“Após a morte de Perón, aumentam os atentados e a violência política na Argentina”. Entrevista com Gerardo Bavio

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Por: André | 27 Julho 2015

Entrevista com Gerardo Bavio, militante da Resistência Peronista e dos Montoneros.

A entrevista é de Mario Hernandez e publicada por Rebelión, 23-07-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Recebi uma informação que lhe diz respeito de perto, Gerardo. Tem a ver com a prisão perpétua de três repressores de Salta. Os juízes Santiago Díaz, Mario Marcelo Juárez Almaraz e Marta Liliana Snopek, condenaram à prisão perpétua Miguel Raúl Gentil, Virtom Modesto Mendiaz e Joaquín Guil, no processo em que ficou demonstrado que os repressores foram responsáveis por um plano sistemático de aniquilação, por meio dos crimes de privação ilegal da liberdade e homicídio contra 17 vítimas. O julgamento começou em dezembro e contou com a declaração de 77 testemunhas. Estes repressores que foram condenados coordenavam um circuito provincial de perseguição e extermínio com objetivos específicos, entre eles o sequestro do governador Miguel Ragone, em março de 1976, a quem você acompanhou como intendente da cidade de Salta, em 1973.

A classe dominante e oligarca não conseguia engolir o Ragone; era um homem de uma integridade e uma capacidade muito grande e contava com o apoio da maioria do povo. Eu acompanhei mais ou menos de perto todo este julgamento. O personagem mais notório é o Chefe de Polícia nesse momento, o coronel Miguel Raúl Gentil, que foi condenado. Os outros que você menciona foram condenados pela morte que aconteceu naquele 11 de março, dias antes do golpe de 24 de março de 1976. Ragone foi uma das vítimas previstas naquela que eles chamavam de “lista secreta”, que eles planejavam eliminar, de acordo com as palavras de Videla: “é preciso que morra muita gente para que haja ordem na Argentina”. Gentil era, anteriormente, o chefe do distrito militar de Salta, mas passou a depender dos comandos militares graças a todas as leis que foram aprovadas na última etapa do Governo de Isabel Perón, em 1975.

São condenados inclusive por crimes cometidos em abril de 1975, um ano antes do golpe, e em setembro de 1976 e mencionam os casos de Carlos César Martínez, Ramón Díaz Romero, Esteban Locascio Terán, Alfinio Elido Oroño, Mario Amelunge Vargas, Pablo Salomón Ríos, Nital Díaz, Ricardo Munir Falú e Lucrecia Barquet. E a eles se somam Hugo Maza, Miguel Ragone, Santiago Arredes, Margarita Martínez de Leal, Rubén Yañez Velarde, Lidia Gómez de Colqui, Rolando Gómez, Alfredo Colqui e Luis Obrero Destello Iñíguez Vázquez.

A onda de mortes da Tríplice A em toda a República começou em 1974, mas se agrava mais em 1975. Para mencionar apenas alguns nomes: Rodolfo Ortega Peña, Silvio Frondisi, Atilio López. Há uma longa lista. Todos os meses havia 10 ou 20 assassinatos por parte da Tríplice A, entre eles Rubén Fortuny, Arredes e Martínez de Leal, no sequestro de Ragone na rua Del Milagro. Justo nesse exato momento o armazenista da esquina, de apelido Arredes, sai de sua loja e trata de defender a Ragone e é assassinado pelos sequestradores, e seu cadáver é deixado na calçada. Diante do distúrbio aparece uma moça que era empregada de uma empresa chamada Detela Hermanos, e é ferida a balas gravemente. Ela sobrevive e consegue prestar declarações sobre o sequestro e o desaparecimento de Ragone, porque o seu cadáver nunca apareceu.

Hoje se fez um ato em memória de Ragone, colocando uma placa no local em que o governador da Província foi sequestrado e desapareceu no dia 11 de março de 1976 às 10h na esquina das ruas Del Milagro e Saravia.

É importante, é um avanço no processo de fazer justiça com os repressores.

O tema que queremos abordar hoje tem a ver com o desaparecimento físico do General Perón, no dia 1º de julho de 1974. O que significou sua morte naquele momento? Depois assume Isabel e começa a crescer o fenômeno dos atentados e a violência política.

A partir desse mesmo mês começa uma onda de mortes muito importantes.

Poucos dias depois assassinam o padre vileiro Carlos Mugica.

A onda da Tríplice A estava em pleno funcionamento; isso é muito importante. Eu estive preso na prisão de Villa Las Rosas em Salta, na realidade estava sendo transferido para a prisão de Villa Devoto, mas de qualquer maneira acompanhamos com muito interesse tudo isso. Perón teve no 1º de maio desse ano o famoso choque com a Juventude Peronista, em razão do que fizemos uma crítica interna, porque vimos que era importuno e inadequado, embora houvesse razões de peso para dizer coisas a Perón, como aquela de “General, o que está acontecendo? O governo popular está cheio de capangas”, e era verdade. Entre outros, havia personagens da polícia que tinham sido exonerados, e Perón os incorporou novamente.

Você está se referindo aos tristemente célebres comissários Villar e Margaride, que foram nomeados como responsáveis pela Polícia Federal.

Efetivamente. Também dizíamos: “O povo é dos rapazes, queremos as cabeças de Villar e Margaride”. Eram palavras de ordem que eram certas, mas não era o momento nem o lugar para propor essas coisas a Perón. Nesse mesmo 1º de maio de 1974, pela manhã, no Congresso Nacional, aconteceu o discurso de Perón no qual tornou público o seu projeto nacional e realmente é o testemunho que podemos dizer que nos deixou de recordação ou de comando para construir o país. Era realmente um projeto de país diferente, muito forte, muito nacionalista, de justiça social, soberania e independência econômica.

Depois veio a concentração de 12 de junho do mesmo ano, dias antes da sua morte, quando disse: “Levo em meus ouvidos esta bela música que é a voz do povo”, aí foi quando ratificou qual era o seu projeto, que, para dizer de maneira sintética, é antagônico ao que fez depois Menem, porque propunha que nada ficasse nas mãos do capital estrangeiro em nosso país, ou seja, propunha a nacionalização e a estatização de todos os bens e serviços.

Você diz que fez todo o contrário, e você sabe que eu nem nomeio esse personagem (Menem), mas não quero me desviar, porque seguindo a direção do que você coloca, tampouco o governo que sucede a Perón, o de Isabel, vai aplicar o programa que ele enunciou. Além disso, vai derivar no Plano Rodrigo, que vai dar lugar à primeira greve feita pelo movimento operário organizado pelo peronismo, no dia 29 de junho de 1975.

Isabel foi interrompendo todas as ações do verdadeiro peronismo, foi liberalizando a economia, privatizando tudo o que tinha nas mãos. Dissemos a Herminio Iglesias certa vez e está registrado: “Veja, Iglesias, os militares vão ficar quietos e vamos chegar às eleições do ano que vem, porque tiramos as suas bandeiras”, o que foi totalmente equivocado, porque nesse mesmo ano eles a derrubaram.

A cada dois ou três meses, havia mudado de ministro da Economia e acabou fazendo o plano econômico mais neoliberal e entreguista que o país já conheceu até aquele momento, o concluiu com esse personagem chamado Emilio Mondelli, que foi seu último ministro da Economia e que foi defenestrado junto com Isabel naquele 24 de março.

Isabel traiu, López Rega também foi defenestrado. Uma das importantes substituições que eu registrei nesses anos foi a de Jorge Taiana, ministro da Educação e Cultura, o pai do atual deputado, que foi substituído por Ivanisevich, um personagem entreguista, representante do neoliberalismo, um fascista puro.

Que coloca na Reitoria da Universidade de Buenos Aires outro fascista, Otalagano.

Isabel se antecipou ao que depois seria o caso deste personagem que você não quer citar.

Sim, eu prefiro nem mencioná-lo, além de que o candidato presidencial peronista, Daniel Scioli, lhe agradeça pelo fato de que o tenha introduzido na vida política. Na próxima vez que conversarmos gostaria que retrocedêssemos um pouco mais no tempo e recordássemos o golpe militar de Onganía, em 28 de junho de 1966. E outro fato que também ocorre em junho, mas alguns anos depois, que é o assassinato de Augusto Timoteo Vandor. Quero que analisemos o que é o vandorismo, porque é um tema que não abordamos em profundidade.

É importante retomar o tema, porque recordo palavras de John William Cooke sobre a atitude da burocracia sindical, que é algo estrutural, não era questão de matar burocratas para resolver os problemas produzidos pela burocracia, mas mudar a estrutura, torná-la democrática.

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