''A raiva social alimenta fanatismo e intolerância religiosa''

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02 Maio 2012

"Consternação e dor por essas vítimas inocentes de um ódio que não pode ser explicado apenas em termos de uma 'guerra religiosa' travada pelos muçulmanos contra as comunidades cristãs. São esses sentimentos que se sentem diante das notícias que vêm da Nigéria e do Quênia. Mas esses sentimentos não devem impedir que se vá até o fundo desses trágicos acontecimentos e não se contente com conclusões fáceis ou com títulos sensacionalistas: é dever de todos tentar entender".

A reportagem é de Umberto De Giovannangeli, publicada no jornal L'Unità, 30-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essa é a opinião do padre Nandino Capovilla, coordenador nacional da Pax Christi, organização de vanguarda no diálogo e nas iniciativas pela paz e contra o rearmamento. "É uma vergonha – destaca Pe. Capovilla – que a África seja um dos mercados mais cobiçados pelos traficantes de armas. Muitas vezes, esses massacres são realizados com armas que vêm do 'civilizado' e democrático Ocidente, que não tem escrúpulos de fazer negócios com os senhores da guerra e com os semeadores da morte".

Eis a entrevista.

Um domingo de sangue nas igrejas cristãs da África. Estamos em um novo e trágico capítulo de uma guerra religiosa?


Muitas vezes, nos acostumamos com títulos sensacionalistas que gritam nas primeiras páginas: matança de cristãos... ódio dos muçulmanos contra os fiéis de Cristo.

O que não lhe convence nessa leitura dos acontecimentos?

A preguiça intelectual, a superficialidade nas análises, o fato de sermos prisioneiros, conscientemente ou não, de um maniqueísmo para o qual o Islã é sinônimo de intolerância, de ódio para qualquer pessoa que professe outras religiões. Mas a realidade, na África e no Oriente Médio, é muito mais complexa, uma realidade que põe em causa o Ocidente, a sua dupla moral.

Em que sentido isso nos põe em causa?

Muitas vezes, os governantes sem escrúpulos ou regimes liberticidas tentam encobrir seus próprios maus feitos orientando a raiva das massas desesperadas contra o que é indicado como o "inimigo" a ser atingido, a fonte dos seus males: nesse caso, os cristãos. Demonizar os cristãos serve para que esses regimes encubram a sua própria falência social, além de moral. Pensando na Nigéria, serve para obscurecer o fato de que, em um país rico em matérias-primas, esteja tão difundida a pobreza, a marginalização. Os cristãos são o cordeiro sacrificial contra o qual se deve jogar uma raiva que tem pouco ou nada de religioso e muito, muito de uma devastação social desejada por uma elite empresarial restrita.

Pois bem, muitas vezes, muitas vezes mesmo, esses regimes são considerados pelo democrático Ocidente como o "mal menor" com relação ao bicho-papão integralista, e também muitas vezes são referências para desenvolver negócios sujos, como é o caso da venda de armas a regimes que as usam para reprimir com sangue as manifestações de protestos ou para armar esses grupos integralistas que só aparentemente são antirregime. A religião tem sido usada por algumas pessoas como instrumento para objetivos políticos ou econômicos. Não devemos cair na armadilha de quem instrumentaliza a fé para fins de poder e de enriquecimento. Devemos ter a força para ir contra a dor e unir as vozes dos mais fracos, as primeiras vítimas de regimes que têm apenas interesse para levantar muros de ódio.

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