabalho: tentar ver no trauma do Covid não tanto o acidente que impede a atividade didática, mas o que a impulsiona. Não seria desde sempre justamente essa a grande tarefa da escola? Opor, como diria Pasolini, o desejo de vida ao desejo de morte.

Em jogo não está apenas a salvaguarda das atividades didáticas da presença hostil do Covid, mas a implicação desse trauma coletivo na didática.

No mundo ideal, tudo é possível, mas no mundo real somos obrigados a experimentar o impossível. Os professores que tentaram este ano trabalhar com o ensino a distância, mostraram que levam em conta o impossível no processo de formação, não retrocedendo quanto do seu desejo de ensinar, mas adaptando-o à dureza imposta pela realidade. Eles sabem bem que no seu trabalho cotidiano não se trata apenas de transmitir noções, mas principalmente de dar provas de uma resistência ativa ao poder da destruição e da morte, testemunhando que a cultura não recua perante o mal, mesmo quando este tem a forma impalpável de um vírus.

 

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