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30 Agosto 2016

O preconceito de gênero foi um dos componentes que marcaram os primeiros dias do julgamento final do impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) no Senado Federal.

As senadoras Gleisi Hoffman (esq.) e Vanessa Grazziotin (dir.) no segundo dia do julgamento final do impeachment. Fonte: Brasil de Fato. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado.

A reportagem é de Cristiane Sampaio e publicado por Brasil de Fato, 28-06-2016.

Na sexta-feira (26), segundo dia dos trabalhos, um dos momentos de tensão entre defesa e acusação ocorreu quando o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PR) pediu calma às senadoras Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e Gleisi Hoffmann (PT-PR). “Se acalmem, meninas”, disse em plenário, tentando suavizar a fala em seguida, afirmando que teria sido “elegante”.

Ocorrida num contexto em que o tucano se queixava das reações contundentes das senadoras na sessão, a fala do parlamentar reacende o debate sobre o machismo que marca o tratamento tradicionalmente dispensado às mulheres que têm destacada atuação no espaço público.

“Nós ainda temos uma sociedade muito machista e até mesmo misógina. O fato de estarmos defendendo a presidenta nessa linha de frente – inclusive com argumentos, porque a gente vem aqui e debate o conteúdo – provoca essas reações. Lamento que certos colegas da Casa contribuam pra isso”, disse ao Brasil de Fato a senadora Gleisi Hoffmann.

Procurada pela reportagem para comentar o assunto, Vanessa Grazziotin também lamentou a postura do tucano. “Nunca tinha visto ele se referir a nós como ‘meninas’. (…) Esse tipo de coisa ocorre porque aqui a maioria é homem, então, eles se acham os proprietários do espaço, como se nós estivéssemos aqui por acaso”, afirmou.

Grazziotin esteve também na mira de alguns veículos da grande imprensa, que na última quinta-feira (26) publicaram matérias com críticas ao figurino usado pela senadora no primeiro dia do julgamento. “Eu virei praticamente um meme. Coloquei uma roupa, um casaco de flores e não imaginei que aconteceria tudo aquilo”, apontou.

Questionada sobre a tendência de desqualificação do trabalho das mulheres na política, muitas vezes ainda ofuscado por matérias e comentários de bastidores preconceituosos, a senadora foi contundente: “O fato é que a gente vem conseguindo ocupar os espaços pela nossa competência, e não pela vestimenta, e isso ainda incomoda”.

O senador Lindbergh Farias (PT-RJ), parceiro das senadoras na defesa de Dilma, também comentou o assunto. “Há muito machismo e misoginia contra elas, assim como há contra Dilma, mas eu tenho o maior orgulho porque elas têm sido a marca da nossa defesa neste processo”, disse o petista, citando também os nomes das senadoras Kátia Abreu (PMDB-TO), Fátima Bezerra (PT-RN), Ângela Portela (PT-RR) e Regina Souza (PT-PI).

“Tenho o maior orgulho de estar vivendo tudo isto aqui ao lado delas, porque são preparadas e corajosas. Elas viraram símbolo de resistência”, finalizou o líder da minoria na Casa.

Baixa representatividade

Também procurada pelo Brasil de Fato para comentar o assunto, a senadora Fátima Bezerra (PT-RN) lembrou a necessidade de aumentar a representatividade feminina na política. “Isso que ocorreu é reflexo da cultura patriarcal, que infelizmente ainda impera e fomenta o machismo, daí o desafio que nós temos de ampliar a participação das mulheres na política, pois o espaço político ainda é muito machista, tanto do ponto de vista dos valores e das atitudes que observamos quanto do ponto de vista da quantidade de mulheres presentes, porque nós ainda somos poucas”, salientou.

Para se ter uma ideia, do total de 81 senadores, apenas 11 são mulheres, o que corresponde a 13,6% de representatividade. No último pleito, em 2014, quando só houve troca de um terço da Casa, o número de senadoras eleitas foi seis, num universo de 27 vagas disponíveis.

“É um resultado direto do machismo, por isso o empoderamento das mulheres é uma necessidade”, defendeu Fátima Bezerra.

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