O grande crescimento da Pegada Ecológica no mundo e nos continentes

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01 Junho 2019

"Para manter a sustentabilidade e garantir o adequado padrão de vida da população mundial, sem degradar as condições ambientais, a Pegada Ecológica, no longo prazo, não pode ser maior do que a biocapacidade. Ou se muda o atual modelo insustentável ou haverá um colapso ecológico que inviabilizará a vida sobre a Terra", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 31-05-2019.

Eis o artigo.

“A civilização é a multiplicação ilimitada de necessidades desnecessárias”
Mark Twain

O mundo tinha superávit ambiental em 1961. A pegada ecológica total era de 7 bilhões de hectares globais (gha) para 9,6 bilhões de gha de biocapacidade. A pegada ecológica per capita era de 2,29 gha e a biocapacidade per capita de 3,13 gha, para uma população em torno de 3 bilhões de habitantes, em 1961.

A figura acima, com dados sobre a pegada ecológica total para os continentes, mostra (gráfico pequeno) que, em 1961, o continente europeu tinha a maior pegada ecológica total, com 2,5 bilhões de gha. Em segundo lugar vinha a América do Norte com 1,7 bilhão de gha. Em terceiro lugar a Ásia com 1,6 bilhão de gha. Em quarto lugar, a América Latina e Caribe (ALC) com 0,51 bilhão de gha. Em quinto lugar, a África com 0,36 bilhão de gha. Em último lugar a Oceania com 0,09 bilhão de gha.

Os dois primeiros tinham déficit ambiental em 1961, a Ásia tinha equilíbrio entre a pegada ecológica e a biocapacidade e os outros 3 continentes tinham superávit ambiental. O déficit ambiental na Europa e na América do Norte era claramente em função do alto consumo per capita, se bem que a população europeia já apresentava uma alta densidade demográfica.

Mas o quadro ecológico se agravou muito nas décadas seguintes e o mundo passou a ter déficit ambiental em 2014, com a Ásia liderando a maior pegada ecológica e o maior déficit entre todos os continentes, conforme mostra a figura acima (gráfico grande).

Em 2014, a Ásia tomou a liderança da maior degradação ecológica com 10,5 bilhões de gha (tendo apenas 3,4 bilhões de gha de biocapacidade). Em segundo lugar, a Europa tinha uma pegada ecológica total de 3,5 bilhões de gha (para uma biocapacidade de 2,2 bilhões de gha). Em terceiro lugar a América do Norte com pegada ecológica total de 3 bilhões de gha (para uma biocapacidade de 1,7 bilhão de gha). Em quarto lugar, a ALC com pegada ecológica total de 1,71 bilhão de gha, mas com biocapacidade de 3,1 bilhões de gha. Portanto, a ALC tem superávit ambiental. Em quinto lugar, a África com pegada ecológica total de 1,69 bilhão de gha, mas com biocapacidade de 1,4 bilhão de gha. Portanto, a África que tinha superávit ambiental no século passado, passou a ter déficit ambiental a partir de 2009. Por último, a Oceania com pegada ecológica total de 0,18 bilhão de gha para uma biocapacidade de 0,32 bilhão de gha, em 2014.

Muitas pessoas consideram que o déficit ambiental é um problema derivado apenas do alto consumo. Porém, em 2014, a Ásia tinha uma pegada ecológica per capita de 2,39 gha, menor do que a pegada ecológica per capita mundial de 2,84 gha. O que provocou o grande déficit ambiental asiático foi o tamanho da população que era de 4,4 bilhões de habitantes.

A Europa que tinha pegada ecológica per capita de 4,7 gha, tinha uma população de 740 milhões de habitantes em 2014. A América do Norte que tinha pegada ecológica per capita de 8,3 gha (cerca de 3 vezes a pegada mundial), tinha uma população de 353 milhões de habitantes em 2014. Nestes dois continentes, com volumes populacionais relativamente pequenos, sem dúvida, o alto consumo per capita é a principal causa do déficit ambiental.

Na ALC, em 2014, a pegada ecológica per capita foi de 2,77 gha (para biocapacidade per capita de 5,27 gha) para uma população de 625,6 milhões de habitantes. O superávit ambiental da América Latina em relação à Europa que tinha déficit, se deve a um menor padrão de consumo (menor pegada) e menor população. A ALC tem o maior superávit ambiental global entre todos os continentes.

A Oceania também possui superávit ambiental, embora tenha uma pegada ecológica per capita elevada, de 6,78 gha. Qual é a diferença em relação à Europa que tem déficit ambiental? Certamente é o volume da população, que na Oceania é de apenas 39 milhões de habitantes. Ou seja, o alto consumo da Austrália não gera déficit ambiental porque tem uma população reduzida.

O menor consumo per capita, entre todos os continentes, ocorre na África, com pegada ecológica de somente 1,39 gha. Mesmo assim, o superávit ambiental se transformou em déficit, pois a população africana que era de 292 milhões de habitantes em 1961 passou para 1,16 bilhão de habitantes em 2014. Ou seja, não se pode pregar a redução do consumo para reduzir o déficit ambiental da África. Evidentemente, quanto mais crescer a população, maior será o déficit ambiental do continente.

Nos últimos 45 anos a Pegada Ecológica mundial ultrapassou a biocapacidade do Planeta. Desde o início dos anos 1970, o déficit ambiental vem subindo constantemente. Em 2014, o mundo tinha uma população 7,4 bilhões de pessoas, com uma pegada ecológica per capita de 2,84 hectares globais (gha) e uma biocapacidade per capita de 1,68 gha, como resultado houve um déficit total de 68%. Ou dito de outra maneira, o mundo estava consumindo o equivalente a 1,68 planeta. Portanto, a população mundial vive no vermelho e provoca um déficit ambiental que cresce a cada ano. A humanidade ultrapassou a capacidade de carga do Planeta.

A economia é um subsistema da ecologia. Desta forma, a Pegada Ecológica gerada pela economia não pode ser maior do que a biocapacidade fornecida pela ecologia. Para manter a sustentabilidade e garantir o adequado padrão de vida da população mundial, sem degradar as condições ambientais, a Pegada Ecológica, no longo prazo, não pode ser maior do que a biocapacidade. Ou se muda o atual modelo insustentável ou haverá um colapso ecológico que inviabilizará a vida sobre a Terra.

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