Advento, tempo inquietante: é hora de acordar. Artigo de Walter Kasper

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01 Dezembro 2015

A luta contra o mal, contra as tentações, deve ser sustentada todos os dias. Como cristãos bem despertos, é necessário que, todos os dias, saibamos reconhecer os "sinais dos tempos" e as possibilidades que se descerram, com inteligência, mas também com a coragem e a confiança de enfrentar e fazer o que é possível hoje.

A opinião é do cardeal Walter Kasper, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, em artigo publicado no jornal Avvenire, 27-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Estamos vivendo um tempo inquietante: um tempo repleto de conflitos cruéis, repleto de atentados terroristas insidiosos, repleto de insegurança e de angústia por aquilo que pode acontecer.

Valores e ordenamentos até agora sólidos estão abalados; muitas pessoas perderam a orientação. Para muitos, ainda conta apenas o consumo e o lucro privado do momento. Para nós, cristãos, a cada ano, o tempo do Advento significa uma pausa, para pararmos e tomarmos consciência de novo daquilo que nos suporta e nos sustenta, daquilo que dá sentido e direção à nossa vida.

Dos textos bíblicos que são lidos na liturgia da Igreja no tempo do Advento, fazem parte as visões apocalípticas sobre o "fim do mundo". O capítulo 13 do Evangelho de Marcos retrata um quadro de terror: sol e lua se escurecerão, as estrelas cairão do céu, e as potências que estão nos céus serão abaladas.

Essas imagens decorrem de uma concepção de mundo própria do passado, mas também hoje dizem algo decisivo: o nosso mundo não é eterno, e nada neste mundo é eterno. Os ordenamentos aparentemente seguros, nos quais nós confiamos principalmente, são efêmeras. O grandioso sistema do mundo e os grandiosos sistemas deste mundo, um dia, vão entrar em colapso. Não podemos confiar neles definitivamente.

Talvez, já não vivemos justamente isso muitas vezes? Dos poderosos reinos da história, da sua fabulosa riqueza e das cidades repletas de tesouros artísticos, restaram apenas ruínas. No tempo da nossa vida, caíram o Muro de Berlim e a Cortina de Ferro, e, com eles, entraram em declínio, quase da noite para o dia, o império da União Soviética, que visava a dominar o mundo, e a ideologia do comunismo.

O capítulo 13 do Evangelho de Marcos, no entanto, não termina com uma mensagem de terror. Ela nos diz, ao contrário, o que permanece, em que podemos confiar, sobre o que podemos construir de modo duradouro a nossa vida: "Céu e terra passarão, mas as minhas palavras não passarão".

A palavra de Deus permanece para a eternidade. De fato, Deus é fiel; podemos confiar n'Ele. Pode-se construir sobre a Sua palavra. "Tu, Senhor, és nosso Pai, desde sempre tu te chamas 'nosso Redentor'" (Is 63, 16).

A palavra de Deus, acima de tudo, é uma palavra de promessa e de esperança. Ela nos diz: Deus é o Senhor do mundo e da história. Ele tem os seus fios nas suas mãos. No fim, Ele vai reunir os eleitos dispersos, os justos por graça de Deus, que vivem de acordo com a palavra de Deus, de todas as direções e vai estabelecer o reino da paz, da justiça, da verdade e do amor.

Então, Deus será tudo em todos (1Cor 15, 28). Por isso, os mandamentos de Deus também têm uma estabilidade permanente. Eles não são resíduo ultrapassado, fora de moda, eles também são para nós hoje um indicador seguro da estrada. Eles não querem encapsular a nossa vida e nos privar da nossa liberdade. São palavras de vida; querem nos ajudar a fazer com que a nossa vida seja bem sucedida e feliz; querem nos conduzir à vida verdadeira, plena, à vida eterna.

No nosso tempo, em que muitas pessoas estão decepcionadas com a vida, e a esperança tornou-se mercadoria rara; tempo em que domina a decepção, o desânimo e a resignação, nós, cristãos, podemos ser pessoas do Advento, pessoas da confiança, testemunhas da esperança.

Sem esperança, de fato, ninguém pode viver: nenhuma pessoa individual, nenhum povo e muito menos a Igreja. Devemos testemunhar que a vida e o mundo não correm rumo ao vazio, mas vão desembocar no reino de Deus.

A esperança cristã não está dirigida às calendas gregas. Ela não é espera por um futuro utópico. A esperança na vinda de Cristo se dirige ao presente: agora é o tempo oportuno; agora é a hora. Cada dia é importante. Cada momento pode ser a hora de Deus.

Isso nos é dito hoje. O cansaço, a indiferença e a indolência de nós, cristãos, são um grande perigo. Por isso, no Novo Testamento, diz-se: "Sejam sóbrios e fiquem de prontidão! Pois o diabo, que é o inimigo de vocês, os rodeia como um leão que ruge, procurando a quem devorar" (1Pd 5, 8).

A luta contra o mal, contra as tentações, deve ser sustentada todos os dias. Como cristãos bem despertos, é necessário que, todos os dias, saibamos reconhecer os "sinais dos tempos" e as possibilidades que se descerram, com inteligência, mas também com a coragem e a confiança de enfrentar e fazer o que é possível hoje.

Essa confiança e essa esperança são vitais para toda a nossa existência de cristãos.

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