Suicídio assistido. O adeus revolucionário a Fabo na Igreja

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13 Março 2017

Há milhares de contradições na noite dessa sexta-feira, 10, em que Milão fez sua última saudação ao DJ Fabo, Fabiano Antoniani, cego e tetraplégico há dois anos por causa de um acidente, que faleceu na segunda-feira, 27 de fevereiro, em uma clínica suíça com o suicídio assistido.

A reportagem é de Silvia Truzzi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 11-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Há a dor contra a natureza de uma mãe que deve dizer adeus ao seu filho; há a Igreja que acolhe um homem que escolheu morrer; há a coragem sem fôlego de Valeria, a namorada que ficou ao seu lado sempre e a que cabe hoje a recordação mais desumana; há a dimensão pública do mais privado dos momentos, a dificuldade de estar no meio dos outros quando ninguém sabe o que você se sente; há a explosão de alegria dos fogos de artifício depois de uma cerimônia fúnebre; há a política presente (Marco Cappato que acompanhou Fabo na Suíça e a mãe, Carmen, na paróquia, mas também o prefeito Sala) e a ausente, aquele que esquece imediatamente e não sabe dar respostas.

Porém, não podia ser de outra forma: todo esse enorme e inaceitável sofrimento – os incompreensíveis cruzamentos da existência –, a complexidade das perguntas que Fabo fez ao mundo antes de ir embora com uma mordida no botão vermelho da eutanásia, tudo isso devia estar dentro da paróquia onde Fabo tinha sido batizado, há 40 anos.

A Sant’Ildefonso estava lotada – os alto-falantes do lado fora para aqueles que não conseguiam entrar – de amigos, mas acima de tudo de pessoas. Uma comunidade composta e silenciosa, nem por isso menos importante. Muitos idosos, diversas as cadeiras de rodas dos deficientes e os carrinhos de bebê, um deles com um minúsculo bebê com os seus pais, que se fez sentir com um grito imenso e arrancou mais de um sorriso enternecido, enquanto os bancos ficavam cheios.

Valeria leu as suas últimas palavras para Fabo com a voz firme, naquilo que se pode nesses momentos, e uma dignidade dificilmente descritível. Mas ele lhe disse: “Pense que, na palma da sua mão, eu me senti vivo”, e não é um compromisso que se possa ignorar.

O infeliz ao qual o destino reservou como destino a tortura das carnes está suspenso entre o ódio e o perdão, a única – a última – escolha é entre odiar e perdoar quem está torturando você. Fabo sofria porque alguns amigos tinham se afastado depois do acidente: “Falamos muitas vezes, e repetidamente ele me disse para ler estas palavras e explicar a todos a amizade. Explicar essa escolha de ódio e de amor pelas pessoas que estiveram presentes, mas depois se afastaram”.

Há um último pedido a cumprir: “Por fim, ele me pediu para colocar uma canção. Para sorrir e brindar, e não ficar triste. Em vez disso, eu lhe digo, mesmo que você fique bravo, tchau, filhotinho de cachorro”.

Para quem lê, o fato de contar parece violar a intimidade da dor. Mas, nessa sexta-feira, nessa pequena paróquia de Milão, aconteceu algo revolucionário. Mina Welby, esposa de Piergiorgio, entendeu isso, ela que veio de Roma: “Desta vez, a Igreja faz expressamente um ato público de acolhida, até mesmo de consolação. Naquela época, ela o fez silenciosamente, privadamente”.

A Cúria de Milão tinha avisado que esse momento de oração pedido para Fabo pela mãe tinha sido concedido para participar da sua dor e de todas as pessoas às quais ele era querido. Tinha-se dito: não será uma comemoração, mas um momento de reflexão.

Mas não: foi um funeral, só que um pouco mais breve. O Pe. Antonio teve que – e conseguiu – caminhar sobre o fio entre dois mundos, enquanto rezava o Pai Nosso, enquanto dizia: “Espero que Fabo encontre Deus”. Não foi uma missa, mas uma longa oração. E um sinal de paz.

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