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05 Setembro 2016

“Nos últimos meses, trovejaram condenações aos interesses corporativos de aposentados, trabalhadores e mães do Bolsa Família pelo “ataque” ao Orçamento público. Em 2015, o Orçamento original destinou 103 bilhões de reais ao Ministério da Educação, 121 bilhões ao da Saúde, 75 bilhões ao Desenvolvimento Social e 20 bilhões aos Transportes. Somados aos 86 bilhões do déficit da Previdência, os gastos chegariam a 405 bilhões. No mesmo ano, os recursos destinados ao pagamento de juros foram de 502 bilhões, quase 100 bilhões a mais que os Orçamentos elencados”, escrevem Luiz Gonza ga Belluzzo e Gabriel Galípolo, economistas, em artigo publicado por CartaCapital, 05-09-2016.

Eis o artigo.

No dia 7 de agosto, o New York Times publicou matéria com o título “Como think tanks ampliam a influência corporativa na América”. Segundo o jornal, na busca por recursos, os think tanks, organizações que atuam produzindo e difundindo conhecimento sobre assuntos estratégicos, estão empurrando agendas importantes para seus doadores corporativos, muitas vezes sem divulgar suas conexões com os interesses desses grupos, borrando a linha entre pesquisadores e lobistas.

“Milhares de páginas de memorandos internos e correspondências confidenciais entre o Brookings e seus doadores, como o JP Morgan Chase, maior banco americano; a KKR, firma de investimento global; a Microsoft e o conglomerado japonês Hitachi demonstram que o suporte financeiro sempre veio com garantias do Brookings de que seriam fornecidos ‘benefícios’, incluindo o arranjo de eventos com executivos corporativos e oficiais dos governos, de acordo com documentos obtidos pelo New York Times e o New England Center for Investigative Reporting.”

Entrevistada, a senadora democrata Elizabeth Warren foi direto ao ponto: “É um lobby dissimulado. Trata-se de corporações gastando alguns milhões de dólares para influenciar decisões em Washington e ganhar bilhões de dólares”.

Jean Pisani-Ferry, comissário-geral de planejamento de política do primeiro-ministro francês, debruçou-se sobre as razões do que denominou “cólera contra aqueles que representam o conhecimento e a expertise”.

Abrimos aspas para o economista francês: “A primeira explicação refere-se à baixa estima dos eleitores por aqueles que não foram capazes de advertir contra o risco de uma crise financeira em 2008... As suspeitas que pesam sobre os economistas, apresentados em 2010 pelo filme Inside Job como capturados pela indústria financeira, estão longe de terem sido removidas. As pessoas estão encolerizadas contra o que parece uma nova traição dos intelectuais”.

Machado de Assis conta que, certo dia, o diabo teve a ideia de fundar uma igreja. Ao ser questionado por Deus, respondeu que havia recém-concluído uma observação, começada há séculos: “As virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...”

A nova doutrina clamava que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram naturais e legítimas. “A soberba, a luxúria e a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença de que a mãe era robusta, e a filha, uma esgalgada.”

A venalidade era o exercício superior a todos os direitos. “Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal... como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo?”

No entanto, “à vista do preconceito social conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente”.

O choque das banalidades abstratas dos economistas do establishment com as realidades da vida das pessoas de carne e osso impulsiona o sentimento de que a filha esgalgada da avareza seja um campo fértil para o exercício da venalidade e da hipocrisia. O leitor tem o direito de imaginar que escrevemos com o objetivo de estigmatizar moralmente os profissionais da economia que servem a Deus e ao diabo. Em tempos de anátemas e excomunhões fulminados e fulminadas por prelados de todas as religiões, nada poderia ser mais perigoso para a vida laica e democrática.

No entanto, sustentamos que as reivindicações de neutralidade científica asseverada pela investigação empírica não escapam das valorações que infestam o conturbado e contraditório “mundo da vida”. Nos últimos meses, trovejaram condenações aos interesses corporativos de aposentados, trabalhadores e mães do Bolsa Família pelo “ataque” ao Orçamento público. Em 2015, o Orçamento original destinou 103 bilhões de reais ao Ministério da Educação, 121 bilhões ao da Saúde, 75 bilhões ao Desenvolvimento Social e 20 bilhões aos Transportes. Somados aos 86 bilhões do déficit da Previdência, os gastos chegariam a 405 bilhões. No mesmo ano, os recursos destinados ao pagamento de juros foram de 502 bilhões, quase 100 bilhões a mais que os Orçamentos elencados.

Os senhores da opinião se esfalfam na empreitada de negar protagonismo aos interesses da interest rate, taux d’intérêt, tasso di interesse, tipo de interés para inverter a relação de causalidade, responsabilizando a trajetória e o estoque da dívida pelos juros altos e não o inverso. Sonegam que a economia brasileira exibiu ao longo de 16 anos, de 1998 a 2013, superávits primários, o que não impediu o salto da dívida bruta do setor público do patamar de 40%, em 1998, para quase 58% do PIB, em 2013, acompanhada da elevação de 6% na carga fiscal, também medida em relação ao PIB.

O Japão deve duas vezes e meia o seu PIB, os EUA em torno de 105%, a Grécia, aproximadamente, 170%, enquanto o Brasil detém uma dívida bruta inferior a 70%. Ainda assim, proporcionalmente ao PIB, o Brasil reverte aos detentores da dívida pública quase cinco vezes mais que o Japão e os EUA e o dobro da Grécia.

O quasímodo conhecido como Selic também não consegue se mesclar entre as taxas de juro praticadas em outras economias emergentes. Os juros no México são de 4,25%, na industriosa China, de 4,3%, na Índia, de 6,5%, na Turquia, de 7,5%, e na Rússia, de 10,5%.

Não por acaso, o real foi a moeda “emergente” que mais se valorizou nos últimos 12 meses. Nossos protuberantes 14,25% continuam convidando os capitais em movimento para prazerosas incursões no Patropi. A valorização do real é o expediente empregado há mais de 20 anos por nossas autoridades monetárias para conter a inflação e ceifar a indústria nacional.

Na fábula de Machado, após descobrir que vários de seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes, o diabo voou de novo ao céu, trêmulo de raiva. Deus ouviu-o com infinita complacência, pôs os olhos nele, e lhe disse: “Que queres tu, meu pobre diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana”.

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