O trabalho não é uma engrenagem que tritura recursos para obter lucros, diz o Papa

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Por: André | 10 Novembro 2015

Devemos cuidar da possibilidade de poder descansar. “Que não falte o direito à aposentadoria”. Devemos ter consciência da “elevadíssima dignidade de cada um dos trabalhadores. Recolhendo a contribuição durante e depois do período ativo, contribuindo para a qualidade de seu compromisso como investimento para uma vida na medida do homem”. Este é o apelo que o Papa Francisco fez, no sábado, durante o encontro com os dirigentes e funcionários do Instituto Nacional Italiano para a Seguridade Social, Instituto Nazionale di Previdenza Sociale, INPS.

A reportagem é de Domenico Agasso Jr e publicada por Vatican Insider, 07-11-2015. A tradução é de André Langer.

“Com viva cordialidade dirijo minha saudação a vocês, funcionários e dirigentes do Instituto Nacional Italiano para a Seguridade Social, reunidos aqui em audiência pela primeira vez na história secular da entidade”, começou o Papa depois da saudação do presidente Tito Boeri.

Depois observou: “Vocês honram, de diferentes formas, a delicada tarefa de tutelar alguns direitos ligados ao exercício do trabalho; direitos baseados na própria natureza da pessoa humana e sobre sua importante dignidade. Está confiada à atenção de vocês de forma particular aquela que gostaria de definir como a custódia do direito ao descanso. Refiro-me não somente àquele descanso que é mantido e legitimado por uma ampla série de benefícios sociais (do dia de repouso semanal às férias, ao qual cada trabalhador tem direito), mas também e, sobretudo, a uma dimensão do ser humano que não carece de raízes espirituais e da qual vocês, no que lhes diz respeito, também são responsáveis”.

O Papa recordou também que “Deus chamou o homem para o descanso e Ele mesmo foi partícipe deste no sétimo dia. Portanto, o descanso, na linguagem da fé, é uma dimensão humana e ao mesmo tempo divina. Mas com uma prerrogativa única: aquela de não ser uma simples abstenção da fadiga e do empenho ordinário, mas uma oportunidade para viver plenamente a própria ‘criaturalidade’, elevada à dignidade filial do próprio Deus”.

Por isso, a exigência de “santificar” o repouso está relacionada à exigência de “um tempo que permita ocupar-se da vida familiar, cultural, social e religiosa, fazendo de todos estes horizontes um espaço e um tempo para Deus e para o homem”. E, por isso, também os dirigentes e funcionários do Instituto são, “em certo sentido, colaboradores” “do justo descanso dos filhos de Deus”.

Mas isto “que é uma honra, converte-se ao mesmo tempo em uma responsabilidade. De fato, vocês estão chamados a enfrentar desafios sempre mais complexos. Esses provêm seja da sociedade hodierna, com o estado crítico de seus equilíbrios e a fragilidade das suas relações, seja do mundo do trabalho, flagelado pela insuficiência ocupacional e pela precariedade das garantias que consegue oferecer”.

O Papa, na sequência, acrescentou que “o repouso é um direito que todos temos quando temos trabalho; mas se a situação de desemprego, de injustiça social, de trabalho informal, de precariedade no trabalho é tão grande, como posso descansar? O que decidimos? Podemos dizer – é vergonhoso!: ‘Ah, tu queres trabalhar? – Sim – Sensacional. Então, vamos fazer um acordo: tu começas a trabalhar em setembro, e até julho. De julho a setembro não comes, não descansas...’. Isto acontece hoje! E acontece em todo o mundo; acontece também em Roma! Descanso porque tenho trabalho. Pelo contrário, não se pode descansar”.

De fato, “até recentemente era comum associar a aposentadoria com a chamada terceira idade – revelou o Papa –, tempo para gozar do merecido descanso e oferecer sabedoria e conselhos às novas gerações. A época contemporânea mudou sensivelmente este ritmo. Por um lado, a eventualidade do descanso foi antecipada, às vezes diluída no tempo, às vezes renegociada até os extremos aberrantes, como aquele que chega a desnaturalizar a hipótese mesma de uma cessação do trabalho. Por outro lado, não diminuíram as exigências assistenciais, tanto para aqueles que perderam ou nunca tiveram um trabalho, quanto para aqueles que são obrigados a interrompê-lo por diferentes motivos. Se tu interrompes o trabalho, perdes a assistência sanitária...”.

A difícil tarefa do INPS é “contribuir para que não faltem os subsídios indispensáveis para a subsistência dos trabalhadores desempregados e de suas famílias. Não falte entre suas prioridades uma atenção privilegiada para o trabalho feminino, nem muito menos a assistência à maternidade que sempre deve tutelar a vida que nasce e de quem a serve diariamente”. Mas também tutelar “as mulheres, o trabalho para as mulheres! Que jamais falte um seguro para a velhice, para a doença, para os acidentes de trabalho. Que não falte o direito à aposentadoria e destaco: o direito, porque é disso que se trata. Estejam conscientes da elevada dignidade de cada um dos trabalhadores, aos quais vocês emprestam o seu trabalho. Sustentando a contribuição durante e depois do período de trabalho, contribuindo para a qualidade de seu compromisso como investimento para uma vida na medida do homem”.

O Pontífice salientou que trabalhar quer dizer “prolongar a obra de Deus na história, contribuindo de maneira pessoal, útil e criativa”; por isso, apoiando o trabalho “vocês estão apoiando este mesmo trabalho. E também garantindo uma existência digna àqueles que têm que deixar a atividade laboral, vocês afirmam sua realidade mais profunda: o trabalho, de fato, não pode ser uma mera engrenagem no mecanismo perverso que tritura recursos para obter lucros sempre maiores; o trabalho, portanto, não pode ser alongado ou encurtado em função do lucro de uns poucos e de formas produtivas que sacrificam valores, relações e princípios”.

Isto vale para a economia em geral, que “não pode recorrer a remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando dessa maneira novos excluídos”. E vale, de maneira análoga – exclamou Bergoglio –, “para todas as instituições sociais, cujo princípio, autor e fim é e deve ser a pessoa humana. Sua dignidade nunca pode ser prejudicada, nem mesmo quando deixa de ser economicamente produtiva”.

“Alguém de vocês – acrescentou – pode pensar: ‘Mas que estranho este Papa: primeiro nos fala do descanso e depois diz todas estas coisas sobre o direito ao trabalho!’ São coisas entrelaçadas. O verdadeiro descanso vem justamente do trabalho. Tu podes repousar quando estás certo de ter um trabalho seguro, que te dá uma dignidade, a ti e à tua família. E tu podes descansar quando na velhice estás seguro de ter a aposentadoria, que é um direito. As duas coisas estão entrelaçadas: o verdadeiro descanso e o trabalho”.

O imperativo é: “amparar os mais fracos, para que a nenhum deles falte a dignidade e a liberdade de viver uma vida autenticamente humana”.

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