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30 Maio 2016

Jean-Bosco Kakozi parte da metafísica africana para entender o racismo e, a partir dela, pensar em linhas de fuga para a desigualdade racial

Muitas reflexões acerca do racismo trazem como questão de fundo uma perspectiva xenofóbica, em última análise, a não aceitação do outro. É, por exemplo, a atualização dessa perspectiva na relação com imigrantes, pois são vistos como intrusos, quando na verdade quem os “recebe” é incapaz de assumir o drama do povo como também um drama seu. O professor nascido no continente africano, no Congo, Jean-Bosco Kakozi Kashindi olha para essas questões raciais desde os princípios do Ubuntu, que pode ser apreendido como uma metafísica africana. Para ele, entre as inúmeras definições, Ubuntu pode ser compreendido como a humanidade do ser. Ou, como prefere, “a abstração das pessoas no conjunto de suas humanidades”. “É a ideia de que minha humanidade está ligada à sua. Logo, ‘eu sou porque somos’”, explica, ao mergulhar no princípio do reconhecimento do outro, tão forte na lógica do Ubuntu.

Fotos: João Vitor Santos/IHU
Porém, o que Ubuntu pode responder a reflexões em torno do racismo? A questão norteou as discussões da conferência proferida por Kakozi, ocorrida no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, na quarta-feira, 25-05-2016. Em “A dimensão ético-política de Ubuntu: Uma proposta para a superação do racismo em 'nuestra América'”, o professor destaca o postulado ético-político da metafísica africana. “Se no Ubuntu a pessoa é pessoa através dos outros, a perspectiva de humanidade vem sempre primeiro”, pontua. É uma forma de conferir sentido à máxima dessa cultura que diz que é preciso ‘ignorar a vaca e salvar o ser humano’. “Vaca, na cultura africana, é sinônimo de riqueza. Ignorar a vaca é abrir mão da riqueza em favor do ser humano. Não se pode conceber essa busca desenfreada por riqueza passando por cima das pessoas”, explica.

Ao conferir esse valor à relação entre os humanos para constituir suas humanidades, Ubuntu não despreza qualquer ser humano. É como se todas as pessoas, e suas humanidades, tivessem valor e fossem fundamentais para formação dessa humanidade, ou se preferir, para constituição da nação, do povo. Para compreender isso melhor, Kakozi recorre a outra analogia. “A soberania de um rei, por exemplo, deriva e pertence aos seus súditos. Se o rei não entende as necessidades de seus súditos, já não é mais seu rei. Por isso a sua soberania depende do reconhecimento dos súditos”. Ou seja, para Ubuntu, nenhum ser humano é considerado inútil, pois todos são fundamentais para que componham a tessitura das inúmeras conexões entre a humanidade. “Todo ser humano tem valor, nem o louco deve ser desprezado”, reitera Kakozi.

Olhar sobre o racismo

 
Kakozi entra na perspectiva do racismo ao lembrar que “nenhum estudo sério sobre o racismo pode afirmar que raça existe. Mas o racismo existe e se precisa dele para entender o conceito de raça”. O que o professor evidencia é sua perspectiva sobre o racismo a partir da inspiração do Ubuntu. Se a humanidade de cada um se faz na relação com o outro, o conceito de raça se esvai, se desfaz. Questões como “o que é raça?” e “qual é sua raça?” parecem perder o sentido.

Para elucidar sua elaboração, o professor lembra o caso de um brasileiro de origem germânica que é visto dentro do país como branco. Sai do Brasil e ao chegar na Alemanha é visto como latino. É o mesmo caso de um negro que, dentro da sua cultura nativa na África não se vê negro. Só passa a ter essa perspectiva em outros lugares. Assim, qual é a raça de cada um? Difícil prender esse conceito e se anunciar de uma raça, quando essa raça se constituirá no contato com os outros, que muda de lugar para lugar. “Por isso, afirmo que raça é um conceito polissêmico e instável que vai se ressignificando desde a Antiguidade”, completa Kakozi.

E é dessa ressignificação que o conceito de raça vai se associando com a ideia de limpeza, pureza. “E vemos isso lá no Concílio de Toledo, quando marca os que têm descendência de mouros ou judeus. Esses não poderiam ascender socialmente se não fossem cristãos puros. É essa perspectiva teológica que vai ressignificando a ideia de raça pura”, explica. Para ele, é o que está por trás e que se perpetua na América. “Para ascender na universidade ou em castas mais nobres, não se pode ser negro ou índio e sim, puro, sem essas raças”.

Chega-se no século XIX com o racismo mais concretizado, o que o professor chama de um “racismo mais científico” reforçado pelo positivismo e darwinismo social. “É essa ideia de que, na natureza, é sempre o mais forte que ganha. O mais forte é sempre o mais puro, que acaba eliminando os outros, as mesclas e as misturas”, completa.

Linhas de fuga

Assim, o professor Kakozi chega à elaboração de que “o racismo pode ser visto como a negação da humanidade dos povos”. Ou seja, é quando não se vê o humano pela humanidade do outro. Para buscar essa reparação mais ampla e superação da negação da humanidade dos povos é preciso políticas afirmativas de inserção. Experiências existem. Ele lembra, por exemplo, que na África do Sul há políticas de reparação como forma de reconciliação, e no Brasil há políticas afirmativas, como as de cotas. “Mas qual o problema que vejo: é política vertical, não elaborada por quem vai usar essas políticas”, aponta.

Kakozi: “Dar dinheiro ajuda, repara, mas não em todos os

outros âmbitos do ser humano”


Para Kakozi, a negação só pode ser superada com a restauração do humano em sua plenitude. Isso é não apenas empregar a política afirmativa e acreditar que vai resolver tudo. “Dar dinheiro ajuda, repara, mas não em todos os outros âmbitos do ser humano”, completa. Outra saída, para o professor, é radicalizar no diálogo de saberes, na interculturação, respeitando todas as formas de cultura e se encontrar enquanto humano a partir de todas elas. “É se dar conta de que nenhum ser humano é inútil”. Radicalizar também nas políticas para torná-las permanentes pode ser outro caminho. Kakozi reconhece a importância de muitas delas, mas aponta que muitas surgem de forma efêmera. Por fim, indica a necessidade de interferência universal e transversal do Estado. Ou seja, é agir mesmo e forçar esse reconhecimento mútuo entre as humanidades. “O Estado tem papel fundamental nesse movimento e deve agir, sim, pois o racismo se estabelece e se dá desde o Estado”, finaliza Kakozi. ■

Jean-Bosco Kakozi

É natural da República do Congo, onde se graduou em Filosofia e Ciência Humanas. Especializou-se em Religião, no Centre de Formation Missionnaire Notre Dame d’Afrique, na cidade de Bukavu (República Democrática do Congo). Realizou mestrado em Estudos Latino-americanos pela Universidade Nacional Autônoma do México – UNAM. É doutor em Filosofia e Ciências Humanas na cidade de Bukavu. Sua pesquisa é referente ao Ubuntu na África do Sul (Joanesburgo) na Universidade de Witwatersrand. Atualmente é pós-doutorando no Programa de Pós-graduação em Direito na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, São Leopoldo. 

Por João Vitor Santos

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