Messianismo e política. Uma leitura de Giorgio Agamben

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14 Outubro 2013

Fotos: Caio Coelho

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU recebeu na noite da quinta-feira, 10-10-2013, o Prof. Dr. José Antonio Zamora Zaragoza, do Instituto de Filosofia do Conselho Superior de Pesquisas Científicas – CSIC, para a conferência Messianismo e política: Paulo e a questão do tempo em Giorgio Agamben. O evento integra o ciclo de debates O pensamento de Giorgio Agamben: técnicas biopolíticas de governo, soberania e exceção e ocorreu na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros no IHU.

Zamora encerrou o dia de intensos debates, que começou com reflexões sobre as temáticas da biologia sintética, abordando o pensamento de Giorgio Agamben a partir de uma perspectiva mais teológica, sob as lentes do apóstolo Paulo, também conhecido como Paulo de Tarso. Entretanto, antes de entrar mais profundamente nas questões de Paulo, estabeleceu uma relação entre Agamben e outros autores como Walter Benjamin, Martin Heidegger e Carl Schimitt. “É interessante pensar qual hierarquia há entre os autores que Agamben estuda. Qual a matriz mais importante? Penso que a mais importante está em Heidegger”, avalia o conferencista. Zamora chamou atenção para o fato de Agamben ter sido um dos escolhidos a participar no seminário de Heidegger, entre 1959 e 1969.

Topologia conceitual

“Se temos uma topologia conceitual, chama atenção que podíamos organizar um quadro de opostos. Entre figuras que podemos chamar de negatividade - de horror – e figuras messiânicas – de esperança. Nesse sentido, é interessante pensarmos a palavra alemã gewalt significa violência, mas também significa poder”, salienta Zamora.

Para ele, é interessante termos em conta no pensamento de Agamben uma certa dualidade que lhe parece singular. “Esse dualismo está organizado por uma semelhança estrutural e, ao mesmo tempo um intenso contraste. Em geral sempre entendemos que o ato realiza a possibilidade, mas na potência há coisas que não passam pela atualização”, explica o professor. “A relação que Agamben estabelece entre as figuras de horror e messiânica, pretende recuperar nas figuras de horror a potência positiva que não foi atualizada. Não se trata de uma relação de opostos e por isso há entre as duas imagens semelhanças e constrastes”, complementa.

Paulo e a lei

Para Zamora, Agamben se inspira na tese de Walter Benjamin para refletir sobre o Estado de exceção, que, historicamente, para os oprimidos o Estado de exceção é a regra. “Temos que alcançar um conceito de história que corresponda a isso. Então se entenderá o verdadeiro Estado de exceção. Isto é, o que nós consideramos Estado de Direito, é o estado de exceção para os oprimidos”, esclarece. “Agamben interpreta o estado de exceção como a suspensão das leis. O Estado de exceção se reconhece pela suspensão do direito”, completa.

O professor explicou que Paulo faz uma distinção entre a lei pagã e a lei judia. “Agamben diz que Paulo introduziu uma nova distinção. O judeu que estava com a lei e o pagão fora dela. Essa divisão gera um resto que não é uma parte, mas a impossibilidade de qualquer parte a chegar a si mesmo”, avalia. “Se pensarmos um sujeito político em sua identidade, o que vamos fazer é reproduzir a lógica do direito e da soberania. Isso nos conduz a Auschwitz, aos campos de concentração”, destaca.

 

Sujeito político

O professor ressaltou que, na concepção de Paulo, ser cristão é ser judeu sem ser judeu e ser pagão sem ser pagão. Isso representaria um contraponto à exclusão includente, ao negar a própria inserção nos dispositivos de poder.

“O sujeito político se constitui subtraindo aos processos das formações sociais que lhes atribuem um lugar social simbólico. Ou seja, eu sou excluído de um marco de ordem e reclamo meu direito de pertencer a tal ordem. Isso é uma contradição. O sujeito político como resto signfica sair dessa lógica de integração".

Suspensão das leis e do tempo

“A mensagem de Paulo não é o anuncio da suspensão da lei e muito menos um novo código de mandatos. Não se trata de oferecer uma nova identidade, um novo desempenho, mas a suspensão de todas as identidades. A vinda do messias representa uma completa suspensão das categorias legais e destituição do estatuto político, mas para estabelecer uma forma messiânica de ‘como não’, de usar messianicamente a velha identidade”, frisa o conferencista. Para Zamora, todo esse processo produz uma tensão escatológica.

Já em relação ao tempo, o professor explicou que o conceito de tempo em Paulo corresponde a um tempo comprimido. “Trata-se da remissão da remissão. O tempo messiânico não é o cronológico, nem o da salvação, mas o tempo que resta, que é uma forma de viver na relação com o tempo que expressa o termo kairós. É isso que permite o messianismo da figura despida de si”, esclare Zamora.

Quem é Jose Antonio Zamora Zaragoza

José Antonio Zamora Zaragoza é professor no Instituto de Filosofia do Conselho Superior de Investigações Científicas – CSIC da Espanha; é autor de, entre outros, Theodor W. Adorno: pensar contra la barbarie (Madri: Trotta, 2004) e Ciudadania, multiculturalidad e inmigración (Navarra: Verbo Divino, 2003). Estudou Filosofia, Psicologia e Teologia na Universidade Pontifícia de Comillas, em Madri. Doutorou-se na Universidade de Münster, na Alemanha, com uma tese sobre Theodor Adorno, orientada por Johann Baptitst Metz

Para ler mais:

- Leituras políticas de Paulo de Tarso. Análise de José Antonio Zamora, Cadernos Teologia Pública, no. 53, disponível em http://bit.ly/zamora190711

- A memória, uma categoria central do cristianismo. Entrevista com José Antonio Zamora, revista IHU On-Line, no. 352, disponível em http://bit.ly/zamora352

- Biopoder e o instante eterno. Entrevista com José Antonio Zamora,  revista IHU On-Line, no.343, disponível em http://bit.ly/zamora343

- Walter Benjamin e o império do instante. Entrevista com José Antonio Zamora, revista IHU On-Line, no. 313, disponível em http://bit.ly/zamora313

- O império do instante e a memória. Entrevista com José Antonio Zamora, de 01-11-2009, disponível em http://bit.ly/dia11109 

(Reportagem de Ricardo Machado)

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