Homenagem a dom Paulo torna-se um ato de resistência a Temer

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26 Outubro 2016

Decisiva na luta contra a ditadura, a atuação de dom Paulo Evaristo Arns à frente da Arquidiocese de São Paulo foi rememorada nesta segunda-feira 24 como uma inspiração para a resistência aos retrocessos em curso no País. Embalados pelo público que bradava "Fora, Temer" a cada oportunidade, João Pedro Stédile, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, o jornalista Juca Kfouri, o jurista Fábio Konder Comparato e outros nomes ilustres se reuniram no Teatro da Universidade Católica (Tuca), na PUC-SP, para homenagear os 95 anos do arcebispo emérito de São Paulo.

A reportagem é de Miguel Martins, publicada por CartaCapital, 24-10-2016.


Dom Paulo Evaristo Arns
Foto: Paulo Suess | Arquivo Pessoal

Ao lembrarem a enorme contribuição do franciscano em seus anos à frente da Arquidiocese, quando denunciou as prisões arbitrárias e as sessões de tortura comandadas pela ditadura e tornou-se um incansável defensor da justiça social, os convidados usaram o espaço para criticar as medidas impopulares defendidas pelo governo de Michel Temer.

Com dificuldades de se expressar por conta da idade avançada, dom Paulo lembrou de Santo Dias, ativista sindical assassinado no fim da ditadura, e fez questão de usar o boné do MST entregue pelos militantes presentes ao Tuca.

Um de seus principais aliados no período como arcebispo da capital paulista, o bispo Dom Angélico Sândalo Bernardino afirmou que a resistência de dom Paulo à ditadura é uma inspiração para o atual momento.

"Ele é descendente de alemão, mas o rosto dele é da periferia de São Paulo. Quando imagino dom Paulo, eu o imagino com o cheiro do povo, misturado com os bispos, padres, religiosos, leigos e leigas, anunciando a urgência de resistirmos contra toda a mentira. Naquele tempo, a luta era contra a ditadura civil-militar, mas a resistência a que ele nos convida deve ser permanente no Brasil atual também."

Dom Angélico leu ainda a nota recente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que se posicionou contra o congelamento de gastos públicos e as reformas trabalhista, da Previdência e do Ensino Médio. "Não é justo que os mais pobres paguem essa conta", reforçou. "Que essa declaração da CNBB seja uma bandeira da nossa luta." Dom Paulo aplaudiu de forma efusiva e recebeu um beijo na testa do bispo.

Ao lembrar um dos lemas de dom Paulo, "Deus só ajuda a quem se organiza", Stédile agradeceu o arcebispo emérito por ajudar a acabar com a ditadura e salvar Leonardo Boff da Inquisição, mas fez um pedido. "Use sua autoridade de quem está sempre próximo com aquele lá de cima para acabar com o Estado de exceção neste País."

Comparato lembrou a omissão dos clérigos nativos durante os quase quatro séculos de escravidão e afirmou que "dom Paulo converteu a Igreja no Brasil" quando defendeu os mais pobres durante seu arcebispado. "Não é a religião que vai unir a humanidade, mas o amor ao próximo", sintetizou o jurista.

Kfouri abriu sua fala com "primeiramente, Fora, Temer", para aplausos gerais, e lembrou da admiração do arcebispo emérito pelo Corinthians. O ex-jogador do clube Wladimir, um dos integrantes da Democracia Corinthiana, também participou da homenagem.

A celebração marcou ainda o pré-lançamento da biografia Dom Paulo: Um homem amado e perseguido, de Evanize Sydow e Marilda Ferri. No evento, as autoras apresentaram em uma brochura o oitavo capítulo da obra, que reconstrói a mobilização de dom Paulo em resposta à morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura.

O trecho do livro tem início com o telefonema em 1975 de Mino Carta, diretor de Redação de CartaCapital, a dom Paulo para informar o arcebispo de que vários jornalistas, entre eles Herzog, haviam sido presos.

Trajetória como arcebispo


Dom Paulo Evaristo Arns (Foto: Paulo Suess | Arquivo Pessoal)

Dom Paulo tornou-se arcebispo de São Paulo em um momento crucial. Em 1969, um grupo de dominicanos foi preso pelo delegado Sérgio Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social, sob acusação de manter laços com a Ação Libertadora Nacional, organização de luta armada comandada por Carlos Marighella.

Uma das lideranças dominicanas, Frei Tito foi brutalmente torturado. À época, dom Agnelo Rossi, então arcebispo paulista, preferiu não interceder em favor dos presos. A repercussão dos relatos de Tito publicados na Europa levou o então papa Paulo VI a substituir Rossi por dom Paulo no comando da Arquidiocese.

Pouco após assumir o cargo, dom Paulo não se omitiu ao tomar conhecimento da prisão do padre Giulio Vicini e da assistente social leiga Yara Spaldini pelo Departamento de Ordem Política e Social em 1971. O sacerdote foi pessoalmente ao Deops e testemunhou as agressões físicas sofridas por seus colaboradores.

No ano seguinte, por iniciativa de dom Paulo, a Assembleia da CNBB publicou o Documento de Brodósqui, um relatório que denunciava as prisões arbitrárias, a tortura e o desaparecimento de perseguidos políticos após a aprovação do Ato Institucional nº 5.

A partir de 1973, o arcebispo passou a celebrar missas com forte conteúdo político. O assassinato pelos militares do líder estudantil Alexandre Vannucchi Leme, da ALN, foi respondido com uma missa-protesto na Catedral da Sé para contestar a versão oficial apresentada pela ditadura para sua morte, segundo a qual o estudante teria sido vítima de um atropelamento. Em 1975, o arcebispo organizou um ato inter-religioso em homenagem a Valdimir Herzog, torturado e assassinado pelos militares. A cerimônia serviu também para manifestar repúdio à versão de que o jornalista teria cometido suicídio.

Além da resistência aos militares, Dom Paulo foi fundamental para a consolidação das Comunidades Eclesiais de Base, que buscavam substituir a supremacia das paróquias na organização da vida religiosa pela valorização de comunidades menores, com a presença tanto de integrantes da Igreja quanto de leigos.

Veja a homenagem:

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