Um ensaio de teologia fundamental pós-moderna

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

10 Mai 2012

O teólogo dominicano mexicano, professor da Faculdade de Teologia da Cidade do México e de Friburgo, na Suíça, Carlos Mendoza-Álvarez, publicou pela editora du Cerf, de Paris, o livro Deus absconditus. Désir, mémoire et imagination eschatologique. Essai de théologie fondamentale postmoderne (Deus escondido. Desejo, memória e imaginação escatológica. Ensaio de teologia fundamental pós-moderna, em tradução livre da IHU On-Line).

Publicamos aqui o prefácio desse livro, escrito pelo teólogo italiano Rosino Gibellini, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e em filosofia pela Universidade Católica de Milão. O texto foi publicado no blog Teologi@Internet, 08-05-2012.

Eis o texto.

O livro do jovem teólogo mexicano Carlos Mendoza traz um título, Deus absconditus, que já indica in limine libri um estilo teológico, que procede com discrição, renunciando a toda a segurança argumentativa e totalizante, em busca do mistério inefável (e confiável), que é "o segredo" escondido do mundo (Jüngel). Pratica-se, assim, um estilo teológico que persegue a verdade, entendida como "evento discreto" (Duquoc).

O estudo se apresenta como um ensaio de teologia fundamental, que não pretende entrar no tratamento dos conteúdos individuais da revelação cristã – tarefa delegada a uma dogmática (Barth), ou teologia sistemática (Tillich). Trata-se de uma teologia fundamental, que não se autocompreende como um sistema defensivo do cristianismo, mas que se interroga sobre como dizer Deus no nosso tempo, caracterizado por figuras culturais contrapostas, o secularismo e niilismo, de um lado; o retorno do religioso, de outro.

Deriva daí que a exposição se divide claramente em duas partes: a primeira, que compreende os primeiros quatro capítulos, é diagnóstica da situação cultural (Tillich), em que vivemos no início do novo milênio; e a segunda, constituída pelo quinto capítulo conclusivo, propõe as linhas da novas teologia fundamental.

A primeira parte faz-me lembrar de um célebre artigo do teólogo católico norte-americano David Tracy, On Naming the Present (1999), "Sobre nomear o presente", na tentativa de situar a mensagem cristã no nosso tempo. Segundo a detalhada e documentada análise do presente estudo, o tempo em que vivemos é caracterizado como modernidade tardia (Habermas), ou também como pós-modernidade (Lyotard), ou tempo do fragmento (Derrida).

A análise da situação cultural não é realizada sob o registro de uma crítica indiferenciada e censória das tendências do nosso tempo, mas sim na tentativa de identificar – se diria – os "pontos de inserção" (categoria elaborada pelo culto teólogo de Zurique, Brunner, na sua polêmica com Barth) da palavra da fé.

De um lado, o retorno do religioso é interpretado como retorno ao espiritual, no sentido de abertura a uma outra dimensão da realidade. Do lado oposto, o niilismo do secularismo é interpretado como expressão de um pensamento fraco (Vattimo), que é crítico a todas as formas de totalitarismo, está atento às diferenças, pratica a desconstrução (Derrida, Nancy) e se abre, na sequência de Levinas, ao Outro, aos outros, a histórias outras, censuradas pelas pretensões totalizantes da racionalidade moderna: esta é a nova possibilidade de um "retorno de Deus" – não de um Deus pensado a partir do eu, mas sim do Deus da revelação (a ser interpretado segundo uma hermenêutica apropriada: Ricoeur, Schillebeeckx) – na pós-modernidade.

No capítulo final, são apresentadas as linhas de uma nova teologia fundamental no tempo da pós-modernidade como disciplina de fronteira entre fé e razão. Ela se articula sobre três palavras-chave (Stichworte, na linguagem de Adorno), a saber: memória, desejo, imaginação escatológica, que são enunciadas no subtítulo da obra.

"Memória" recupera a categoria ilustrada pela teologia política europeia (Moltmann e Metz), dilatada à memória das vítimas, aprofundada pela teologia da libertação (Gutiérrez, Dussel, Jon Sobrino). "Desejo" é a categoria introduzida pelo filósofo René Girard, e o livro representa uma primeira utilização teológica da obra do antropólogo francês (de grande interesse, nesse sentido, é o Anexo final, que reproduz uma entrevista teológica com Girard, que responde a questões teológicas específicas do autor deste livro). "Imaginação escatológica" como visão de um mundo reconciliado e de uma criação nova recupera toda a linha do repensamento da escatologia, realizado pela teologia do século XX.

A nova teologia fundamental, proposta nas suas projetuais gerais neste livro culto, escrito por um teólogo da nova geração, se propõe a mostrar a pertinência da fé no tempo da pós-modernidade, não tanto confrontando-se principalmente com a razão crítica da modernidade, como em Rahner, ou com a razão prática pós-iluminista, como em Metz, mas sim com a razão fraca pós-moderna, praticando a teologia como conversação, na linha de Peukert, Tracy e Duquoc, em busca da possibilidade de uma nova expressão do cristianismo, em termos de gratuidade, doação e koinonia.