A espiritualidade inaciana e a Ecologia conversam

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15 Março 2011

"A espiritualidade inaciana nos pede que sejamos muito conscientes do meio-ambiente em nossa vida de cada dia, passando do sentido de mera gestão da Terra a uma aliança mais profunda, para sentirmo-nos membros da criação."

A análise é de Joseph Carver SJ, jesuíta norte-americano da província do Oregon e representante da Conferência dos Bispos dos EUA para as questões de água, mudanças climáticas e sustentabilidade. O artigo foi publicado na revista Promotio Iustitiae, nº. 105, janeiro de 2011. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o texto.

A tradição de Inácio de Loyola nos oferece uma dimensão fundamental da espiritualidade da Igreja contemporânea. Ao examinar aspectos desta espiritualidade, podemos deixar que nosso "parentesco’ com a Terra e com toda a criação informe nosso encontro com Cristo encarnado. A espiritualidade inaciana nos pede que sejamos muito conscientes do meio-ambiente em nossa vida de cada dia, passando do sentido de mera gestão da Terra a uma aliança mais profunda, para sentirmo-nos membros da criação. Não se trata de uma visão puramente instrumental, e sim de uma visão sacramental: o qualitativamente divino entendido como relação e atualizado na criação. Esta perspectiva reconhece que temos uma relação com o Deus encarnado e que, por conseguinte, devemos considerar-nos unidos com toda a criação, não só biológica, senão espiritualmente. Este ponto de vista pede uma conversão ecológica, mediante a qual abordemos a crise meio-ambiental reconhecendo novamente nossa relação com toda a criação. Esta comunhão redescoberta permite-nos superar o modo abstrato de pensar as coisas e conhecer os laços que há entre Terra e Céu, entre Espírito e Matéria.

Qualquer teologia contemporânea que pretenda abordar a crise ecológica necessitará de uma teologia que entenda a pessoa humana como parte do mundo natural. Estou dizendo que os cristãos têm um papel particular no movimento meio-ambiental, pelo que sabem da Encarnação e da Comunhão. Uma teologia de comunhão, que leva a sério o fundamento encarnacional de nossa identidade humana, transforma a relação da humanidade com o mundo natural e dá um rico enfoque ao movimento ecológico. A espiritualidade inaciana oferece um ponto de vista único para entrar na espiritualidade ecológica e, assim, na restauração da criação. Quando grandes temas, com a aliança e a encarnação são aplicados à nossa idéia atual da ecologia, com uma atitude ao mesmo tempo crítica e respeitosa da beleza e da profundidade de ambas as disciplinas, isto faz que nossa visão ecológica passe de um mero materialismo a uma visão de reconciliação, re-criação e, em definitivo, de ressurreição. O que segue é uma consideração muito breve do tema. Não tenho a pretensão de oferecer uma visão total do que pode sair deste encontro entre a espiritualidade inaciana e a imaginação ecológica, mas espero oferecer dois passos iniciais.

O exame inaciano e a utilização da imaginação pela oração inaciana são duas formas claras de cultivar uma sensibilidade ecológica na própria vida interior. Somos bem conscientes de que Deus continua atraindo sem cessar cada um de nós para Ele, em e por Cristo. Experimentamos a ação de Deus em nossos sentimentos, humores, ações e desejos. Cremos que Deus se revela em nossos sentimentos da mesma forma como o faz em nossas idéias claras e distintas. Ao deixar que Deus nos atraia mais intimamente, devemos em primeiro lugar deixar que Ele nos atraia para o mais íntimo de nosso ser, o que significa sermos mais conscientes de nossos sentimentos. Aqui reconhecemos a ação incessante de Deus que nos convida a acercarmo-nos mais, a sermos mais com Deus, a entrarmos em comunhão com Ele. Ademais, tornamo-nos conscientes de nossa resistência a Deus, a qual surge do pecado em nós e no mundo que nos rodeia. A técnica do exame, quando é usado com lentes ecológicas, permite-nos reflexionar num clima de oração sobre os eventos do dia. Somos capazes de examinar nossa relação com a criação, descobrir a presença de Deus e discernir até onde Deus está nos conduzindo. O objetivo do exame é alcançar o objetivo de viver com um coração que discerne. A finalidade do exame ecológico é discernir como Deus está convidando cada um de nós a ver como podemos responder com maior sensibilidade.

Os cinco movimentos do exame ecológico são paralelos aos do exame tradicional. Começamos com a ação de graças e com a gratidão pela aliança que Deus nos oferece no dom do próprio Deus em toda a criação. Em segundo lugar, pedimos que o Espírito nos abra os olhos para vermos como podemos cuidar da criação. Em terceiro lugar, revisamos os desafios que experimentamos ao cuidar da criação, e as alegrias que disso recebemos. E nos perguntamos: como me senti atraído para Deus hoje por meio da criação? Há algum ponto de nossa relação com a criação que necessita de mudança? Quarto: pedimos ter clara e verdadeira consciência de nosso pecado, tanto em se tratando de um sentido de superioridade, como da incapacidade em responder às necessidades da criação.

Exame ecológico por: Joseph Carver, SJ

  • Toda a criação reflete a beleza e a bênção da imagem de Deus. Onde percebi isto hoje?
  • Posso identificar e precisar como me esforcei hoje por cuidar da criação de Deus?
  • Quais são os desafios ou as alegrias que experimento ao cuidar da criação?
  • Como posso reparar as fissuras em minha relação com a criação, em meu tácito sentido de superioridade?

Ao imaginar-me o amanhã, peço a graça de ver Cristo encarnado nas interconexões dinâmicas de toda a criação.

Conclui-se com a oração de Jesus:

Eu lhes dei a glória que tu me deste,
para que sejam um como o somos nós.

Eu neles e Tu em mim, para que sejam plenamente um,
para que o mundo conheça que tu me enviaste.

(João 17,22-23)

Da mesma forma que os Exercícios Espirituais, o exame progride até o ponto de exortar-nos a um compromisso total pela vida de Cristo. Olhar os acontecimentos de nossa vida e os da terra a partir de uma perspectiva ecológica, voltando à vida de cada dia com entusiasmo, inspirados a transformar, sanar e restaurar o meio ambiente natural. Por minha própria experiência, posso dizer que a prática do Exame Ecológico me levou a experiências de gratidão, sobretudo pelos dons da criação. Este exame nos ensina nosso verdadeiro fim: "louvar, reverenciar e servir a Deus" de maneira que uma resposta cristã ao meio ambiente forme parte integrante de tudo o que fazemos. Portanto, a meta é fazer que esta resposta forme parte de nosso serviço aos demais, a nossas comunidades e a toda a criação. Da mesma forma que o exame tradicional, o Exame Ecológico nos conduz por três passos: tomada de consciência, apreciação e compromisso. A tomada de consciência supõe deixarmos os anteparos que nos mantêm focados em nossas próprias atividades. Da tomada de consciência nasce a apreciação; não podemos apreciar aquilo que não conhecemos ou aquilo com que não temos relação. A apreciação conduz a respeitar e amar: toda a criação tem valor, porque Deus assim a fez. E assim aprendemos a apreciar aquilo que antes simplesmente tolerávamos e tratávamos como objetos: agora aprendemos a ver e a percatar-nos da importância crucial que têm para o resto de toda a comunidade da criação. Caímos de repente na conta de que estamos imitando o que faz o escaravelho coprófago com nosso adubo caseiro, ou que as turbinas da construção imitam as aletas das baleias pentelhadas. A criação se converte numa indispensável mestra, mais do que numa intolerável carniceira. E, finalmente, a apreciação nos leva a comprometer-nos, a atuar. Fazemos mais que reutilizar e reciclar, não nos limitamos a ser simples administradores, mas o que fazemos é restaurar e renovar.

Estas graças nascem do uso que fazemos de nossa imaginação na oração para contemplar cenas do Evangelho, e não simplesmente desde um ponto de vista humano. Faz pouco, sentado do lado de um exercitante, foi para mim evidente que estava se entretendo dando voltas às coisas. Estava no sexto dia da Terceira Semana dos Exercícios, preocupado não com Cristo, senão com a intensidade de Seu sofrimento, falando uma e outra vez da truculência das contemplações. No final de nosso intercâmbio daquele dia, convidei-o a que, antes de deitar-se, pusesse Cristo no túmulo. Ele aceitou. Embora eu dê raramente esta diretriz, aferrando-me a meu pensar, senti-me impelido pelo Espírito. Convidei-o a imaginar-se a si mesmo como o túmulo da contemplação. De novo aceitou. Quando nos encontramos no dia seguinte, disse cinco palavras entre lágrimas: "Cristo ressuscitou dentro de mim". Profundamente consolado e ditoso, seguiu contando a impactante contemplação que havia experimentado no túmulo.

Um enfoque orientado para o meio ambiente e centrado na ressurreição começa com Deus que nos move a tornar-nos conscientes deste amor em todas as coisas criadas. Este paradoxo de amor constitui o próprio centro do Evangelho e o núcleo dos Exercícios. O núcleo das experiências espirituais de Inácio é a tomada de consciência do amor divino de Cristo presente e atuante no mundo. Por conseguinte, para Inácio encontrar Deus que atua na criação não começa com a criação e ascende dali por meio de uma forma de purificação dos sentidos, senão que começa em Deus e passa aí pela criação. Os avanços que se tem realizado desde a época da Escolástica não mudaram fundamentalmente este mistério primordial da relação de Deus com a criação. Por exemplo, Teilhard de Chardin, ao longo de toda a sua vida, tratou de reintegrar a espiritualidade com a Terra. Fez muito neste sentido, embora seu pensamento termine incluindo toda a criação material dentro da transformação humana.

Como ele mesmo afirma: "Num universo convergente todos os elementos encontram sua plenitude, não diretamente em sua própria perfeição, senão em sua incorporação na unidade de um pólo superior de tomada de consciência, no qual pode entrar em comunhão com todos os outros. Sua valia culmina numa transmutação no outro, numa descentração que se entrega." [1] Ou de novo: "O fim do mundo; a superação do equilíbrio, separando a mente, finalmente plena, de sua matriz material, para que, a partir de então, repouse com todo seu peso no Ômega de Deus" [2] Estas e outras passagens indicam que Teilhard viu o universo como se estivesse incluído na realização humana em Cristo., Convida-nos, portanto, a entrar na cena como se formássemos parte do mundo natural – uma semente plantada, a tumba de Cristo de pedra talhada, o azeite que unge os pés de Cristo. Com centenas de exemplos nos Evangelhos e outros tantos infinitos exemplos, se incluirmos as escrituras hebraicas e os Salmos, estas contemplações não podem senão provocar-nos sentimentos de gratidão e impelir-nos à ação em favor da criação. A contemplação destas cenas confere-nos valor e um novo tipo de humildade reverencial pelo dom da criação – as mesmas virtudes que Jesus cultivou seguindo a vontade de Deus. A combinação desta nova linguagem de imagens, junto ao assombro e à graça da criação, tem o poder de sanar.

Há dois anos, ao dirigir um retiro de oito dias, convidei uma mulher que rezasse Marcos 4, 26-29, isto é, a parábola da semente que cresce. Estava profundamente afetada por sua incapacidade de ter filhos e por muitos anos havia sofrido uma profunda sensação de culpabilidade e vergonha. Ao entrar nesta contemplação adotando o ponto de vista da terra, experimentou uma profunda sensação de cura. Voltou no dia seguinte plena de alegria, contando como "havia dado à luz a Palavra de Deus... uma Palavra viva!" Falou da profunda sensação de ser mãe e discípula. (Com freqüência tenho me perguntado se desta graça espiritual brotaria mais tarde uma cura física). Tanto se esta tenha  ocorrido, ou não, sua "cura" lhe deu uma missão, e ao viver esta missão essa mulher continua sendo no mundo uma presença curadora.

Certamente Deus iluminou Inácio para que visse a Trindade na criação. "Um dia, rezando nos bancos do mesmo mosteiro..., como que via a santíssima Trindade em figura de três teclas [3]. A plenitude do acorde e a harmonia fizeram que dele saíssem lágrimas". (É a primeira vez que Inácio fala de lágrimas.) Não pôde parar de falar da Trindade e falou de suas visões de raios de luz que desciam, da maneira pela qual Deus criou a terra, e da luminosidade da criação. É difícil ignorar a experiência de Cardoner; sem dúvida, Inácio relacionou esta experiência e todas essas coisas com a maneira com que Deus guia mais profundamente as almas nos princípios do discernimento. [4] Já fora, da açotéia da Cúria em Roma ou vendo o céu coalhado de estrelas de Loyola, certamente ele as contemplou com novos olhos, assim como "as outras coisas sobre a face da terra." [EE 23]. Não surpreende, pois até o final de sua vida Inácio se referia a essas visões unificadoras nos Exercícios, cartas, Constituições e em todas as decisões. Não posso evitar crer que Inácio se comprazeria com a verdade tão bela quanto irônica de que ele mesmo estava composto de pó de estrelas. As estrelas que tanto lhe ensinaram sobre reverência, assombro, admiração, estão compostas pelos mesmos elementos que compõem a ele, deleitando-se Deus nos mesmos elementos de cada um.

Quando a 35ª Congregação Geral da Companhia de Jesus tratou de articular a missão da Companhia hoje, falou da necessidade que temos de criar relações justas, especialmente em três âmbitos: em primeiro lugar, reconciliação com Deus, em segundo lugar, reconciliação de uns com os outros e, em terceiro lugar, reconciliação com a criação. (Recordam-me que o Papa Paulo III encarregou Inácio de incluir confissões, quando buscava a aprovação dos documentos funcionais da Companhia). Enquanto os dois primeiros âmbitos têm uma longa história na Igreja, o último tem sido a miúdo olvidado, e emergiu hoje numa época de sérios desafios ecológicos e de novas e profundas intuições sobre a riqueza de nossa herança como seres encarnados. A Congregação, ao percatar-se desta nova realidade, insta os jesuítas e a todos quantos se sentem inspirados pela espiritualidade de Inácio a "superar dúvidas e indiferença e a tornar-nos responsáveis por nosso lar, a terra." [5] Nesta investigação é meu intento levar a sério o chamamento da Congregação; e, mais ainda, mostrar como deste chamamento a uma ecologia eucarística emerge – e com freqüência passou por alto – a longa tradição sacramental da Igreja e a espiritualidade encarnatória de Inácio, especialmente nos Exercícios Espirituais.

Em sua carta de promulgação dos Decretos da Congregação Geral 35, o Superior Geral da Companhia de Jesus, Adolfo Nicolás, escrevia: "A tarefa que nos aguarda se refere agora a toda a Companhia. Nossa responsabilidade consiste em "receber" os decretos e fazê-los vida em nossos apostolados, nas comunidades e em nossa vida pessoal. A experiência nos ensina que o êxito ou fracasso de uma Congregação não se estriba em seus documentos, senão nas vidas que neles se inspiram. Por isso, exorto de coração a todos a que leiam, estudem, meditem e façam seus estes decretos. Animo-os igualmente a enriquecê-los com a profundidade de vossa fé e capacidade de compreensão." [6] Neste breve artigo tentei responder ao chamado do Padre Geral e empenhar-me na missão oferecida pela Congregação. [7] Hoje, já que o mundo já não pode mais sustentar as dicotomias entre espírito e matéria, ou entre ecologia e espiritualidade, depende de nós – e, quiçá especialmente daqueles abençoados com o dom da espiritualidade inaciana – reconciliar os opostos pela vida do mundo, respondendo assim ao expressado na carta que promulga os documentos da Congregação Geral. Neste artigo tratei de tomar as diversas inspirações encontradas em nossa tradição e "dar-lhes vida" através de minha própria "fé e capacidade de compreensão".

Notas:

[1] Cf. Teilhard de Chardin, The Future of Man, trans. N. Denny (N.Y.: Harper & Row, 1959), 76.

[2] Ver Teilhard de Chardin, Phenomen of Man [O fenômeno humano], 287 s.

[3] Diario Espiritual, Obras Completas de San Ignacio (Madri, 1952), 748.

[4] Obras Completas, 669.

[5] Documentos da Congregação Geral 35 da Companhia de Jesus, Decreto 3: Desafios para nossa missão hoje: "Reconciliação com a Criação", 1. de março, 2009.

[6] Cf. "Carta de Promulgação", l. de março, 2009:

[7] Esta missão se apresenta de forma sucinta na citação de abertura e nos parágrafos iniciais da Parte II (p. 24).

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