Numa Molina, o jesuíta bolivariano

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23 Maio 2014

"O socialismo venezuelano é o que há de mais próximo do Evangelho que eu já tenha encontrado na América latina. Não abandonarei esse caminho que o povo começou." É o que diz o jesuíta Numa Molina, 57 anos, pároco da igreja San Francisco de Caracas.

A reportagem é de Geraldina Colotti, publicada no jornal Il Manifesto, 21-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Teólogo e jornalista, estudou na Universidade Gregoriana, onde para todas as vezes em que volta para Roma. Encontramo-lo durante a sua recente viagem ao Vaticano com a delegação do governo venezuelano, que veio para assistir à canonização do Papa João XXIII e de Wojtyla.

Eis a entrevista.

Padre Numa, como o senhor se encontrou com o socialismo bolivariano? O que o motiva a se inclinar por um governo que as hierarquias católicas veem como a pedra no sapato?

Eu acompanhei as escolhas da parte mais pobre do país, à qual pertenço. A minha família é de agricultores de Mérida, na fronteira com a Colômbia. Eu recebi uma educação profundamente católica. Durante a Quarta República, vi minha mãe morrer no parto porque não havia um único médico no vilarejo, os camponeses não contavam para nada.

Aos 14 anos, eu estava envolvido na luta social, não pensava em me dedicar ao sacerdócio. Depois, eu me tornei professor e conheci alguns jovens universitários cristãos, que ajudavam as crianças engraxates. Trabalhei com elas, olhando no rosto a insuportável pobreza provocada pelo neoliberalismo dos anos 1980. As crianças, então, comiam as comidas enlatadas para cachorro, as mães as diluíam com água na garrafa. Não quis mais ficar fechado dentro de uma sala de aula, pensei que o meu caminho era outro, mas ainda não via qual. O meu primeiro voto foi dado ao Copei [Comitê de Organização Política Eleitoral Independente]: porque ele se definia como um partido social-cristão, mas também porque incluiu a Juventude Revolucionária Copeiana.

A palavra "revolução" me atraía: soava um pouco por todas as partes da Venezuela, mas não muito nas minhas partes, que sempre foram conservadoras. Logo, porém, eu percebi a armadilha e não votei mais naqueles políticos corruptos que perpetuavam a pobreza. E depois Hugo Chávez começou a percorrer os campos, para explicar com palavras simples quem era responsável pela miséria que ele também tinha sofrido quando criança, vendendo doces na rua. O seu discurso era igual ao meu. Enquanto isso, o assassinato de Dom Romero em El Salvador e depois dos jesuítas, os mártires da Universidade Centro-Americana (UCA), tinham provocado uma virada na minha vocação. Eu queria seguir o seu exemplo, o de Jesus de Nazaré: fazer-me pobre entre os pobres. Conceber o padre como um profissional da religião significa desperdiçar a própria vida. Na Gregoriana, um dos melhores professores que eu lembro era um velho jesuíta colombiano que nos ensinou o marxismo por três semestres.

E como o senhor avalia Bergoglio, o primeiro papa jesuíta da história? Alguns teólogos da libertação temem que ele acabe se opondo ao Socialismo do século XXI, como Wojtyla fez com o comunismo. Estar ao lado dos pobres não significa suportar o seu resgate.

É cedo para dizer, mas os primeiros sinais são positivos. Na juventude, Bergoglio fez parte da teologia do povo, a corrente argentina da teologia da libertação. Eu não compartilho as acusações de conivência com a ditadura militar que, no início, lhe foram dirigidas por causa da prisão de alguns jesuítas. Eu sei que ele certamente tentou avisá-los do perigo que corriam, mas eles não quiseram fugir, permaneceram nos bairros e foram presos e torturados; felizmente, não foram mortos. E depois, como ele confirmou recentemente em uma conversa com um artista argentino, Bergoglio compartilha o sonho de Bolívar da Pátria Grande. Acho que este papa está realmente tentando mudar o conservadorismo de uma certa Igreja de Roma e deve ter cuidado.

Na Venezuela, a escravidão se prolongou tanto também porque cada bispo tinha o seu grupo de escravos que não queria perder. Eu vim ao Vaticano para ser útil ao meu país, não para aparecer nas cerimônias desse tipo de Igreja triunfalista. Antigamente, a santidade de alguns era estabelecida pelo povo. O bispo Romero é há muito tempo "São Romero da América". Pedimos a canonização do médico dos pobres, José Gregorio Hernández, que há mais de um século as pessoas veneram como santo. Figuras como essa servem para unir o povo, também nesta situação delicada que a Venezuela vive.

A delegação venezuelana da qual o senhor fez parte entregou a Bergoglio uma cópia do Plan de la patria, o programa estratégico aprovado pelo parlamento que a Conferência Episcopal Venezuelana considerou, ao contrário, como uma ofensa à oposição à qual ela sempre se inclinou. Como o senhor avalia a mediação do Vaticano nos colóquios de paz em andamento entre o governo e a oposição?

A Venezuela é um país muito católico. O chavismo surgiu das massas católicas, e estas se sentem abandonadas pelas hierarquias eclesiásticas, que não souberam entendê-lo: por que – o povo se pergunta – o padre me fala mal do governo, se antes eu tinha fome e agora não tenho mais, se antes eu era analfabeto e agora sou instruído e tenho computador gratuito com acesso wi-fi? Assim, o povo continua sendo crente, mas, sem o sacerdote, vive órfão da sua Igreja.

Foi o que eu percebi durante a doença de Chávez, correndo de um bairro a outro para fazer orações: com o coração na mão e o pranto nos olhos, para dar ao povo a coragem de continuar caminhando. Chávez era um homem muito crente, profundamente espiritual, com uma dimensão do transcendente que ele enraizou na história, no amor ao próximo e no socialismo. E por isso ele foi um gigante. Mas as hierarquias católicas não o entenderam. Pouco antes de morrer, antes de partir para Cuba para os últimos tratamentos, ele me chamou para pedir a confirmação de algumas citações bíblicas; lembro que era o primeiro capítulo de Isaías. Ele queria que eu estivesse ao seu lado, que rezasse missa para o povo fora de Miraflores.

E agora não foi a Conferência Episcopal, mas sim o presidente, Nicolas Maduro, que leu a carta pela paz enviada pelo Papa Francisco. Por enquanto, o novo núncio apostólico, Aldo Giordano, está se movendo com respeito por ambas as partes. Não pedimos que ele seja chavista, mas sim que seja honesto com a realidade e, consequentemente, com a verdade. O processo bolivariano não é perfeito, pode ter cometido erros e acolheu pessoas que não cumprem sua própria tarefa como deveriam, mas construiu muitas coisas boas sobre as quais não se pode mentir.

Em Mérida, sua região de origem, está a histórica Universidad de Los Andes (ULA), onde o irmão mais velho de Hugo Chávez, Adan, que o iniciou ao marxismo, também lecionou. Hoje, a ULA é um dos focos de protesto da oposição. O que aconteceu?

Os protestos violentos dos últimos meses realmente não se compreendem sem se levar em conta o paramilitarismo e o narcotráfico, que têm interesse em incendiar a fronteira com a Colômbia. Aqueles que são retratados como estudantes, na maioria das vezes, não o são, como indicam as estatísticas e como grande parte do jornalismo internacional silencia, cuja ética hoje está nos mínimos históricos. Graças à união cívico-militar, a população acompanhou mais de 2.000 soldados para restaurar a calma em Mérida. Sem disparos. O diálogo vai bem, mas é difícil obter a paz quando há forças que respondem a interesses externos e não aos do próprio país. As mães que perderam os filhos degolados pelo fio esticado na rua pelos guarimberos consideram a eventualidade de uma anistia como o triunfo da impunidade. Como é possível colocar novamente em liberdade quem ateou fogo nas universidades, em uma creche cheia de crianças ou em um centro médico com a equipe cubana em seu interior? Mas é preciso avaliar que, na prisão, não permanecem inocentes que talvez foram presos na blitz de policiais que queriam parecer eficientes.

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