Na Coreia do Norte, arroz apodrece por falta de transporte e saciar fome é luxo

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22 Dezembro 2011

Na Coreia do Norte, o Programa Alimentar Mundial e ONGs tentam remediar – com alguns sucessos – a desnutrição de todo um povo, devido a uma organização agrícola delirante e à cobiça dos privilegiados.

A reportagem é de Philippe Pons, publicada pelo jornal Le Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 22-12-2011.

Sobre um milhar de hectares de pequenos vales, a perder de vista, jovens macieiras com troncos envolvidos em palha se alinham perfeitamente. Esse imenso pomar cercado, cujas primeiras colheitas são esperadas para 2012, se situa 30 quilômetros ao norte de Pyongyang. Ele é acompanhado de uma criação de porcos e de outra de tartarugas, ambas informatizadas e novinhas em folha. A fazenda do Estado de Daedonggang é um “bolsão” inesperado de desenvolvimento agrícola, em um país que sofre uma grave escassez alimentar. Remediar a deterioração das condições de vida da população, chocada com a morte do dirigente Kim Jong-il e preocupada com suas consequências, será a prioridade da nova equipe dirigente.

O Programa Alimentar Mundial (PAM) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) relatam um crescimento de 8,5% na safra de 2011, ao mesmo tempo enfatizando a persistência da desnutrição entre as camadas vulneráveis da população (crianças, gestantes, idosos), ou seja, 3 milhões de pessoas entre 24 milhões (nos relatórios anteriores, o PAM e a FAO apresentaram o número de 6 milhões). O déficit alimentar será este ano de 739 mil toneladas (1 milhão em 2010). “A situação alimentar continua crítica”, avaliou, duas semanas atrás, em Pyongyang, Ri Ho-rim, secretário-geral da Cruz Vermelha norte-coreana.

Ao longo dos 240 quilômetros de via férrea entre Pyongyang e Sinuiju (na fronteira com a China), cruza-se com trens carregados de sacos de arroz. A Coreia do Norte importa 320 mil toneladas de grãos e recebe ajuda da China, cujo volume se desconhece. Falta encontrar 400 mil toneladas para atingir os 5,4 milhões necessários à sobrevivência da população.

Dos US$ 200 milhões em ajuda pedidos pelo PAM, um terço foi coberto. No final da primavera, as rações caíram para 200 gramas de cereais por dia e por pessoa (ou seja, um terço do mínimo necessário). Aqueles que dispõem de dinheiro têm acesso aos mercados, mas os outros dependem do sistema público de distribuição.

À insuficiência quantitativa se soma o desequilíbrio nutricional. Especialistas estrangeiros falam em uma “geração perdida”: crianças cuja altura é inferior à média, para sua idade, constatada na Coreia do Sul, ou que podem sofrer efeitos psíquicos devidos à desnutrição. Em 2009, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estimava que nas remotas províncias do Norte, 45% das crianças menores de 6 anos estavam subalimentadas. A situação não mudou. No hospital de Junghwa, na província agrícola de Hwanghae do Norte, “os casos de crianças subalimentadas dobraram em um ano”, segundo o médico-chefe, Chang Gil-nam. Em 2001, a Unicef recebeu um quarto da verba pedida.

Há projetos europeus que tentam aliviar a falta de vitaminas entre as crianças. É o caso da fazenda de Pongsu na periferia de Pyongyang, desenvolvida sob a supervisão da Unidade 4 do programa de apoio europeu – que não é nada menos que a organização alemã Welthungerlife, uma vez que as ONGs não estavam mais presentes na Coreia do Norte com esse nome. A produção de tomates e de pepinos em estufas alimenta prioritariamente 28 jardins de infância, bem como a população do cantão (80 mil pessoas). O projeto se autofinancia, explica o mestre de obras, Karl Fall: “Nós também produzimos morangos – um luxo aqui – vendidos para a elite e os estrangeiros. Com essa receita, tocamos a fazenda.” Próxima etapa: “O fechamento do ciclo de produção, com a criação de peixes: a água das bacias fornecerá adubos orgânicos.”

“Trabalhar aqui é um desafio, mas as pessoas fazem o melhor que podem dentro das limitações”. Em dez anos, a Unidade 4 construiu 600 estufas com energia solar. Na mesma linha, a Unidade 5 (a ONG francesa Triangle) recupera fazendas de laticínio nas províncias de Pyongan do Sul e de Hwanghae do Norte, bem como uma fazenda piscícola em Hamgyong do Sul: serão beneficiadas 15 mil e 19 mil crianças, respectivamente.

Apesar desses projetos modelos e do enorme esforço humano exigido do campesinato para remediar uma mecanização ineficaz, todos os anos a Coreia do Norte se encontra à beira da fome – como aconteceu em 1995-1998 (mais de 600 mil mortos). Somente 20% das terras são aráveis e as plantações param no limite das estradas ou do lastro das vias férreas para avançar nas colinas (provocando um desmatamento alarmante também devido à busca de lenha para enfrentar invernos siberianos). Ao longo das estradas, e nos parques no caso das cidades, mulheres agachadas colhem ervas comestíveis. As culturas “particulares” legais ou ilegais aliviam a falta de alimentos, mas não a diminuem.

Em busca de uma utópica autossuficiência, a Coreia do Norte se lançou nos anos 1970 em uma cultura intensiva que necessita de energia e fertilizantes químicos. Após o colapso da URSS e as mudanças da China, esses abastecimentos em condições privilegiadas foram interrompidos. A falta de energia possui outro efeito: 20% das colheitas são perdidas. No fim de novembro, nos arrozais congelados, pilhas de cereais apodreciam por falta de transporte.

O PAM e a FAO observam melhorias (mais adubos, melhor fornecimento de energia), mas o rendimento dos arrozais é 60% menor que na Coreia do Sul. Enquanto o regime não puser um fim ao seu isolamento, a população ficará subalimentada e dependerá de ajuda internacional. Mas os doadores estão reticentes: a ajuda não iria para as populações carentes. No passado, parte dela foi desviada: “dedução” feita pelo exército; venda nos mercados. Certas categorias sociais, “culpadas” de atitudes “antipartido”, são punidas... Sem negar esses acontecimentos, os especialistas em Coreia do Norte americanos ou sul-coreanos se dividem quanto à sua extensão.

Em 2011, o PAM implantou um monitoramento rígido sobre a distribuição da ajuda: seus especialistas que falam coreano podem ir a qualquer lugar, sem aviso prévio, para garantir que os alimentos cheguem a seu destino. Um sistema informático em três cidades permite acompanhar o encaminhamento do auxílio. “Nós fizemos esforços, mas o PAM só recebeu um terço daquilo que ele pedia. O que pensar disso?”, pergunta um alto funcionário.

A atitude dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, que denunciam desvios das ajudas ou minimizam a gravidade da situação, tem relação com as reticências dos países doadores. Seul e Washington afirmam que sua assistência não é associada a considerações políticas, o que é contestado por ONGs americanas como a Mercy Corps.

Após várias evasivas, no dia 16 de dezembro, véspera da morte de Kim Jong-il, Pyongyang e Washington chegaram a um acordo: em troca da suspensão de seu programa de enriquecimento de urânio, a Coreia do Norte receberia 220 mil toneladas de produtos destinados a combater a desnutrição (vitaminas, leite para os recém-nascidos, biscoitos enriquecidos com proteína). Se esse acordo for oficializado, será a primeira vez em três anos que os Estados Unidos voltarão a fornecer auxílio alimentar para a Coreia do Norte.

Independentemente das responsabilidades políticas, boa parte da população norte-coreana está sofrendo. Muitas incertezas pairam sobre o futuro do país, mas, nesse ponto, quando se olha certos rostos e se visita hospitais e escolas, não se pode mais ter dúvidas.

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