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02 Dezembro 2016

"Novas gerações de pesquisadores, mestrandos e doutorandos são socializadas segundo os costumes descritos e dão mais importância a publicações e suas recompensas, sejam simbólicas, sejam pecuniárias, e menos atenção ao conhecimento gerado e sua aplicação em benefício da sociedade. Perdem os abnegados e altruístas, que deveriam modelar a cultura acadêmica. Ganham os burocratas e mercantilistas, encaminhadores da ciência para mares desconhecidos", escreve Thomaz Wood Jr., em artigo publicado por CartaCapital, 01-12-2016.

Eis o artigo.

A onda teve início um século atrás nas empresas e chega agora às universidades. Tudo começou com Frederick Winslow Taylor, o mestre dos tempos e movimentos. O engenheiro norte-americano deixou para a posteridade o livro Princípios de Administração Científica, no qual mostrava como aplicar diretrizes de racionalização do trabalho às linhas de montagem.

Suas técnicas atraíram fãs no Ocidente e muito além. Na base do método, a noção de que há sempre uma melhor forma de realizar o trabalho, e esta poderia ser identificada, reproduzida, medida e controlada em prol da produtividade.

A obsessão produtivista e a sanha controladora invadem, nos dias atuais, a academia e seus complexos processos de geração de conhecimento. O que era bom para aferir a produção de caixas de câmbio e motores parece adequado também ao caso dos artigos científicos.

Consideradas, com alguma justiça, lerdas e incapazes de atender às demandas sociais, as universidades tornaram-se alvo de burocratas interessados em mostrar serviço. Seu instrumento de preferência são os sistemas de avaliação de desempenho acadêmico, amparados em indicadores supostamente capazes de traduzir a complexa teia de atividades de ensino e pesquisa em números.

Alguns acadêmicos respondem às pressões com estoicismo. Outros resistem e defendem sua zona de conforto.

Lamentavelmente, a academia gera também comportamentos de burla, uma patologia que deve ganhar escala de pandemia e contaminar todo o corpo científico. Tais comportamentos, frequentemente chamados de gaming, são variados.

Diante da pressão pelo aumento de publicações, alguns pesquisadores recorrem a periódicos predadores, nos quais se paga para publicar, e àqueles ditos inclusivos, com dezenas de artigos escolhidos em processos frouxos de seleção.

Outros dividem suas pesquisas em blocos de resultados com o objetivo de multiplicar o número de publicações, comportamento conhecido como “ciência salame”. Há ainda quem pegue carona com colegas e orientandos e coassine, sem constrangimento, artigos para os quais pouco contribuiu.

Tais condutas, antes isoladas, são cada vez mais comuns. Conforme se espalham, constituem um padrão, um “novo normal”.

Novas gerações de pesquisadores, mestrandos e doutorandos são socializadas segundo os costumes descritos e dão mais importância a publicações e suas recompensas, sejam simbólicas, sejam pecuniárias, e menos atenção ao conhecimento gerado e sua aplicação em benefício da sociedade. Perdem os abnegados e altruístas, que deveriam modelar a cultura acadêmica.

Ganham os burocratas e mercantilistas, encaminhadores da ciência para mares desconhecidos.

Em um texto recente sobre os caminhos e descaminhos da ciência, Marc A. Edwards e Roy Siddhartha, engenheiros ambientais da Virginia Tech, nos Estados Unidos, argumentam que nos últimos 50 anos a hipercompetição por recursos e os incentivos para cientistas se tornaram perversos. Segundo os autores, isso reflete a adoção de um modelo empresarial e pode levar a comportamentos não éticos.

O risco, caso uma massa relevante de cientistas passe a jogar o novo jogo, é a ciência se converter em um campo intrinsecamente corrupto e a comunidade acadêmica perder a confiança do público. As consequências, observam Edwards e Siddhartha, seriam devastadoras para a ciência e a sociedade.

O que fazer? Primeiro, é preciso reconhecer a existência do problema. Segundo, admitir que a ciência é hoje um sistema complexo e demanda um processo de alocação racional de recursos com o objetivo de alcançar o máximo benefício social.

Por causa disso, requer algum tipo de avaliação. Terceiro, deve-se construir sistemas de avaliação a partir da realidade de cada unidade de ensino e pesquisa e reconhecer as peculiaridades do seu campo de conhecimento. Aquilo considerado perfeitamente racional para uma escola de farmácia pode ser aberração para uma faculdade de economia.

Tais sistemas devem considerar a realidade local, as competências e aspirações da unidade e as demandas sociais às quais precisam responder. O sistema de avaliação deve derivar dessa orientação.

Finalmente, as instituições científicas têm de monitorar comportamentos desviantes e corrigir suas políticas e sistemas de incentivo. Comportamentos incompatíveis com o ideal da ciência como prática a serviço do bem social precisam ser desencorajados.

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