Bispos colombianos aproximam grupos rivais em acordo de paz histórico

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22 Setembro 2016

Embora uma votação pelo “sim” pareça ser o resultado provável no referendo de 2 de outubro, os colombianos continuam profundamente divididos em um acordo de paz alcançado em Havana entre o governo e guerrilheiros. Em entrevista exclusiva ao sítio Crux, o número dois entre os bispos colombianos explica por que os prelados não estão dizendo ao povo qual o caminho que devem escolher na votação, mas somente que devem comparar às urnas.

A entrevista é de Austen Ivereigh, publicada por Crux, 20-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Embora uma votação pelo “sim” pareça ser o resultado provável no referendo de 2 de outubro, os colombianos continuam profundamente divididos em um acordo de paz histórico alcançado em 24 de agosto em Havana entre o governo do presidente Juan Manuel Santos e o forte exército guerrilheiro do país, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (conhecido como as FARC).

No fim de semana passado, cerca de 200 delegados das FARC deram início a um encontro no reduto do grupo ao sul do país, nas planícies de Yarí, para votar o acordo e discutir a transformação do próprio grupo em uma organização política civil.

De Yarí, o chefe das FARC, cujo nome de guerra é Timochenko, irá para a cidade caribenha de Cartagena para assinar o acordo com o presidente Santos numa cerimônia com a presença do secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, juntamente com outros líderes latino-americanos.

Santos diz que escolheu Cartagena por causa do túmulo de São Pedro Claver no local. Claver foi um padre jesuíta do século XVI conhecido como defensor direitos humanos dos escravos.

Ainda que sejam apoiadores de longa data de um acordo negociado para pôr fim à guerra civil que já dura décadas, os bispos colombianos vêm tendo o cuidado de não endossar uma votação pelo “sim” no referendo, concentrando-se, em vez disso, na formação dos eleitores a respeito das questões envolvidas e instando-os participarem do processo.

Essa postura tem atraído críticas vorazes, com alguns acusando a Igreja de permanecer neutra em um acordo de paz histórico.

Na semana passada, o secretário-geral recém-eleito da Conferência dos Bispos da Colômbia, o bispo auxiliar Elkin Alvarez Botero, de Medellín, sentou-se com Crux para conversar sobre a posição adotada pelos prelados. Ele rejeitou firmemente a ideia de que os bispos estão sendo, de alguma forma, neutros quanto a um fim negociado para o conflito, dizendo que o episcopado não quer participar na polarização do país em torno do acordo.

Explicou também como a Igreja está se preparando para o desafio pastoral em que milhares de guerrilheiros marxistas desmobilizados irão se apresentar nas paróquias do sul do país. Milhares de ex-combatentes irão se concertar nas chamadas “zonas de normalização” durante um processo de seis meses em que entregarão as armas e onde será planejada a reinserção deles na sociedade.

Confira a entrevista.

Deixe-me ver se entendo a postura dos bispos para com o referendo do dia 2 de outubro: por um lado, os bispos estão apoiando o processo de paz, mas, por outro, não querem que as pessoas votem apenas porque a Igreja assim lhes pediu. Em outras palavras, as pessoas precisam ter a liberdade de consciência.

Igreja está convidando o povo a um voto consciente por duas razões principais.

A primeira é que temos o dever pastoral de respeitar as consciências individuais, como em qualquer eleição. Algumas pessoas têm dito que este caso não é como uma eleição, pois não estamos votando em candidatos. O assunto “paz”, no entanto, foi politizado.

Li a respeito do que a Igreja diz sobre o dever dos católicos e cristãos na política, e a nota emitida pela Congregação para a Doutrina da Fé em 2002, na época dirigida pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, assenta os pontos de maneira muito clara: que as pessoas devem exercer suas consciências por meio do voto, e que os pastores da Igreja têm o dever de iluminar as consciências. Mas a responsabilidade final está com aquele que lança o voto, e esta é a linha que tomamos.

O segundo ponto – em que todos nós bispos estamos bem cientes – é que não queremos agravar a polarização no país. Nesse sentido, não se trata de uma questão de neutralidade, trata-se de tentar nos colocar no dever pastoral que a nós compete e, ao mesmo tempo, instar as pessoas a decidirem por si próprias.

Nisso temos sido absolutamente claros: quer vote “sim” ou “não”, a pessoa deve votar. Não podemos ser indiferentes. Nesse sentido, estamos junto com o Papa Francisco naquilo que ele diz sobre a indiferença: que esta é uma das pragas das quais precisamos escapar.

Tradicionalmente na Colômbia, a participação em processos como este é baixa, com pessoas não comparecendo às urnas ou tendo dúvidas quanto aos resultados. O que a Igreja pode fazer para mudar esta situação – talvez ajudando os eleitores a compreenderem as questões envolvidas?

Com certeza estamos tentando dar a nossa contribuição. Nas últimas eleições, seja para presidente ou outros cargos, sempre houve uma mensagem emitida pelos bispos convidando o povo a votar, a se envolver como cidadãos e cidadãs, e a não ficar indiferentes. Isso porque, tradicionalmente na Colômbia, há uma abstenção massiva, o que é realmente preocupante.

Com o referendo sobre o Acordo de Havana, houve um ponto em que o nível puro de tecnicalidade carregava o risco enorme de que as pessoas comuns não o entendessem e simplesmente acabassem se afastando. É por isso que estamos propondo e realizando uma “pedagogia da paz”: educar o povo sobre questões mais amplas, assim como especificamente a respeito do Acordo de Havana.

Penso que esta é uma contribuição significativa da Igreja, e de seus pastores, para que haja uma participação mais consistente, robusta e numerosa do povo colombiano.
Obviamente a Igreja não está indiferente nem é neutra em torno da possibilidade de construção da paz após um acordo firmado com os guerrilheiros, e é por isso que estamos instando as pessoas a usarem a consciência, para que optem claramente pelo caminho da negociação e do diálogo.

Está claro que o perdão e a reconciliação são centrais neste processo, e que isso é algo sobre o qual a Igreja tem muito a dizer.

Em primeiro lugar, temos buscado manter a consciência de que o Acordo de Havana representa o caminho que devemos sempre adotar nos conflitos, a saber: o caminho do diálogo. A Igreja sempre buscou uma saída negociada para os conflitos. Negociação implica reconciliação, e esta é a própria mensagem da Igreja.
Em segundo lugar, as origens da violência vão bem além do conflito guerrilheiro. Em vários sentidos, as guerrilhas são uma consequência de problemas bem mais profundos.

Após uma análise cuidadosa, identificamos oito origens da violência: a ausência de Deus, a desintegração da família, a perda de valores, defeitos no sistema educacional, ausência do Estado e instituições fracas, desigualdades sociais e corrupção.

Como bispos, estamos convidando os católicos para que trabalhem, enquanto Igreja, para eliminar essas causas que são a base de todos os grandes conflitos.

Qual a importância de que o processo de paz tenha chegado a uma conclusão feliz dentro do contexto do Jubileu da Misericórdia?

O Ano Santo da Misericórdia proveu um contexto bastante favorável para a Igreja trabalhar pela possibilidade da reconciliação nacional. Eu diria que o elemento extra que adentrou aí foi a polarização que agora temos na Colômbia.

Os que defendem o voto pelo “não” apresentam uma série de argumentos que, de fato, nada têm a ver com perdão. Acho que os colombianos estão dispostos ao perdão e à misericórdia, com um espírito bastante generoso, porém percebem que existem outros elementos envolvidos.

Um destes elementos “extras” é a questão de gênero, que, segundo os críticos, é mencionada 114 vezes no Acordo de Havana, fazendo surgir o medo de que a ideologia de gênero vá ser introduzida, por assim dizer, pela porta dos fundos.

Há muitas forças envolvidas aqui, e muitas coisas infelizmente acabaram se polarizando. Então, qual a tarefa da Igreja nisso? No caso em que o acordo de paz não seja aceito no referendo, ou que seja implementado de um modo diferente numa dada posterior, ou qualquer outra coisa que possa ocorrer no futuro, a Igreja Católica tem de estar preparada para acompanhar e ajudar na edificação das bases para uma reconciliação futura.

Isso está inclusive claro em alguns discursos do papa. Ele diz: paz, sim, evidentemente; mas, antes de tudo, reconciliação. A paz é o fruto da reconciliação, portanto temos de trabalhar nesse sentido e, depois, esperar o momento certo.

Nesse exato instante, nós estamos nos preparando. Temos 60 padres ou agentes pastorais das regiões onde os guerrilheiros estarão concentrados durante o processo de desmobilização, apropriando-se de elementos jurídicos, aprendendo sobre o significado de aspectos diferentes do processo – para qual finalidade? Para que se possa prestar uma atenção pastoral aos que vão se encontrar nesses locais, pessoas que farão parte da comunidade paroquial durante este período a fim de que possam receber uma atenção pastoral adequada.

Dias atrás, eu disse a estes agentes pastorais que eles têm uma missão na Igreja: em nome de toda a Igreja na Colômbia, eles precisam dar atenção pastoral e curar feridas. Precisam ser um hospital de campanha, na expressão do Papa Francisco, aos que estarão se submetendo ao processo de desmilitarização nessas regiões.

Compreendo que a Igreja conseguiu, ao longo das negociações de paz, trazer a Havana algumas vítimas, e que isso teve um efeito considerável.

Sim, e essa iniciativa nos levou, em alguns casos, a conseguir assistência psicológica. A questão das vítimas é bem importante e, de fato, o nosso interesse está centrado nelas. Tudo o que buscamos fazer pela reconciliação e conversão é em favor das vítimas deste processo, pessoas que compõem direta ou indiretamente a metade da população colombiana.

Há 8 milhões de pessoas que acabaram sendo afetadas diretamente, mas cada uma delas tem dois ou três membros familiares, no mínimo. É por isso que podemos falar que a metade da população do país está envolvida no conflito.

Muitos dizem que, por haver um número enorme de vítimas, não pode ter impunidade.

Reconhecemos que existe o direito internacional a regular estes processos, e que não podemos ir contra os acordos internacionais em se tratando de crimes de genocídio e assim por diante. Como Igreja, somos inclinados a favorecer a reconciliação que obedeça a processos e procedimentos internacionais.

Mas, ao mesmo tempo, a vontade do povo colombiano é a de reconciliação. Todo processo de paz envolve ceder em algo, envolve fazer um sacrifício e permitir que o bem comum prevaleça, na medida em que existam garantias de que não se vai voltar atrás, para onde estávamos, ou tentar usar o acordo para continuar com a mesma atitude.

Um arrependimento verdadeiro desempenha um papel importante aqui.

O papel da Igreja estará, sobretudo, no período posterior ao referendo – é aí que precisamos conscientizar das coisas que a reconciliação exige, para além da polarização que envolve optar por um lado ou outro.

O papa prometeu vir ao país no próximo ano caso o processo de paz se mantenha. De que forma isso pode influir no processo de cura pós-referendo?

É claro que esta visita ajudaria e muito. Nós tivemos um incentivo contínuo da parte do Santo Padre durante todo esse processo. Acho que o papa nos deu as bases da tarefa pastoral da Igreja no trabalho pela paz. Ninguém deve duvidar – e isto eu gostaria de gritar aos quatro ventos – que a Igreja quer a paz.

O Acordo de Havana é um caminho que nos leva adiante neste processo, mas é um caminho que cada um tem de se apropriar por si mesmo, e é por isso que precisamos da liberdade de consciência, porque somente desse jeito é que iremos ser realmente capazes de construir uma paz durável.

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