"O medo e o ódio têm a mesma origem." Entrevista com Zygmunt Bauman

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12 Julho 2016

"O medo é o demônio mais sinistro do nosso tempo", alertava há muitos anos o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Olhando para o mundo ocidental, que, dos EUA à envelhecida Europa, parece ter sucumbido às pulsões mais furiosas como se tivesse se "médio-orientalizado", os fantasmas evocados pelo teórico da sociedade líquido, além de uma das mentes mais afiadas do pensamento contemporâneo, assumem dimensões épicas.

A reportagem é de Francesca Paci, publicada no jornal La Stampa, 11-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Dallas, mas também os episódios xenófobos que se repetiram no Reino Unido depois do Brexit e, na Itália, porto dos migrantes, o refugiado nigeriano morto em Fermo. Professor Bauman, estamos passando da era do medo para a era do ódio?

Não há nenhuma passagem dos medos nascidos da nossa incerteza crônica à exibição de ódio em Dallas ou aos minipogroms ocorridos depois do Brexit nas ruas inglesas: são contemporâneos, só raramente eles são experimentados separadamente. Medo e ódio têm as mesmas origens e se alimentam da mesma comida: eles lembram os gêmeos siameses condenados a passar toda a vida na companhia recíproca. Em muitos casos, não apenas nasceram juntos, mas também só podem morrer juntos. O medo deve necessariamente buscar, inventar e construir os objetivos sobre os quais deve descarregar o ódio, enquanto o ódio precisa da qualidade assustadora dos seus objetivos como razão de ser: eles se entrechocam reciprocamente, só podem sobreviver assim.

Há uma relação de causalidade entre a difusão do "hate speech" (discurso de ódio) e as novas tensões étnicas e raciais?

A sua coincidência não é casual, mas nem predeterminada. Como toda aliança, é uma escolha política. Pelo que estamos vivendo, a escolha foi ditada pela simultaneidade de dois fenômenos. O primeiro, identificado pelo sociólogo alemão Ulrich Beck, é a estridente discrepância entre o fato de se ser atribuído a uma "situação cosmopolita" na ausência de uma "consciência cosmopolita" e sem os instrumentos adequados para geri-la.

O choque consequente entre instrumentos de controle político territorialmente limitados e poderes extraterritoriais incontroláveis e imprevisíveis produziu a "desregulamentação" multidirecional das condições de vida e saturou as nossas vidas de medo pelo futuro nosso e dos nossos filhos.

Esse medo era e continua sendo uma trindade envenenada, o encontro de três sentimentos obsessivos, ignorância, impotência e humilhação. Os poderes distantes e obscuros que nos condicionam vão além do nosso olhar e da nossa influência, assim como os nossos medos se movem entre forças que somos incapazes de domesticar ou conter. Se não sabemos rejeitar essas forças que ameaçam tudo o que nos é caro, não poderíamos, ao menos, mantê-los longe, proibir-lhes o acesso às nossas casas e aos locais de trabalho?

Não poderíamos, professor?

A entrada massiva e sem precedentes de refugiados é o segundo fenômeno a que eu me referia e contribuiu para dar a essa pergunta uma resposta credível e "de bom senso", embora falsa e enganosa, uma resposta elevada ao status de dogma de aspirantes políticos que farejam a chance de um forte apoio popular. É bálsamo para as almas atormentadas: os medos sem desafogo e, por isso, tóxicos não podem ser derramados sobre as suas verdadeiras causas – forças poderosas e tão distantes a ponto de serem imunes ao nosso ressentimento – mas podem, fácil e tangivelmente, ser derramados sobre aqueles que se parecem e se comportam como estrangeiro, dos vendedores ambulantes aos mendigos. As agressões étnicas e raciais são o remédio dos pobres contra a própria miséria. A sua eficácia é medida não pelo fato de resolverem a fragilidade da vida, mas de darem um alívio temporário ao tormento psicológico da impotência e da humilhação.

O medo, é claro. Mas a disseminação das armas nos EUA, a inanidade europeia sobre os migrantes, a internet não têm responsabilidade?

Essas não são causas: elas facilitam, até mesmo muito, ações que aquelas causas produzem. A internet e as mídias sociais podem servir, igualmente de forma eficaz, à inclusão assim como à exclusão, ao respeito e ao desprezo, à amizade e ao ódio. A responsabilidade de escolher recai diretamente sobre os nossos ombros de navegadores. Podemos usar a mesma faca para cortar pão ou gargantas: para qualquer uso que ela se destine, quem a detém a quer afiada. A web afia os instrumentos, mas nós escolhemos a sua aplicação.

Ainda é o "sono da razão"?

Como dizia o filósofo alemão Leo Strauss, sempre houve e sempre haverá mudanças inesperadas de ponto de vista que modificam radicalmente o saber anterior: toda doutrina, por mais definitiva que pareça, será, mais cedo ou mais tarde, suplantada por outra. Outros já disseram isto: o tribalismo é a resposta para o porquê as diferenças entre grupos da população são sempre reduzidos a uma relação inferior/superior.

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