Rumo a um ''cristianismo não religioso''

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26 Fevereiro 2014

A corrida rumo a um cristianismo adulto implica uma árdua reviravolta de fé (e de pensamento!) que vai muito além da superação do dogmatismo e do confessionalismo.

A opinião é do pedagogo italiano Michele Turrisi, especialista no "pensamento fraco" de Gianni Vattimo, em artigo publicado na revista Koinonia, de fevereiro de 2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Era 1944, e um intrépido teólogo prisioneiro da Gestapo escrevia: "Estamos indo ao encontro de um tempo completamente não religioso; os homens, como já são agora, simplesmente não podem mais ser religiosos. Mesmo aqueles que se definem sinceramente 'religiosos', não colocam isso em prática de modo algum...".

Em geral, é justificado reagir com surpresa quando "ambientes eclesiásticos" promovem ocasiões comunitárias de reflexão (auto)crítica a partir de testemunhos como o de Bonhoeffer conservado na Carta do dia 30 de abril de 1944 da prisão nazista de Berlim Tegel. Nenhuma surpresa, porém, no caso da Associação Koinonia de Pistoia (Koinonia-online.it), que busca muito concretamente "uma maturação humana e cristã adequada às exigências socioculturais dos nossos dias".

Sinal inequívoco, dentre outros, de uma declarada vontade de superar as distorções de uma certa atitude religiosa bastante difundida foi o encontro de dezembro passado, com o tema: Rumo a um 'cristianismo não religioso – onde "rumo" não expressa o perigo, o desvio a ser enfrentado para salvaguardar o cristianismo das Igrejas, mas sim a direção sinceramente desejada, justamente como crentes (que se sentem) chamados à adultez espiritual.

Acolhido também em antologias escolares de filosofia, o célebre texto bonhoefferiano (as cartas e outros escritos da prisão estão reunidos em Resistência e submissão [Ed. Sinodal, 2003]) se impõe pela sua notória atualidade. Nele se encontram considerações urgentes e interrogações tão desconcertantes (na ótica crente comum), quanto inevitáveis, que soam como um apelo a discernir os "sinais dos tempos", aceitando fazer as contas com eles até o fim, humana e cristãmente.

Em uma antiga publicação da editora Claudiana, lê-se o seguinte destaque: "Quanto mais os anos passam, mais Bonhoeffer se torna, por assim dizer, atual. Ele viveu antecipadamente os problemas fundamentais da experiência e da existência cristã de hoje e, provavelmente, também de amanhã. Nesse sentido, é verdade que 'ainda estamos perseguindo Bonhoeffer' (Sperna Weiland)". Difícil discordar.

De fato, dois teólogos conhecidos – embora bastante distantes entre si – reconhecem a plena validade da mensagem do jovem pastor luterano também no novo século: um constatando que "as coisas, com relação a 1944, para a tradicional mentalidade religiosa, permaneceram exatamente as mesmas, mesmo que se busquem buracos [ou lacunas, do mundo físico e da alma humana] para dar legitimidade e consistência ao discurso sobre Deus" (Vito Mancuso, L'anima e il suo destino); o outro admitindo que "nenhuma Igreja ousou colocar em prática essa indicação de Bonhoeffer de uma dupla ascese, a ascese da palavra, reservada à oração, a ascese da ação, reservada exclusivamente à prática da justiça no meio dos homens" (Paolo Ricca), depois de ter lembrado francamente que "Bonhoeffer é um dos poucos teólogos mártires de toda a história cristã, já que os teólogos são intelectuais e, como todos os intelectuais, são especialistas em evitar as tempestades da história e propensos ao pensamento cortesão, isto é, aquele pensamento que acaba por aderir ou não contrastar o poder existente. Na Itália, apenas 13 professores universitários recusaram-se a prestar juramento ao fascismo. Bonhoeffer é uma dessas moscas brancas: ele passou da cátedra na Universidade de Berlim, alcançada ainda muito jovem, à forca de Flossenbürg. [...] Justamente porque pensou exclusivamente naquilo pelo qual se tornou responsável pela ação, viveu apenas 39 anos. E o seu pensamento manifesta uma crescente juventude" (de Finesettimana.org).

Em um congresso realizado em Trento pelo centenário do seu nascimento (2006), Paolo Ricca também disse: "Na realidade, Bonhoeffer nasceu no futuro. Ele não nasceu há 100 anos, antes de nós. Ele nasceu cem anos depois de nós, e nós, como disse um estudioso seu, ainda estamos perseguindo-o" (da revista Il Margine, n.2/2006).

Mas essa corrida rumo a um cristianismo adulto – o único adequado para a nossa sociedade secularizada, ou seja, não mais condicionada por uma visão religiosa/mítica da realidade – implica uma árdua reviravolta de fé (e de pensamento!) que vai muito além da superação (além disso, ainda só em parte realizada em nível intracristão) do dogmatismo e do confessionalismo.

Afirma Bonhoeffer: "As pessoas religiosas falam de Deus quando o conhecimento humano (às vezes por preguiça mental) chegou ao fim, ou quando as forças humanas vêm a faltar – e, com efeito, aquilo que elas chamam em causa é sempre o deus ex machina, como solução fictícia para problemas insolúveis, ou como força diante do fracasso humano; portanto, sempre explorando a fraqueza humana ou diante dos limites humano […]; eu gostaria de falar de Deus não nos limites, mas no centro, não nas fraquezas, mas na força, não, portanto, em relação à morte e à culpa, mas na vida e no bem do homem".

O que significa, então, emancipar-se da dependência (infantil) com relação a uma entidade transcendente caracterizada religiosamente? Deixamos que a resposta seja dada por um dos maiores filósofos italianos, cuja "recristianização" (relatada em um pequeno livro muito pessoal de 1996) certamente não podia ignorar a teologia de Bonhoeffer: "[...] O que está no meu coração é rejeitar aquele cristianismo que quer afirmar a religião como necessária via de fuga de uma realidade 'intratável'; mais uma vez, em suma, a ideia bonhoefferiana do Deus 'tapa-buraco', para a qual o caminho da razão para Deus é o caminho da derrota e do fracasso. É verossímil que, uma vez escolhida essa atitude, acabe-se por enfatizar a ênfase do mal, a insuperabilidade dos limites humanos, a ideia da história como lugar de sofrimento e de provação, em vez de história da salvação. Sobre essa base, seria fácil demais retorcer a acusação de insensibilidade ao mal do mundo contra aqueles que a formulam do ponto de vista do cristianismo trágico: muitas vezes, de fato, a ênfase na realidade do mal insuperável com meios humanos se resolveu, mesmo na história da Igreja, com a aceitação dos males do mundo, confiados apenas à ação da graça divina. Encarnando-se, em todos os sentidos da kénosis, Deus torna possível um compromisso histórico concebido como realização efetiva da salvação, e não só como aceitação de uma prova ou busca de méritos em vista do além. [...] É verdade que a posição 'trágica' parece corresponder mais às experiências em muitos sentidos apocalípticas que a humanidade do século XX vive: efeitos perversos do 'progresso' técnico e científico, iminência de problemas existenciais aparentemente irresolvíveis... Mas o 'salto' na transcendência, nessas condições, pode ter no máximo um significado consolatório; se empurrado para além desse significado, torna-se fonte de uma interpretação supersticiosa, mágica, naturalista do divino. [...] O cristianismo trágico corresponde bem demais a uma certa Stimmung difusa nesse fim de milênio, que eu acredito que deve ser combatida, porque os seus resultados são fundamentalismos, o fechamento no horizonte restrito da comunidade, a violência implícita na concepção da Igreja sob o modelo de um exército pronto para a batalha, a tendencial inimizade contra a facilitação da existência prometida e parcialmente realizada pela ciência e pela técnica" (Gianni Vattimo, Credere di credere).

Maria Mantello observou que "o deus da Bonhoeffer não quer tronos no mundo e assim liberta a fé individual da Religião"; que "colocar Deus entre parênteses (etsi Deus non daretur, como defendia o teólogo luterano) ainda é o caminho para a liberdade e a autodeterminação individual na convivência democrática civil – é o caminho da laicidade"; que" o crente emancipado não precisa das fugas escatológicas, mas diz sim à vida 'como ela é', na responsabilidade de ser seu artífice na humana inter-relação" (cf. Libero Pensiero, de setembro de 2013).

Essa posição, a meu ver, é bem compatível com a expressada por um estimado biblista e teólogo protestante que, justamente referindo-se a Bonhoeffer, escreveu: "É a cruz de Cristo que expressa estatutariamente para nós, cristãos, o 'espaço' de Deus no mundo. Na cruz, Deus, em Cristo, se expõe sem tutelas, em um espaço público por excelência [...]. Por isso, creio eu, é uma exigência acima de tudo cristã aquela de que Deus não seja posto como a priori necessário ou como alicerce de valores em si mesmos não universalmente compartilhados. Ainda mais nociva para o coração do anúncio cristão é a pretensão de apresentar os valores cristãos como fundamento natural, apriorístico e indiscutível daquelas atividades atividades (como a ciência e o dominium terrae) que o criador confiou à autonomia daquela humanidade à qual atribuiu o papel de agir 'à imagem de Deus'" (DanieleGarrone, Protestantesimo, n. 61/2006).

Quando a fé não se reduz a psicofármaco comunitário nem é instrumentalizada para esmagar os "outros" (sempre olhados de cima, como eternos menores que precisam de "luz" e de redenção): eis o horizonte em que, finalmente, crentes e não crentes podem se encontrar, se contaminar mutuamente e até mesmo confraternizar. Pois bem, aquele teólogo antinazista "sem preconceitos" também experimentou isso na sua curta vida (mas dinâmica existência!), que, longe de desdenhar a companhia de pessoas não religiosas, ousou confessar: "Muitas vezes me pergunto por que um 'instinto cristão' me empurra frequentemente na direção dos não religiosos que na direção dos religiosos, e isso certamente não na perspectiva de uma ação missionária, mas em um estado, eu diria, 'fraterno' [sic]".

E mais: o encontro de Bonhoeffer com pessoas não crentes pesou sobre a sua busca por um cristianismo arreligioso em um mundo que se tornou adulto. Beatrice Iacopini destacou isso no seu relatório ao supracitado congresso de Koinonia: "Na prisão, Bonhoeffer toca com a mão um mundo que abre mão de Deus: nenhum dos seus companheiros de prisão, nem os guardas pareciam viver alguma referência religiosa. Em particular, ele é tocado pelo fato de que nem mesmo durante os bombardeios – e, portanto, enquanto experimentam o terror – aqueles que o cercavam se voltavam para Deus. Tal observação confirma a sua convicção de que apresentar Deus como solução aos problemas do homem, além de ser teologicamente equivocado, também é totalmente inútil: em um mundo já adulto, os homens querem caminhar com as próprias pernas".

Um desejo: que, diante dos desafios éticos na comum aventura daqui de baixo, crentes e não crentes possam em breve se redescobrir ao menos como companheiros, senão irmãos.

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