Maradiaga ataca Burke, enquanto Bento XVI elogia Sarah

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20 Maio 2017

Enquanto o coordenador do Conselho dos Cardeais assessores do papa descreveu o Cardeal Raymond Burke como “um homem decepcionado”, chateado com a perda do poder, o Papa Emérito Bento XVI falou do Cardeal Robert Sarah como uma pessoa com a qual a liturgia católica está “em boas mãos”.

A reportagem é publicada por Crux, 19-05-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Recentemente dois cardeais de destaque e, por vezes, polêmicos – ambos considerados conservadores –, chamaram a atenção: num caso, por lançar críticas a um companheiro; no outro, por sair em defesa de um outro prelado. Tanto a crítica como a defesa vieram de pessoas da alta hierarquia católica.

O Cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, de Honduras, coordenador do Conselho dos Cardeais assessores do Papa Francisco, recentemente descreveu o cardeal americano Raymond Burke foi como um “homem decepcionado”, chateado com a perda do poder. Enquanto isso, o Cardeal Robert Sarah, da Guiné, presidente do dicastério litúrgico no Vaticano, foi elogiado pelo Papa Emérito Bento XVI como uma pessoa com a qual a liturgia está “em boas mãos”.

O comentário de Maradiaga sobre Burke foi publicado em um livro-entrevista escrito com o companheiro salesiano Pe. Antonio Carriero, intitulado “Solo il Vangelo è rivoluzionario” (Só o Evangelho é revolucionário, em tradução livre), publicado na Itália pela editora Piemme.

Burke, prelado que o Papa Francisco destituiu em novembro de 2014 do posto de chefe da suprema corte vaticana, é amplamente considerado o líder da oposição conservadora ao documento pontifício sobre a família Amoris Laetitia e sua abertura cautelosa à Sagrada Comunhão por parte de fiéis divorciados e recasados no civil.

Burke é um dos quatro cardeais que submeteram a Francisco um conjunto de perguntas, chamado “dubia”, em torno daquilo que descreveram como sendo uma “grave desorientação e grande confusão” criada pelo citado documento.

Na entrevista, referindo-se à crítica a Amoris Laetitia, Maradiaga afirma: “O cardeal que sustenta isso é um homem decepcionado, que queria o poder e o perdeu. Ele achava que era a autoridade máxima nos Estados Unidos”.

“Ele não é o magistério”, disse Maradiaga, em referência à autoridade de emitir um ensino oficial. “O Santo Padre é o magistério, e ele é quem ensina a toda a Igreja. Esta outra pessoa fala somente por seus próprios pensamentos, que não merecem mais comentários. São apenas palavras”, continuou, “de um pobre homem”.

Maradiaga igualmente criticou as escolas de pensamento conservador dentro do catolicismo, das quais Burke é, em geral, considerado um símbolo.

“Estas correntes da direita católica são pessoas que buscam poder e não a verdade, e a verdade é única”, falou. “Se alegam encontrar uma ‘heresia’ nas palavras de Francisco, estão cometendo um grande erro, porque estão pensando somente como homens e não como o Senhor quer”.

“Qual o sentido de publicar escritos contra o papa, que não prejudicam ele, e sim as pessoas comuns? O que um membro da direita, encerrado em certos pontos, realiza? Nada! As pessoas comuns estão com o papa, isso está bem claro”, disse Maradiaga. “Vejo esse apoio em todos os lugares”.

“Estes que são orgulhosos, arrogantes, que acreditam ter um intelecto superior (...) pobres pessoas! O orgulho é também uma forma de pobreza”, completou.

“O maior problema, no entanto, é a desorientação que se cria entre as pessoas quando elas leem afirmações de bispos e cardeais contrárias ao Santo Padre”, continuou.

Maradiaga convidou à lealdade os seus companheiros cardeais: “Acho que uma das qualidades que nós cardeais [deveríamos ter] é a lealdade. Mesmo se não pensemos todos da mesma forma, ainda sim temos de ser leais a Pedro”. Segundo ele, quem não apresenta esta lealdade “está só em busca de atenção”.

Embora sejam raros choques públicos assim entre cardeais, eles não são inéditos.

Nos anos sob o comando de Bento XVI, por exemplo, o Cardeal Christoph Schönborn, de Viena, sugeriu publicamente que o cardeal italiano Angelo Sodano, que trabalhou como secretário de Estado sob João Paulo II, tinha bloqueado uma investigação com base em acusações de abuso sexual contra o antecessor de Schönborn, o Cardeal Hans Hermann Gröer.

Nesta ocasião, Bento chamou os dois cardeais para uma sessão de restauração, entre outras coisas lembrando-os que “quando se fazem acusações contra um cardeal, a competência recai exclusivamente sobre o papa”.

Maradiaga ainda pareceu sugerir que Burke pode ter ficado desapontado com o resultado do conclave de março de 2013 que elegeu Francisco.

“Os candidatos papais que os outros queriam permaneceram no lugar, enquanto aquele que o Senhor quis é o que se elegeu”, disse. “Portanto a dissensão é lógica e compreensível, [porque] não podemos todos pensar do mesmo jeito”.

“Todavia”, continua Maradiaga, “é Pedro quem lidera a Igreja e, portanto, se temos fé, devemos respeitar as escolhas e o estilo do papa que veio do fim da terra”.

Essa não é a primeira vez que Maradiaga ataca um companheiro cardeal tido como conservador. Em 2014, ele propôs que o chefe do dicastério doutrinal vaticano, o cardeal alemão Gerhard Müller, fosse “um pouco mais flexível” durante uma entrevista ao jornal alemão Koelner Stadt-Anzeiger.

Maradiaga falou que Müller “vê as coisas em termos de preto e branco”, acrescentando que “o mundo não é assim, meu irmão”. Maradiaga igualmente acusou o prelado alemão de só dar ouvidos ao seu grupo de assessores, e não ouvir “outras vozes”.

Enquanto isso, Sarah, nomeado por Francisco em novembro de 2014 como prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, vem sendo alvo de críticas lançadas por círculos mais progressistas em decorrência de suas opiniões tradicionais sobre o culto católico.

Em abril, por exemplo, ele proferiu uma palestra no 10º aniversário do documento de Bento XVI intitulado Summorum Pontificum, que autorizava a celebração regular da antiga missa latina, onde Sarah falou de uma “crise grave, profunda” na Igreja causada, em parte, por mudanças litúrgicas posteriores ao Concílio Vaticano II, em meados da década de 1960.

“Ainda hoje, um número significativo de lideranças eclesiais subestima a grave crise que a Igreja atravessa”, declarou Sarah, incluindo o “relativismo na doutrina, o ensino moral e disciplinar, graves abusos, a dessacralização e a trivialização da Sagrada Liturgia, e uma visão meramente social e horizontal da missão da Igreja”.

Um analista progressista caracterizou Sarah em sua nostalgia por uma “era de ouro” ultrapassada.

No entanto, num posfácio a um livro de Sarah, Bento XVI diz que a liturgia está “em boas mãos” com o cardeal guineense, e o elogia pela vida de oração que leva.

Sarah, escreve Bento, fala “a partir das profundezas do silêncio com o Senhor, a partir da sua união interior com ele e, portanto, de fato tem algo a dizer a cada um de nós. Devemos agradecer ao Papa Francisco por nomear um tal mestre espiritual para prefeito da congregação responsável pela celebração da liturgia na Igreja”.

A última frase do prefácio é: “Com o Cardeal Sarah, mestre do silêncio e da oração interior, a liturgia está em boas mãos”.

O livro se chama “The Power of Silence: Against the Dictatorship of Noise” (O poder do silêncio: contra a ditadura do barulho), e é publicado pela Ignatius Press.

O voto de confiança de Bento é ainda mais impressionante visto que, quando renunciou ao papado em fevereiro de 2013, prometeu permanecer “oculto para o mundo”, e raras vezes desde então rompeu este seu silêncio. O fato de ele escolher assim fazer hoje, dizem alguns analistas, reflete tanto a sua paixão pela liturgia quanto o seu apoio a Sarah.

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